21 junho 2011

Balada de um Homem Solitário (16)

Impulso

Sentou-se na minha frente, lendo uma revista em quadrinhos de Jules Feiffer enquanto eu lia, no jornal, a queda do presidente Nixon.

-- Quer que eu ligue a vitrola? – Cláudio perguntou – Trouxe discos novos....

-- Pode colocar.

A música penetrou no recinto: “Mora comigo, na minha casa, um rapaz que eu amo. Aquilo que ele não me diz porque não sabe, vai me dizendo com seu corpo que dança para mim. Ele me adora e eu vejo através de seus olhos o menino que aperta o gatilho do coração sem saber o ..........de que pratica. Ele me adora e eu me gratifico só com os olhos que vejo, corto, cruzo as cebolas da casa, rastro os móveis, incensos. ................medo de dizer que me ama. Me aperta a mão e me chama de amigo”. Essas palavras ditas no disco Drama de Maria Bethânia soou como alguma coisa de misterioso que pairava no ar, a música surgiu com outras frases....

Levantei-me, sentindo seu olhar pousar em mim e notei umas malas em cima da mesa.

-- O que é isso? Indaguei.

-- São minhas malas, vou viajar hoje e não sei quando volto. A revista francesa contratou-me para posar nos novos modelos lançados neste outono. É chato ter que se afastar dos amigos, mas creio que não será por muito tempo, e antes de tudo, agradeço a hospitalidade.

Partiu, fiquei a escutar os discos que ele deixou. Recebi, pouco depois de sua saída, com amargo na boca, a notícia da morte de Álvaro logo no mês quer ele prometia voltar, pobre rapaz, que já começara bem a carreira esportiva... Sobre Ana, nada sabia, escrevia, mas não recebia respostas e já faz tanto tempo que recebi sua última carta. Sua família havia me acompanhado na sua turnê de concertos musicais e creio que resolveram instalar-se por lá, porque já fazia muito tempo...

Dina ficou traumatizada, com o olhar meio vago, feito louca, quando soube da morte de seu amado. Ela ama-o e tornou-se fiel desde a sua partida para a Europa. Procurei confortá-la, mas ela parecia distante. Sua mãe procurou médicos, mas nada a fez voltar ao tempo presente, ela estava como que voltada ao passado. Tristeza, só tristeza rondava-me. Desilusão por tudo.... “Tem dias que a gente se sente/como quem partiu ou morreu/a gente estancou de repente/ou foi o mundo então que cresceu/a gente quer ter voz ativa/no nosso destino mandar/mas eis que chega a roda viva/e carrega o destino pra lá...”, cantava Chico Buarque na vitrola.




Consciência


Comecei a desenterrar o passado, cultivando lembranças e enchendo o peito de silencioso lamento, buscando inutilmente o tempo perdido. Passou tudo muito depressa. Foi como se todos aqueles anos que acompanharam as gerações perdessem, de repente, a significação real na escola do tempo e assumissem proporção estranha e misteriosa, como coisas que acontecem no sonho, numa fração de segundo.

Impossível esquecer as lembranças, impossível libertar-nos do que nos deixaram como marca, por mais que nos esforcemos, por mais que as escondamos, por mais que as disfarcemos, que as queimemos em nossos pensamento, por mais longe que as tenhamos vivido, por mais distante que as lancemos, ainda que as atiremos no fundo do mar, que as mergulhamos no álcool ou enganemos com alegres ou tristes canções, elas estão presentes.

Impossível mudar o passado, impossível esquecer as tardes de peraltices com o amigo Álvaro, impossível esquecer as tardes em que, à hora exata do sol se pondo, eu e Ana, juntinhos, por entre as árvores, olhando o reflexo das águas, e o barulho das ondas do mar. Impossível esquecer Dina em que seus momentos de alegre viver, menina sorriso. Impossível esquecer o Dudu das bolinhas de gude. Impossível esquecer, tudo está gravado tão nítido...Impossível riscvá-los, inútil nega-los, ingênuo tentar esquecer.

De repente, como nos sonhos, sem lógica, sem nexo, aparecem pessoas improváveis, enche-se a sala de fantasmas familiares. Uma balada desesperadamente triste tocou baixinho. Alguma coisa parecia ter morrido em mim. Olhos as fotos dos amigos espalhadas na mesa. Tudo imóvel numa superfície colorida e brilhante. Sempre foi assim e fui assim, estático, mudo. Não estava naquelas pequenas fotos, mas em outra maior. Estava dentro da foto da vida, sem movimentos, sem interior, sem nada...

“Durante toda a minha vida sempre estive a espera de alguma coisa. Agora encontrei..você”. Foram as palavras que vieram no telegrama de ontem....De quem será? Deve ser de Ana...aposto como já está na cidade.

Vejo através do vidro as estrelas que me parece incrivelmente distantes. E, de repente, me dou conta de que estou só, de que sempre estive só – absolutamente só. Chega o momento de uma oportuna tomada de consciência, sinto que é tempo de esbarrar, de parar de uma vez, de recordar e escrever sobre mim e sobre meus amigos, mas batem à porta – da minha mente ou da minha casa? Levantei-me. Queria ficar só, naquela noite, de lembranças.

Sentei-me novamente e tive vontade ficar assim, parado, mas o toque na porta veio com mais força e fui abrir. Encarei a pessoa. Sob um chapéu de veludo, atirado para trás, seu rosto resplandecia. Tinha no rosto, corado de sol, uma expressão tão ansiosa. Fixei o olhar naquela desconcertante personagem de diversas revistas. De vistas que já floreara muitas vezes...Pressentia agora algo, mas não sabia o quê.

-- Cláudio?

Esse nome escapou-me com incrível espontaneidade, como se estivesse sempre em minha boca, aguardando aquele instante para ser dito. Olhei para suas mãos. Subi o olhar até seu resto e sem saber o que dizer...

-- Cláudio – repetiu- , não ele, mas...ela.

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Estamos publicando um folhetim com 16 capítulos dessa história escrita em 1975

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Logo depois dos festejos juninos até final de agosto o blog vai ser invadido pelos quadrinhos. Aguardem!!!

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