09 junho 2011

Balada de um Homem Solitáriuo (8)

A descoberta

Foi numa tarde, parado em frente a uma loja de artigos esportivos, vi uma bela moça. Lancei um olhar, um pouco sonhador, angustiado e levemente excitado, para contemplar o rosto. Fiquei surpreendido pela formosura dos negros cabelos e pela beleza quase infantil de fisionomia despreocupada. Os olhos dela eram evidentemente sem segredo, sem malícia, mas com vivacidade. A bela moça de quem o sonhara tantas noites maravilhosas, estava ali, diante de mim, vivinha da silva, bem materializada.

Olhei mais uma vez, duvidando da minha visão e vi mais, notei sua alva pele que parecia ser macia, a boca vermelho-vivo e um pescoço esguio. Tudo me agradava bastante. Fiquei assim contemplando e, aos poucos, fui me aproximando quando alguém saiu por trás da porta da loja. Era um rapaz quase da minha idade, com um par de raquetes e uma bola na mão.

Conversou animado, rapidamente e saíram daquele local. Fiquei simplesmente olhando, passivamente, tudo aquilo foi tão rápido. O rapaz que o acompanhara era alto e forte, tinha cabelos negros e ondulados e uma fisionomia aberta, quase semelhante a da moça. Parece que era irmão dela, pensei, mas tenho certeza que a perdi....para sempre. E vim a descobrir que pobreza é não ser amado, e miséria é deixar de ser amado.

Aquilo deixou algumas marcas que logo se foram apagando, pois quando voltava a sonhar, sonhava na realidade e via que a mulher é toda interioridade, acolhedora e calorosa. E ele, o homem, se revelava pelo que fazia. Ele atingia o mundo exterior fazendo, agindo. Ele dava o presente, ao passo que a mulher se revelava recebendo, acolhendo, interiorizando.

Cada homem e cada mulher descobrem o seu modo humano e próprio de aparecer diante do outro. Cada um sabe que aparece ao outro de uma forma especial e única. Ele não é ela, e ela não é ele, mas ambos sentem, nas suas diferenciações tão profundas a unidade, para onde marcham. Mas um não sabe como é que o outro vê sua forma e seu semblante, compreende suas atitudes e seus gestos, ouve a sua voz e percebe um todo indivisível.

Estava indo de encontro a Álvaro, pensativo, quando este me mostrou a badalação do momento: a eleição do novo presidente dos Estados Unidos – Nixon – que logo de início aproveitou uma ocasião para anunciar que as tropas norte-americanas seriam retiradas do Vietnã, uma guerra que se prolongou desde muito tempo. Enquanto o vasto noticiário tomava conta do jornal, as notas nacionais ficaram restritas aos rodapés das páginas.

-- Para mim – opinou Álvaro – acho que John Kennedy foi um dos melhores políticos dos Estados Unidos. Era um moralista radical, preocupado com a vida pobre das minorias étnicas.

-- Mas foi incapaz – retruquei – contudo, de questionar a ordem das coisas.

--Mas deixando a política de lado....há dias que não vejo no colégio, que lhe aconteceu?

-- Nada, Augusto, foi aborrecimento...

-- Olhe, sei muito bem quem você é, e esta resposta não justifica.

-- Ta legal, foi por causa de uma garota, sabe, a Dina...ando amarrado na menina.

-- Mas é isso a causa das suas faltas? Isso não resolve, rapaz. Quer um conselho, vá direto ao assunto, diga-lhe que está afim dela e pronto!

-- Você já está assim, é? Antes, chateava-se com as malandragens da turma, agora caiu nessa, hein?

-- Nada disso, Álvaro. A turma só falava neste assunto. Enchia! E sabe, também gostei de uma menina...Lembra-se daquele dia que cheguei atrasado?

-- Sei, apesar de seus casos amorosos serem desconhecidos por mim, conheço essa garota, sua sereia, não é verdade? Conheço-a de vista.

-- Não brinque comigo, rapaz....

-- É verdade, ainda hoje, quando vinha para cá, vi numa loja de disco lá na praça.

-- Então, tchau! Tenho esperança de revê-la.

E apressando meus passos, corri para o lugar indicado, encontrando-a na saída da loja. Álvaro não mentia.

--Que prazer eu sinto em vê-la! – e quase instintivamente, beijei-a de lkeve na testa.

-- Mas quem deu licença, moço? – perguntou-me.

-- Como?

-- Eu disse que você podia me beijar?

-- Não, mas também não disse o contrário. Desculpe, perdi a cabeça.

-- Pois eu não perdi a minha. Sabe, a última vez que o vi...

-- Nos sonhos – interrompi.

-- Não!, de verdade. Você estava parado, com um olhar vago, tão distante. Acompanhava meu irmão e não me aproximei porque estávamos com pressa.

-- Quer dizer que aquele rapaz era seu irmão?

-- Era não, é, por quê?

-- Ufa! Pensei que fosse seu namorado. E pelo susto que você me deu, passamos a namorar de verdade, antes que algum bicão chegue primeiro.

-- Certo, biquinho – aconchegando-se a mim o mais possível e, ao falar-me, inclinou-se de tal forma que seu seio pousou completamente em meu braço. Sentia-lhe perfeitamente o contorno puro e firme, e o seu suave calor.

Depois de um papo amigável e um acerto de conversa, voltei para casa radiante,. E pedindo tudo de bom para Álvaro, pois foi ele que me apontou o caminho. Meu pai, durante a sobremesa, deu-me a notícia de que ganhou as eleições para deputado, em Feira de Santana.

-- No momento em aceitei concorrer a uma vaga para a Câmara Federal – dizia-me -, por determinação unânime do Movimento Democrático Brasileiro, estava ciente da responsabilidade que assumia em defesa de uma luta nacionalista, que tem a finalidade de protestar contra essa política sócio econômica emanada do atual governo brasileiro. E diante dessas circunstâncias, teremos que morar em Feira de Santana.

Fiquei paralisado, tudo começava a conseguir aqui, iria por água abaixo, e isso aparentemente apresou a decisão que tomei de não acompanhar meus pais. Os mesmos insistiram, mas consegui convencê-los, pois teria que concluir o curso colegial. Sabia que a condição financeira de meus pais não era boa, ou melhor, nunca foi boa. O único jeito foi ficar morando com Álvaro, cuja condição era mais avantajada do que a minha, num dos pensionatos e ter que trabalhar como fotógrafo em um dos jornais da cidade. Estava com esses pensamentos na mente, quando meu pai ligou o rádio.

-- ...o boing DCF JAL, com mais de 90 passageiros, que se destinava à Índia, explodiu nas proximidades de Nova Delhi, matando a quase totalidade dfios seus ocupantes. Entre os passageiros do boing, encontrava-se a atriz Leila Diniz.

-- Leila Diniz?! – exclamei assustado.

-- Conhece a moça, meu filho? – pergunto minha mãe, inocentem ente.

-- Não, não...ah! sim, só de vista....

-- Sabe-se – continuo a notícia radiofônica – que sobreviveram cinco pessoas do desastre e, daqui a poucos minutos, estaremos divulgando se a atriz está entre os sobreviventes.

Esqueci todos os meus problemas, só existia erse...eu estava deveras nervoso, aqueles minutos pareciam horas... e na minha mente, Leila apareceu... ela tinha como personalidade um temperamento e uma atitude que fazia a própria imagem de mulher moderna, de mulher brasileira. Sem nunca ter feitio discursos ou pregações, era a principal figura do movimento pela libertação da mulher brasileira. Não aconselhou mulher alguma a ter o mesmo conceito de amor que ela tinha. Apenas deu o exemplo de que nenhum ser humano, seja homem ou mulher, deve ser escravo por livre iniciativa.

A musa do Pasquim detestava a mentira, fazia e dizia as coisas que gostava de dizer e fazer, abertamente, sem subterfúgios. E costumava dizer: “Eu só quero que o amor seja mais simples, honesto e sem os tabus e fantasias que as pessoas lhe dão. Digo que me tornei isso inconscientemente mas, agora, estou plenamente convicta das coisas que faço e defendo”. Por fim, chegou a notícia que eu não queria receber.

-- Interrompemos nossa programação musical para comunicar que a atriz Leila Diniz não está entre os sobreviventes do boing...

Mulher ídolo, “Mãos Vazias”, um filme; mulher liberdade, “Um Asilo Muito Louco”, outro filme; companheira, “Tem Banana na Banda”; amiga, “Os Paqueras”; amante, “Fome de Amor”; livre, “Todas as Mulheres do Mundo”; terna, “O Mundo Alegre de Helô”; corajosa...no avião, um lugar vazio. Um voo perdido....Lágrimas rolaram em minha face. Nesta noite eu chorei.

Não demorou muito para eu conseguir o emprego, e um mês depois, já recebia meu salário. Já fava para fazer algumas coisas. Morando no pensionato, todas as tardes, ao voltar do trabalho, chegava cansado e era saudado pelos companheiros do quarto com obscenidades cordiais, coisa comum no grupo. E logo depois da janta, estávamos jogando baralho; a noite, cada um procurava o seu caminho para divertir-se. No domingo, vestia a velha camisa número seis, e calçava depois o quichute para ir jogar nossa pelada num dos campos, perto da praia de Itapuã.

Aproximava-se o dia da grande corrida. Os rapazes, selecionados, já estavam preparados desde muito tempo. Desisti de participar devido aos meus atrasos nos treinos, pois com o trabalho todos os dias, não tinha mais ânimo para coisa alguma.

Chegou finalmente o dia, milhares de repórteres e fotógrafos de todas as localidades estavam presentes. Eu,munido de minha máquina, iria documentar também tudo para o jornal. Estava sentado ao lado de Ana e do grupo de fotógrafos, e enrouqueci de tanto gritar, enquanto as camisas de diversas cores entravam no campo, misturando-se na grama verde. Os atletas estão agachados sobre a pista do estádio. É uma competição nacional de importância, pois o vencedor iria disputar no exterior, nas olimpíadas. Nas primeiras fileiras, os paulistas e cariocas, confiantes, certos da vitória. Um pouco mais atrás, baianos, mineiros, pernambucanos e gaúchos. Álvaro representava a Bahia.

O juiz segurou tenso o cronômetro em uma das mãos, um revólver na outra, braço direito erguido. Tiro seco, partida nervosa, o público gritando os nomes dos atletas. No fim da primeira reta, um paulista puxa a fila. Sai da curva oposta, perde terreno para o gaúcho, louro, mais forte. Abre grande vantagem sobre Álvaro que parece guardar-se para o empate final. Metade da segunda reta, o paulista bem mais próximo, torcida em delírio. Gritei no alto das arquibancadas “vamos Álvaro, estamos com você”. A este pedido, a turma da torcida da Bahia começou a gritar “Álvaro” Álvaro!”. Estavam os atletas na última curva, emparelhados, corpos colados, suando e respirando forte. Reta final, a fita cortada, ganhou Álvaro, um palmo sobre o gaúcho e mais atrás, o paulista. A torcida aplaudindo, invadiu o estádio, carregando o vencedor.

Clic! Não escapava um gesto do vencedor, tirava fotos e mais fotos. Dina, ofegante, não podia se conter, correu em direção ao campeão abraçando-o e beijando-lhe à boca. Mais tarde, a sala estava intransitável. Dirigentes, jornalistas, torcedores e amigos, amontoados junto a uma longa mesa onde Álvaro procurava atender a todos. Os cabelos à black power, meio desalinhados. O olhar um pouco desconfiado. A cada frase que dizia, quase sempre curta, ele evitava erguer a cabeça, fugindo das luzes dos flashes e dos projetores acessos para as câmaras de televisão.

No dia seguinte, em primeira página, lá estava Álvaro, carregado pela multidão, e em uma das mãos, a taça de vencedor. Estávamos batendo papo, ele continuou como antes, simples e calmo, nada o afetou. Depois de tantos treinos, mudou apenas as características físicas. Era um homem de estatura mediana, largos ombros, de membros robustos, de feições enérgicas. Tinha uma cabeça enorme, a pele escura e os olhos muito negros. A sua fisionomia exprimia a audácia e o orgulho.

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Estamos publicando um folhetim com 17 capítulos dessa história escrita em 1975

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