20 dezembro 2011

O que é que a música baiana tem? (6)

A participação corporal-erótico – através da dança se torna um importante critério de valoração para determinadas práticas musicais. O professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, Felipe Trotta em seu estudo “Critérios de qualidade na música popular: o caso do samba brasileiro” escreveu: “(...) o sexo é um assunto central, que aparece na música popular de diferentes maneiras e com legitimidade variada. Se a sensualidade ritmica da dança – ou da possibilidade da dança – pode funcionar como um critério positivo de valorização, a referência mais direta a simulações ao ato sexual ou a apelos textuais, visuais ou sonoros a posições eróticas quase sempre veem acompanhadas de violenta repreensão moral. O território da ética é um domínio fortemente presente no âmbito das valorações estéticas, configurando-se como um modo de ser próprio das estratégias de valoração. O belo e o bom são dois modos valorativos que desde a filosofia grega de Platão e Aristóteles apontava lado a lado para uma ´qualidade positiva das coisas, em termos morais, sociais e perceptivos`(SODRÉ; PAIVA, 2002, p.18). Se a música pode ser entendia como uma forma de compartilhar pensamentos e ações (BLACKING, 1995, p.236), materializados em visões de mundo, modelos de comportamento, códigos sociais, sentimentos e tensões emocionais, as implicações éticas são inerentes a qualquer prática musical” (p.127).


Mais adiante ele analisa a legitimidade estética na música de Roberto Carlos e a valorização de sua obra relacionada a um tipo de construção idealizada do amor do casal, vivenciado cotidianamente na prática sexual. “A afirmação de uma sexualidade efetiva na canção popular, contudo, manifesta-se num terreno delicado de negociações morais. Consciente deste limiar entre o ético e o estético, o compositor Erasmo Carlos, principal parceiro de Roberto em dezenas de sucessos, faz o seguinte comentário para um dos grandes sucessos da dupla, sugestivamente intitulado Cavalgada: ´Cavalgada é a narração de um ato sexual e nós temos consciência de que fomos muito felizes na escolha das palavras. Em vez de dizer `Vou trepar nessa mulher a noite inteira`, nos fizemos uma coisa de bom gosto para dizer a mesma coisa`(Apud ARAUJO 2006, p.381)”


“A fronteira do `bom gosto` é um determinante subjetivo para aferição da qualidade musical de uma canção ou de uma obra e a percepção de que este limite foi ultrapassado pode gerar sérias dificuldades de consagração legitimada. Uma das estratégias para driblar essa barreira é o humor. Narrativas de encontros sexuais aparecem em várias músicas de duplo sentido, com graus diversos de humor, presentes nas modas de viola do interior paulista, nas emboladas do nordeste, no forró, no samba e no próprio rock. Protegidos pela esfera da ironia, alguns artistas conseguem avaliações menos depreciativas e ocupam lugares hierárquicos variados no universo da música popular brasileira. Tais posições de legitimidade, apesar de instáveis, provocam reações oscilantes entre o desprezo, o riso e o consumo massivo, mas não são rejeitadas ferozmente como aquelas que abordam a temática sexual de forma mais explícita, como o É o Tchan”.(p.129)

Ao longo das décadas, as letras têm se aproximado da estética pornô. Há a exploração da representação da periguete, da mulher livre, dona de seu corpo e de seus desejos. A banda de pagode Black Style, liderada pelo cantor Robysão traz em suas composições letras que ordena “pererecas” para frente e para trás, “tchecas” ralando no chão, e “canhões” vazando. Em 2010 foi a vez de “Me dá a patinha”. Para o crítico musical Hagamenon Brito, “letras com duplo sentido, sacaninhas, fazem parte do samba desde que o samba é samba, desde que os negros davam umbigadas no terreiro e o batuque comia solto (…) Mas letra sacana é uma coisa, pornográfica é outra. Além de fazerem músicas ruins do ponto de vista de ritmo e do instrumental, grupo de pagode como Black Style soam pornográficas em letras como Me dá a patinha (…). Junto com a má educação, a mídia e a sociedade expandiram a vulgaridade a partir dos anos 90”.


No Carnaval 2010 a polêmica foi com a composição “Lobo Mau”, do até então pouco conhecido grupo O Back, formado por Piskuila, Keno e Bombado. A música pegou e a fantasia de Chapeuzinho foi a mais vista nas ruas. Apesar do sucesso, alguns artistas torceram o nariz para a versão em pagode da velha historinha infantil considerando pedofilia. O vocalista do Parangolé, Léo Santana fez sucesso em 2010, com “Rebolation”. No ano seguinte ele repetiu a fórmula da letra fácil pensada para dançar e com coreografia, a “Tchubirabiron”.


Duplo sentido é o que não falta. “Chupeta” traz os seguintes versos: “Toma negona, toma chupeta/toma negona, na boca e na bochecha/ Gugu dada, gugu dada/se você pedir painho vai te dar”, do cantor e percussionista Marcio Victor, do Psirico. Nas suas composições, a sacanagem está sempre ao lado do humor. Exemplo disso é outro sucesso, “Liga da Justiça”, feito em parceria com J.Telles, que brinca com caso amoroso entre o Super Homem e a Mulher Maravilha: “Foge, foge, Mulher Maravilha/Foge, foge, com Superman”.


Caetano Veloso fez referências elogiosas aos novos grupos de pagode baiano Psirico, Pretobom, Parangolé e Fantasmão chamando-os de “pretos da nova geração”. Eles começam e trabalham suas composições no período pré-carnavalesco, espalham seus CDs em todas as praças e barracas da cidade, na distribuição pirata que atinge logo o povão. O cantor Léo Santana no comando do Parangolé gritou para a multidão nos seis dias de folia em 2009: “Favela ê, favela/eu sou favela/respeitem o povo da favela”. O ex-percussionista da banda de Caetano Veloso, Márcio Victor sempre atento à linguagem que vem da periferia, comanda a banda Psirico.


O Fantasmão, liderada pelo vocalista Eddye começou a se destacar em 2008 misturando rap, reggae, samba, rock and roll e axé que ele denominou de groove arrastado, por ser mais cadenciado. Em seu canto: “Sou filho de preto, quero respeito/quem mora no gueto não é ladrão não” (Conceitos), ou “Mais não esqueça que a verdadeira voz do gueto é de vocês/quem lembra do quilombo/sabe o que a gente fez/lá o nego também tinha o seu valor”( Sou da ralé).

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