15 março 2016

Território da alma humana (5)



Uma das características que resgata as HQs como componente geracional, ou seja, inerente à geração atual, é determinado pelas propriedades hibridizadas de sua linguagem, devido aos elementos semântico de sua matriz visual verbal. Barbieri (1998) defende a premissa de que as várias formas de linguagem não estão separadas, mas, sim, interconectadas. Ele usa uma metáfora para explicar seu ponto de vista. A linguagem seria como um grande ecossistema, cheio de pequenos nichos distintos uns dos outros (que chamou de ambientes). Cada nicho (ou ambientes) teria características próprias, o que garantiria autonomia em relação aos demais. Isso não quer dizer, no entanto, que não possam compartilhar características comuns. Assim os quadrinhos dialogam com recursos da ilustração, da caricatura, da pintura, da fotografia, da parte gráfica, da música e da poesia (trabalhadas por Barbieri de forma integrada), da narrativa, do teatro e do cinema.


Ramos (2009) definiu histórias em quadrinhos como um grande rótulo. Um hiper gênero, queagregaria diferentes outros gêneros, cada um com suas peculiaridades. O termo hiper gênero é usado por Maingueneau em mais de uma obra (2004, 2005, 2006). O linguista defende que se trata de um rótulo que daria as coordenadas para a formatação textual de vários gêneros que compartilhariam diversos elementos. O autor cita como exemplo o caso do diálogo, presente em vários gêneros.


Em seu estudo sobre Mundialização e Cultura (1994), Renato Ortiz informa que a associação entre consumo e nação não se faz somente no caso da publicidade. Também as histórias em quadrinhos são vistas como cimento da unificação nacional: inculca nas crianças conceitos comuns, doutrinas, atitudes, sentimentos. Consideradas como diversão, expressam a autenticidade das crenças e dos sonhos do homem médio americano. Os gibis difundem uma consciência do destino e das aspirações da América.

Os quadrinhos surgiram como uma consequência das relações tecnológicas e sociais quealimentavam o complexo editorial capitalista, amparados numa rivalidade entre grupos jornalísticos (Hearts vs. Pulitzer), dentro de um esquema preestabelecido para aumentar a vendagem de jornais, aproveitando os novos meios de reprodução e criando uma lógica própria de consumo. Outra definição abrangente para tentar explicar e enquadrar as HQs foi talhada pelo quadrinhista e pesquisador das HQs, Will Eisner. Ele criou o termo Arte Sequencial com o intuito de renomear as histórias em quadrinhos, nos EUA chamadas comics. O termo criado por Eisner traz incorporada a palavra 'arte', associando a palavra ao termosequencial”, que visa definir toda a narrativa de imagens em sequência. Esse termo foi largamente divulgado depois que ele lançou o livro Quadrinhos Arte Sequencial.  Na introdução de seu outro livro Narrativas Gráficas, Will Eisner escreveu:


Em nossa cultura, os filmes e as revistas em quadrinhos são os principais contadores de histórias através de imagens. Todos eles empregam imagens e texto, ou diálogo. Enquanto o cinema e o teatro constituíram sua reputação e se estabeleceram um bom tempo, a história em quadrinhos continuam lutando para serem aceitas, mas esta forma de arte, depois de mais de um século em uso popular, ainda ´tida como um veículo literário problemático. Na segunda metade do século XX houve uma mudança na definição do que é literatura. A proliferação do uso de imagem como um fator de comunicação foi intensificado pelo crescimento de uma tecnologia que exigia cada vez menos a habilidade de se ler um texto. Dos sinais de trânsito às instruções mecânicas, as imagens ajudaram as palavras e, muitas vezes, até as substituíram. Na verdade, a leitura visual é uma das habilidades obrigatórias para a comunicação neste século. E as histórias em quadrinhos estão no centro desse fenômeno. (...). Como as revistas em quadrinhos são de fácil leitura, sua utilidade vem sendo associada a uma parcela da população de baixo nível cultural e capacidade intelectual limitada. Na verdade, o conteúdo das histórias em quadrinhos atendeu a esse tipo de público durante décadas. Muitos criadores ainda se contentam em fornecer pouco mais do que entretenimento descartável e violência gratuita. Não é para menos que, durante um longo tempo, houve pouco entusiasmo por parte das instituições educacionais em aceitar os quadrinhos. A predominância da arte no formato tradicional dos quadrinhos chamou mais atenção para esta forma do que para seu conteúdo literário. Portanto, não é de se surpreender que os quadrinhos, como uma forma de leitura, sempre tenham sido vistos como uma ameaça à própria literatura, como havia sido definido na era pré-visual/eletrônica”. (EISNER, 2008, p. 07)

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