18 janeiro 2016

Deus e o Diabo no humor das mulheres (01)


A tese de doutorado de Alba Valéria Tinoco Alves Silva, Deus e o Diabo no Humor das Mulheres
(contos, casos e crônicas com humor escritos por mulheres) foi publicada pela Edufba em 2015. A obra faz uma reflexão sobre o lugar da mulher na nossa sociedade, a partir de sua produção literária pelo viés do humor e da comicidade. Questiona o baixo desempenho da mulher em relação ao humor, no âmbito da literatura brasileira. Revisa algumas teorias do humor a partir das noções de superioridade, incongruências e catarse, e exemplifica o uso de mecanismos de construção de humor em textos narrativos de autoria feminina.

Organizado em quatro capítulos, o livro traz alguns estudos sobre o humor. O foco do segundo capítulo é a relação entre as mulheres e o humor com trabalhos de pesquisadoras do humor de mulheres nos EUA. O capítulo três menciona alguns procedimentos de construção do humor, com base no trabalho de Vladimir Propp (Comicidade e riso). no último capítulo, trechos de contos, casos e crônicas com humor escritos por mulheres no Brasil.

uma série de fatores da invisibilidade da mulher no humor:  a exclusão da mulher de uma série de profissões até recentemente; a hegemonia masculina no mercado editorial, entre outras. E a própria autora analisa:A questão é que o humor é diferente. O humorista vai de encontro aos valores publicamente  aceitos da cultura, ele mostra que os pés dos santos são de barro, diz que não apenas o imperador está nu, mas também estão o político, o piedoso e o pomposo. Para as mulheres, tomar tal atitude significa quebrar as regras da posição passiva e subordinada, que lhes foi conferida por séculos de tradição patriarcal, e revelar as vergonhas, hipocrisias e incongruências da cultura dominante. Ser uma mulher e humorista é confrontar e subverter o próprio poder que mantêm a mulher impotente e, ao mesmo tempo, correr o risco de confrontar justamente aquelas de quem ela é dependente. O delicado equilíbrio entre poder e impotência é a questão central dos temas e das formas do humor que a mulher escreve(pag. 61).

De onde vem o mito da falta de humor das mulheres? Questiona Alba na página 70. Ela responde:A lógica, a razão e o pensamento analítico se tornaram províncias masculinas enquanto à mulher foram atribuídos a intuição, o sentimento e a moralidade. As duas idealizações prevalentes da mulher do século XIX, a mulher espiritual e a mãe-terra, eram igualmente desprovidas de intelecto; quer ela levasse o homem para o plano espiritual ou telúrico, as funções e a natureza femininas continuavam intocadas pelo intelecto.

Entre os fatores que corrobora a ideia de que a mulher é menos afeita ao humor na língua portuguesa, entre as formas de tratamento dado à mulher estão os exemplos: termos que designam os animais masculinos (galo, touro, cão) têm uma acepção positiva, enquanto os seus equivalentes, no feminino (galinha, vaca, cadela) têm acepções negativas, associadas à mulher, qualificando-a como leviana e promíscua.

Segundo a autora, anegação do senso de humor das mulheres não é uma questão isolada ou trivial. Pelo contrário, é parte de uma complexa teia de pressupostos culturais. À medida que a mulher é vista como apoio, objeto sexual e serva doméstica, ela não pode ao mesmo tempo ter a permissão de ter senso de humor, com sua necessária afirmação de superioridade e sua crítica fundamental à realidade social(pag.86).

Em sua pesquisa, Alba estudou 12 obras dedicadas ao humor no Brasil e chegou a esta conclusão:

História da Caricatura no Brasil. V.1 (2012), de Luciano Lustosa não tem nenhuma mulher.
Entre sem Bater (2004), de Luis Pimentel tem 93 humoristas e 1 mulher, Nair de Teffé (foto).
Piracicaba 30 Anos de Humor (2003): 189 humoristas e 07 mulheres
Barão de Itararé: o humorista da democracia (2002), de Leandro Konder: 15 humoristas, nenhuma mulher.
Raízes do Riso (2002), de Elias Thomé Saliba: 51 humoristas, nenhuma mulher.
Os 100 Melhores Contas de Humor da Literatura Universal (2001): 21 escritores brasileiros e 1 mulher.
Revista Bundas (1999): 36 colaboradores, nenhuma mulher.
Antologia Brasileira de Humor (1976): 2 mulheres: Ciça e Mariza, entre outras obas.

uma presença rarefeita de nomes femininos no humor gráfico. Temos Rian, Hilde, Yolanda, Mariza, Ciça, e Pryscilla Vieira, cita a autora. O tema humor feminino foi pouco explorado nos meios acadêmicos brasileiros e que pode interessar a pesquisadores de humor e de gênero. A obra lança um novo olhar sobre o texto literário da mulher brasileira através das lentes do humor. A pouca visibilidade do humor produzido por mulheres no Brasil é uma questão de tempo. Afinal, como concluiu Alba,quem ri por último ri melhor.

ANGOULÊME

O Grande Prêmio de Angoulême, uma das premiações mais prestigiadas no mundo dos quadrinhos, está sofrendo um boicote. O motivo é que das 30 pessoas indicadas como finalistas neste ano nenhuma é mulher. A 43ª edição do festival acontecerá entre os dias 18 e 31 de janeiro na cidade do oeste da França. Ao menos dez artistas já aderiram ao boicote organizado pelo grupo BD Égalité, que luta pela igualdade de gênero nas HQs.

Detalhes e opiniões das cartunistas:

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