01 dezembro 2011

As representações femininas no pagode baiano da década de 90 (3)

3. LADOS OPOSTOS DA MESMA MOEDA


A pornografia é o erotismo dos outros”. A frase do escritor francês Alain Robbe-Grillet (1922/2008) nota-se a crítica à concepção elitista na qualminha vida sexualé saudável, segura, repleta de sentimentos everdadeiramenteprazerosa, portanto erótica, enquantoa dos outrosé promíscua, pervertida, animalesca, vulgar, grotesca e frustante, ou seja, pornográfica. Assim, erotismo e pornografia representam os dois lados de uma mesma moeda de prazeres, desejos e comportamentos. O erótico está associado à sexualidadelimpa”, legal e organizada, aceita por grupos socialmente reconhecidos e com poder de fazer valer seus ideais e sentenças. O pornográfico, por sua vez, é a encarnação do sexo ilegítimo e desestruturado dos valores preestabelecidos, figurando como o lado maldito dessa moeda.


Para o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930/2002), o processo de dominação social ocorre não apenas por meios econômicos ou políticos, mas também simbólicos. Trata-se de uma “luta simbólica” pela legitimidade das representações e práticas sexuais. Para os detentores do gosto legítimo a pornografia resume a crueza literal das classes populares e seus gostos “vulgares”. A pornografia é considerada perigosa porque é o erotismo “das massas” e estas são sempre vistas com receio”. Esta associação deixa claro o cunho político do sexo e os tantos discursos que se pretendem legítimos sobre ele e o que se faz dele. Há toda uma estéticas do sexo que separa os “doentes” e “perigosos” dos “sadios” e “respeitáveis”.


A luta por separar o erótico do pornográfico, tendo em vista a classificação de materiais, é a batalha por legitimar um poder estabelecido por intermédio da distinção social. Desse ponto de vista, a pornografia não seria apenas o sexo dos outros, mas estaria associada ao sexo das classes populares, das massas e de todos aqueles que possuem “capital cultural”, ou o chamado gosto legítimo. Pornografia é também o nome dado ao erotismo dos “pobres”: pobres “de alma”, “de cultura” ou de dinheiro. Talvez por isso o mercado pornô, em sua fase legal ou não (e mesmo sendo uma indústria milionária), ainda esteja constantemente associada à ideia de penúria material e miséria moral, que envolve quem produz e quem consome – na maioria das vezes desqualificados e enquadrados no discurso da doença/delinquência. A tragédia da pornografia é pertencer ao ramo popular, ser barata e por isso mesmo estar associada simbolicamente a camadas sociais de menor poder sociocultural.


Assim, percebe-se quanto os conceitos de erotismo e pornografia (refiro-me sempre à legalizada), ou sexualidade “sadia” e “perversa”, são criações de grupos “estabelecidos” em certas estruturas de poder que buscam manter não só posições hierárquicas do ponto de vista sociocultural, mas a coesão de seus valores. Vale dizer que a dança do maxixe, o chamado “funk carioca”, as peças de Nelson Rodrigues (1912/1980) e mesmo a obra de William Shakespeare (1564/1616), em algum momento, já foram chamados de “pornográficos”.

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