09 outubro 2007

Amor, o sentimento que influencia a humanidade (2)

O grande poeta Guilherme XI, duque da Aquitânia, era conhecido como o mestre infalível das conquistas femininas, um verdadeiro don-juan que se vangloriava de cada uma de suas conquistas. “Chamam-se ´mestre sem defeito´:/toda mulher com quem me deito/quer amanhã rever meu leito; neste mister sou tão perfeito,/tenho tal arte,/que tenho pão e pouso feito/por toda a parte”. Ele reunia o dado profano e o sagrado com as conotações que eles possuíam antes da culpa judaico-cristã. A partir de Guilherme IX, o porta-voz do sentimento de todos os homens, todos os outros poetas, têm um único desejo: serem correspondidos pela dama e, com ela, poderem gozar dos prazeres do amor, nos jardins ou sob as cortinas.

Entre 1150 e 1180 o amor transformou-se em princípio e fim de todas as virtudes, clímax do aperfeiçoamento moral. Amar passou a ser virtude. A grande descoberta foi jogar fora o véu da hipocrisia, que exigia da mulher comportamentos que eram contrários à natureza, sem se deixar obcecar pela sexualidade desenfreada. O amor cortês foi o amor que embora não se limitasse única e exclusivamente à satisfação sexual não a dispensava. O amor cortês foi a denúncia dos trovadores ao casamento imposto à mulher por interesses políticos e econômicos, em que o amor não tinha lugar e a mulher passava a ser objeto de compra e venda.

Este novo modo de amor floresceu no sul da França e foi levada ao norte, possivelmente por Eleonor de Aquitânia, neta de Guilherme IX e conhecedora dos inúmeros trovadores que freqüentavam os castelos de Poitiers. Maria de Champagne e Aéles de Blois, filhas de Eleonor, herdaram da mãe o gosto pelas letras e transformaram a corte num centro literário importante. Sõ elas as responsáveis pelo desenvolvimento da cortesia no norte do país. O amor cortês apareceu como uma arte, um embelezamento do desejo erótico. Mais tarde a produção literária foi condenada pela Igreja.

O amor varia de acordo com a cultura e os gostos de cada época, mas a essência dessa emoção é imutável. Nos séculos 15 e 16, a religiosidade dá espaço à razão, à ciência e á lógica. No Renascimento houve a revalorização dos desejos individuais. O século 18 é o da racionalidade – o amor ganha códigos de ética e até de etiquetas. Don Juan é a figura literária que representa o amor do século 18. O amor, durante muitos anos, muitas vezes era associado ao sofrimento e à morte. Na revolução industrial o que era nobre, digno de qualquer sacrifício era o amor. E quanto mais sacrifício, melhor. O amor romântico é uma figura arrebatadora que arrasta a todos. Assim, a cada década, o amor continua e continuará vivo alimentando-se de sua capacidade de mudar-se e se adaptar.

“Os Sofrimentos do Jovem Werther”, romance de Goethe, que conta a história de um fracasso amoroso, reflexo do desencanto que marcava o final do século 18 se tornou best-seller na Europa e os ávidos leitores se identificaram com o aflito personagem. Mas quem não se lembra dos famosos pares Abelardo e Heloisa, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, entre outros que povoam o imaginário ocidental. Cada uma dessas representações literárias de amor se espalharam em muitas outras artes. E não faltou Sansão e Dalila, Perro e Colombina, Joãozinho e Maria, Bonnie e Clyde, Donald e Margarida, Super Homem e Lois Lane, Homem Aranha e Mary Jane. A idéia de amor ocupou o centro ideológico da sociedade e da cultura que a geraram, revelando seu modo de vida.

O amor é uma necessidade. O segredo do amor é como um presente, um dom e que ele pode crescer apenas aumentando a vontade em doar... O amor tem seu próprio tempo, sua própria estação. Como escreveu Guimarães Rosa, “amar é sede depois de se ter bem bebido”. No seu novo CD, “Invisível DJ”, o grupo Ira! traz uma letra de Edgard Scandura e Taciana Barros, “Culto de Amor”: “Procuro me desarmar/ando em busca de paz/respondo à vontade do céu/sentimentos, não preciso de provas/união, para você o sim/não fale nada/a verdade vem no seu beijo/você nas minhas mãos/eu juro que não tenho medo...”.

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