02 junho 2011

Balada de um Homem Solitário (4)

Um pequeno sofrimento


Já com 14 anos, minha vida era o estudo. Sim, comecei a gostar de letras e frequentava assiduamente a biblioteca. Neste curso de minha adolescência, conheci um sofrimento que me marcou profundamente. Além dos livros do currículo, que consultava por obrigação no ginásio e em casa, vivia lendo nas bibliotecas públicas, esse hobbie tornou-se muito afastado de diversos colegas.

Tentei, diversas vezes, com ânsia, descobrir um amigo entre os meus colegas. Mas embora meu coração ansiasse por amizade, não sabia abrir-me, inibido pelo receio de ser repelido. Quando fazia um esforço e saía com alguns dos rapazes mais animados, o nível da conversa – uma longa e vociferante discussão acerca dois méritos de um carro de corrida, ou sobre um colega que tentou em vão namorar uma menina – num instante me reduzia a um silêncio pétreo. Queria encontrar alguém com quem discutir filmes, músicas, alguém que soubesse refutar com suas próprias palavras quando eu tentasse articular as novas ideias em direção das coisas. Mas sempre que trazia à tona esses assuntos, via-me sob suspeita de estar me exibindo e, rapidamente, retornava ao silêncio.

Com Álvaro afastado, Marcos era o companheiro com quem mais me dava e uma ou duas vezes passei o dia batendo papo com ele, mas o relato de tantas conquistas era bastante tedioso, e a sua óbvia mentirada, depressa deixou de me divertir.

Não sei explicar a tendência das pessoas com quem convivia, a crer que estudar seja atividade que só se faz com fins utilitários imediatos. Muitos dos colegas quando estava lendo, só estavam realmente estudando se houvesse prova marcada na escola. Não sei porque me via facilmente assediado por conhecidos e desconhecidos. Compreendo que as pessoas que vivem reunidas em torno de um papo se divirtam. Discutindo futebol, porém não compreendo que não me aceitasse assim como sou, entregue à leitura. Parece que as pessoas imaginam que a solidão é algo que só se usa quando se fecha a porta do banheiro.

Não sei explicar realmente o comportamento humano, tão complexo. Considero os livros como amigos; dia virá em que muitos colegas precisarão deles porque notarão que a vida não é tão fácil assim. Ela não é fácil para nenhum de nós, e os livros...são os melhores amigos.

Era uma dessas noites, vindo da biblioteca, encontrei na rua um rapaz que me parecia conhecido. Estava escuro, mas eu já estava quase próximo, quando...

-- Augusto! Tudo bem, rapaz?

-- Álvaro, mas onde andou você todo esse tempo?

Dando-me um aperto terrível na mão, seu olhar mergulhou logo na distância, em direção ao morro.

-- É uma pequena longa história. O caso é o seguinte: minha família precisou viajar, meu pai estava resolvendo um caso na cidade de Ouro Preto e eu tive que acompanha-lo...

-- Espero que desta vez você fique por aqui...

-- Claro. Olhe, meus pais estão por lá. E foi com muita insistência que resolveram deixar-me continuar meus estudos aqui. Aluguei um quarto naquele pensionato do outro lado daquela rua – e apontou para o norte da cidade.

-- Por que não fica lá em casa?

-- Não. Sou um sujeito trabalhoso, você me conhece. Não quero aborrecer seus pais. Mas, o importante agora, meu chapa, é que estamos unidos de novo, como Alexandre Dumas, “um por todos e todos por um”.

No colégio, verifiquei que estávamos na mesma classe. Logo no início das aulas, fui cercado de vários professores. O fato disso era porque arrebatei o prêmio de fotografia de jovens amadores. Um deles chamou-me a parte para me dizer que, se me aplicasse, poderia chegar a ser um fotógrafo profissional. Outro, igualmente bem intencionado, tinha enchido meu espírito de confusão com seus conselhos contraditórios. Contei todas as minhas desventuras a Álvaro no período de sua ausência. Nossa amizade aumentava sempre.

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