19 outubro 2007

Música & Poesia

Pequeno Dicionário do Amor (Brega'n'bass do Amor) letra de Marcos André

O amor flagela,

o amor migalha,

o amor congela,

o amor navalha.

O amor desarma,

o amor guerreia,

o amor corre nas veias,

o amor joga na vala.

O amor semeia,

o amor desmata,

o amor permeia,

o amor te mata.

O amor é sacrilégio,

o amor não tem colégio,

o amor te sacaneia,

o amor te desampara.

O amor, de amor austero,

amor de amor perfeitinho,

é amor de amor sem destino,

é amor de amor sem elo.

O amor, de amor imperfeito,

amor de amor paralelo,

é amor de amor no peito,

amor de muito carinho.

O amor supera o sonho,

o amor, sonhando, embarca,

o amor chuta a canela,

o amor dá de trivela,

o amor é farofeiro,

o amor é magnata.

O amor come poeira,

o amor rompe o silêncio,

o amor é conseqüência,

o amor é contra-senso.

O amor é indefeso,

o amor sucumbe ileso,

o amor começa e pára,

o amor sobe à cabeça,

o amor desce a porrada.

O amor, de amor austero,

amor de amor perfeitinho,

é amor de amor sem destino,

é amor de amor sem elo.

O amor, de amor imperfeito,

amor de amor paralelo,

é amor de amor no peito,

amor de muito carinho.

O amor é lindo,

o amor é love,

o amor é índio,

o amor é rock.

O amor é black,

o amor é blue,

o amor é vinho,

o amor é cool.

O amor é leve

o amor é trash,

o amor é sério,

o amor é riso.

O amor é paraíso,

o amor é infernal,

o amor é impreciso,

o amor é pontual.

O amor é night,

o amor é dia,

o amor noite,

o amor é fria.

O amor é loucura,

o amor é tesão,

o amor é fissura,

o amor é solidão.

O amor é luta livre,

o amor é ioga,

o amor tem sinusite,

o amor advoga.

O amor é bicha,

o amor é machista,

o amor é futurista,

o amor não marca hora.

O amor, de amor austero,

amor de amor perfeitinho,

é amor de amor sem destino,

é amor de amor sem elo.

O amor, de amor imperfeito,

amor de amor paralelo,

é amor de amor no peito,

amor de muito carinho.

No Caminho com Maiakóvski (Eduardo Alves da Costa)

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas ao tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,

por temor aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita - MENTIRA!

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