06 dezembro 2011

As representações femininas no pagode baiano da década de 90 (5)

Em 1902 é gravada a primeira obra musical no Brasil, o lundu “Isto é Bom”, de Xisto Bahia. Trata-se de um gênero desenvolvido no século 19, a partir da estilização dos batuques de negros que cantavam e dançavam ao som de atabaques, marcando o ritmo com palmas: “O inverno é rigoroso/já dizia minha vó/quem dorme junto tem frio/quanto mais quem dorme só//isto é bom isto é bom/isto bom que dói...”. No mesmo ano surge a cançoneta “Não Empurre”, de autor não identificado. Gênero malicioso, de imitação do vaudeville francês, a cançoneta apresenta trechos falados/representados (como os rappes fazem hoje em dia), surgido no século 19. Os versos/prosas são de malícia explicitamente sexual: “Isto de bolinagem é uma questão de sorte/às vezes a gente toma o bonde e, sem querer, esbarra o pé de uma pequena que vai ao seu lado”; a pequena já responde: “Não empurre, não empurre, seu Manduca/não empurre, não empurre, que machuca/não empurre assim que dói”.


“Fuja do bicho mulher/rói por dentro/bem como a traça/é que motiva nossa desgraça”. Esses versos de um dos primeiros compositores brasileiros, Domingos Caldas Barbosa (1740/1800) mostrou o horror que a mulher causava à mentalidade patriarcal em voga. Era o pensamento da moral vigente e o autor reproduzia o pensamento da época com letras claramente machistas. Tais preconceitos carregam poesia dolorida, ressentimento e incompreensão. Não é por outra razão que a dor-de-cotovelo reinou absoluta durante tantos anos na música brasileira.


Sobre a letra de samba, Muniz Sodré informa no seu livro “Samba o dono do corpo” que “o texto verbal da canção não se limita a falar sobre (discurso intransitivo) a existência social. Ao contrário, fala a existência, na medida em que a linguagem aparece como um meio de trabalho direto, de transformação imediata ou utópica (a utopia é também uma linguagem de transformação) do mundo – em seu plano de relações sociais” (Pág. 34)


O estudioso conta que o samba “pode ainda hoje constituir-se numa prática de resistência cultural negro-popular. À margem dos circuitos de produção da indústria cultural, dissemina-se uma multiplicidade de lugares, onde a produção musical se dá de forma selvagem ou chorada (como antes com o lundu ou com o maxixe), em oposição a fórmulas polidas, prescritas pela lei do mercado”(pág.42).


O antropólogo Ordep Serra em seu livro “Rumores de Festa. O sagrado e o profano na Bahia” escreveu que “o erotismo constitui um traço marcante do samba de roda, que o assinala quase sempre. Essa dança dá destaque a movimentos da cintura pélvica e das coxas, que se projetam para a frente em rápidas flexões dos joelhos. O impulso projetivo é mais explorado pelos homens, ao passo que as mulheres capricham em produzir oscilações ondulatórias dos quadris: é o que se chama mexida, remelexo, ou mexer as cadeiras” (...). No centro da roda, homem e mulher por vezes executam mimos muito expressivos de atos sexuais, sem nenhum contacto físico, mas com um realismo mímico impressionante. Nessa dança, o homem faz os movimentos de penetração, a que a parceira corresponde com requebros e olhares lânguidos, como se a cópula fosse real” (...). Em geral, a abertura do ´samba de putaria` é uma cantiga com esta letra: Pau dentro/pau fora/quem tiver pau pequeno/que vá embora”.


Muitas vezes algumas palavras já pertenciam à gíria, mas sem conotação sexual, passando para a linguagem proibida ao receberem imagens populares que aludem aos órgãos genitais masculinos e femininos ou que se referem diretamente a atos sexuais. É o que ocorre, por exemplo, com a palavra cacete, na gíria comum significando maçante, na erótica, pênis. Ou com a palavra bolacha, anteriormente significando bofetada e, na gíria erótica, nádega. Trepar que, na gíria comum, significa falar da vida alheia, passa a significar o ato de copular.


Frases feitas permaneceram e muitos de nós as usamos sem saber de seu sentido pornográfico. Por exemplo: “pintar o rosto” refere-se a adultério feminino (“Marina, morena, você se pintou/não pinte esse rosto”); “sair para compras” ou “sair sozinha” também possui o mesmo significado (“Cadê Zazá, saiu dizendo: vou ali já volto já, e não voltou, por quê, por que será?”). E a letra O. Diz o Dicionário Moderno (escrito por volta de 1903) que a letra a é a primeira do alfabeto, que quer dizer muitas coisas e que é “coisa por onde a gente começa. Naturalmente por já ter as pernas abertas. Alguns, porém, começam, pelo ó”. Na marchinha carnavalesca: “Maria Candelária, é alta funcionária, saltou de pára-quedas, caiu na letra ó”, avisando-nos quais foram as provas para a contração da alta funcionária, o coito anal. A ausência de uma obscenidade declarada pode ser vista como reflexo fiel de uma época em que um comportamento burguês de “bom costume” procurava mascarar a latente ideológica falocrática.


O antropólogo Ruben George Oliven, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, estudando o imaginário brasileiro nas letras da música popular concluiu que a música brasileira é uma manifestação cultural privilegiada para a análise de representações masculinas sobre as relações entre os sexos. Os motivos são dois: a maioria dos letristas é homem e a MPB é uma das únicas instâncias públicas em que os homens se permitem falar com sinceridade de seus sentimentos. A música, explica o professor, é praticamente o único espaço público em que o homem conseguiu expor suas fragilidades. Ao contrário das mulheres, que têm mais espaço entre elas mesmas para falar, os homens, no espaço público, são socializados para falar de seus feitos, de coragem, mas nunca de suas fraquezas.

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