06 novembro 2015

Carlos Zéfiro: um mito do quadrinho erótico brasileiro (4)


Dos anos 50 até a década de 1960 circularam clandestinamente, por todo o Brasil, os chamados
catecismos, pequenas revistas de 32 páginas que cabiam no bolso e contavam histórias de sacanagem. O principal autor desse gênero, e também o melhor, assinava como Carlos Zéfiro e durante mais de trinta anos sua identidade foi mantida em mais absoluto segredo. As cobiçadas histórias em quadrinhos de cunho erótico que ficaram conhecidas por "revistinhas" ou "catecismos", fizeram a cabeça e as fantasias sexuais dos adolescentes dos anos 50 e 60. Os "catecismos" eram desenhados diretamente sobre papel vegetal, eliminando assim a necessidade do fotolito, e impresso em diferentes gráficas em diferentes Estados, gerando, inclusive, diversos imitadores.

O pacato funcionário do Departamento Nacional de Imigração, de nome Alcides Caminha, realizava, nas horas vagas, diversos desenhos quando um colega lhe apareceu com duas revistinhas italianas e, sabendo do talento do amigo para o desenho, lhe pediu que ampliasse os desenhos. Alcides tomou gosto pela coisa, e a partir daí passou a criar suas próprias histórias, utilizando-se diversas vezes do artifício de copiar desenhos e posições de outras revistas e fotonovelas eróticas. Temendo perder o emprego - e, depois de aposentado, sua humilde pensão - caso se envolvesse em escândalos (em função da antiga Lei 7.967, que regia o funcionalismo público), Alcides adotou o nome fictício de Carlos Zéfiro, e passou a produzir inúmeras historinhas na clandestinidade.

Alcides também tinha dotes musicais: amigo de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, compôs quatro sambas com o último, entre eles o clássico "A Flor e o Espinho". Mas foi mesmo com sua identidade secreta que Caminha conheceu o sucesso, mesmo que sem retorno financeiro. Ele iluminou o imaginário libidinoso do contido e conservador Brasil das décadas de 50 a 70. Um artista de desenhos toscos e sem técnica que foi durante anos a fio tachado de pornográfico, e manteve-se na clandestinidade até os setenta anos, quando sua identidade foi finalmente revelada.

Durante quase toda a década de 60 essa era praticamente a única literatura visual erótico-pornográfica disponível, já que ainda não havia revistas de mulher nua (a não ser a Playboy americana importada) nem vídeos-pornô. A decadência dos catecismos ocorreu porque começaram a aparecer revistas de fotonovelas suecas e dinamarquesas coloridas e o interesse do público se desviou. Outro motivo era a paranóia gerada pela ditadura militar brasileira, então no seu auge. Hélio Brandão chegou a ser preso em meados da década de 70 (durante a Copa do Mundo) e passou alguns dias na cadeia, mas nunca entregou a verdadeira identidade de Zéfiro. Depois disso, resolveu parar com a editora clandestina, pois estava tendo mais dor de cabeça do que qualquer outra coisa. As vendas tinham caído, era difícil arranjar os esquemas de impressão e distribuição devido à vigilância e paranóia que se intensificavam, e simplesmente pararam.

Inspirados nos notórios Tijuana Bibles publicados nos EUA nas décadas de 30 e 40, esses gibis quase artesanais eram distribuídos através de uma ampla rede clandestina que cobria todo o país e fizeram enorme sucesso. Naqueles tempos, não havia revistas eróticas vendidas livremente como hoje. Todas eram clandestinas. Elas eram vendidas por baixo do pano, de mão em mão e também nas bancas normais, só que às escondidas. Para comprar os catecismos era necessário ser da confiança do jornaleiro.


Carlos Zéfiro (o mestre dos quadrinhos pornôs brasileiros) soube como ninguém retratar o sexo como ele o é na vida real, sem falsos pudores, sem hipocrisia, com tesão, com poesia, não respeitando nenhum tabu e desvendando-nos todas as fantasias. Ele dizia-se honrado por fazer parte da história do Brasil. Mas não se importa muito. Afinal, "tudo na vida é muito efêmero. Hoje se está no apogeu, amanhã no ostracismo".

Em 1970, durante a ditadura militar, foi realizada em Brasília uma investigação para descobrir o autor daquelas obras pornográficas que chegou a prender por três dias o editor Hélio Brandão, amigo do artista, mas que terminou inconclusa. Em 1992 recebeu o prêmio HQMix, pela importância de sua obra. Após sua morte teve um trabalho publicado como homenagem póstuma em 1997 na capa e no encarte do cd "Barulhinho Bom" da cantora Marisa Monte.

Utilizando uma linguagem chula, Zéfiro permeou todo o imaginário popular. Por suas páginas, desfilaram as grandes musas da garotada: viúvas sedentas, desquitadas carentes, padres devassos, freiras pecaminosas, refletindo a realidade provinciana e reprimida do nosso velho Brasil. “Acho que ele foi o único artista de quadrinhos que possuiu um substrato popular. Seu estilo era genial. E inconfundível. Sua narração era muito bem conduzida, de uma forma que jamais vi novamente, mesmo nas revistas internacionais”, declarou o desenhista Luis Gê. Octacílio D´Assumpção, autor de “O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro” declarou que Zéfiro desconhecia a dimensão de seu trabalho: “Ele nunca teve a consciência de sua importância. Sempre foi muito simples!”.


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