17 outubro 2007

De Paulo Afonso para o mundo: O Sertão Vermelho de Lampião

A prefeitura de Paulo Afonso está de parabéns. Juntamente com a Secretaria de Educação e Cultura e Secretaria de Serviços Urbanos deram apoio cultural a uma obra que está atravessando fronteiras. Trata-se de Sertão Vermelho 2 (formato 21 x 28 cm, 106 páginas), do roteirista Haroldo Magno e do desenhista Edvan Bezerra. Através da arte seqüencial (histórias em quadrinhos) eles contam a saga de Lampião, o rei do cangaço pelo sertão da Bahia. Nesse trabalho eles contaram com a participação de artistas especialmente convidados como Júlio Shimamoto (Lídia e Zé Baiano: Beleza, traição e tragédia), Eugênio Colonnese (Corisco, o Vingador de Lampião) e Vítor Barreto (O Raso da Catarina). A capa é assinada por Rodolfo Zalla. A diversidade de estilos tornou a obra ainda mais interessante. Além de Lampião e Maria Bonita, aparecem nas histórias o padre Cícero e os cangaceiros Zé Baiano e Corisco, "o Diabo Louro".

Segundo a premissa do primeiro volume de só mostrar os fatos reais, baseando-se nas pesqyuisas dos mais sérios investigadores do tema (Oleone Coelho Fontes, Rodrigues de Carvalho, Ranulfo Prata, entre outros), Sertão Vermelho 2 apresenta a arte de Edvan que resgatou uma técnica há muito abandonada e pouco utilizada pelos quadrinhos brasileiros: a aquarela, produto utilizado nos anos 50. Este segundo volume eles mostram a origem, fator decisivo que levou Lampião a tornar-se cangaceiro, sua nomeação a capitão. Mostra a rixa entre famílias. O momento em que Virgulino Ferreira deixava de ser o sertanejo trabalhador para renascer como cangaceiro. A participação do Padre Cícero é destacada na promoção do posto de capitão; o Raso da Catarina é mostrado em toda a sua exuberância e agressiva beleza; uma cidade ribeirinha do São Francisco conhece o ferrete de Zé Baiano, a morte do bandoleiro do Papeú é recontada sob a ótica da polícia, e a vingança e morte do capitão Corisco, o Diabo Louro.

A linguagem utilizada por Haroldo é a sertaneja. O argumento é criativo e bem desenvolvido. Já o traço de Bezerra é ágil com destaque para o uso de aguados, técnica que lembra a aquarela e que deu um charme todo especial a alguns capítulos da trama. A representação da paisagem nordestina em suas múltiplas formas foi apresentada com uma fidelidade poucas vezes vista.

Os oito capítulos têm bom agenciamento narrativo com belas composições dos planos, fluência do argumento centrado na força do cangaço, e nos tons que dão força a obra. Há seqüências de altas voltagens. A obra pode muito bem ser utilizadas nas escolas municipais para que o professor possa trabalhar conceitos como a mitologia brasileira do cangaço, a origem desse movimento e sua trajetória. Pode também servir para discutir temas como questão de traição, vingança, posse de terra, religião e política, entre outros. Trata-se de uma obra que vai fundo nas nossas origens, nos nossos dilemas. Uma obra que precisa ser mais difundida entre nós. Procure conhecer. E o terceiro volume já está sendo preparado com novas informações que marcaram o fenômeno do cangaço e deixaram profundos sulcos na memória do sertão.

Como todas as lendas que tendem a se tornar maiores que os fatos, Lampião e sua saga pelo nordeste brasileiro têm todos os elementos de aventura, romance, violência, amor e ódio das grandes histórias da humanidade. Jogado na clandestinidade após o assassinato de seu pai, Lampião foi o maior cangaceiro (nome dado aos fora-da-lei que viveram de forma organizada, no final do século passado na região do nordeste brasileiro) de todos os tempos. Ele percorreu sete estados da região nordeste entre as décadas de 20 e 30, levando sangue, morte e medo à população do sertão. Causou grandes transtornos à economia do interior e sua história é um misto de verdades e mentiras.

Grande estrategista militar, Lampião sempre saía vencedor nas lutas com a polícia, pois atacava sempre de surpresa e fugia para esconderijos no meio da caatinga, onde acampavam por vários dias até o próximo ataque. Apesar de perseguido, Lampião e seu bando foram convocados para combater a Coluna Prestes, marcha de militares rebelados. Em 1929 ele conheceu Maria Bonita e foram viver pelo agreste sertão. Lampião é odiado e idolatrado com igual intensidade, estando sua imagem viva no imaginário popular mesmo após 69 anos de sua morte. Sua influência nas artes – música, pintura, literatura, cinema e quadrinhos – é impressionante.

As causas do surgimento do cangaço foram de natureza variada. A pobreza, a falta de esperanças e a revolta não foram as únicas. Isso é mais que certo. Mas foram estas circunstâncias as mais importantes para que começassem a surgir os cangaceiros. Muitos, como dissemos, eram pequenos proprietários, mas mesmo assim tinham que se sujeitar aos coronéis. Do meio do povo sertanejo rude e maltratado surgiram os cangaceiros mais convictos de que lutavam pela sobrevivência. “Se não me dão os meios de conseguir, eu tomo”, pareciam dizer.

Virgolino Ferreira era um trabalhador. Do tratamento duro e injusto que o trabalhador Virgolino Ferreira e sua família receberam surgiu Lampião, o "Rei do Cangaço". Lampião nunca foi um líder de rebeliões ou um ídolo que servisse para a formação de camponeses revoltados. Política nunca foi parte de sua vida. Mas as populações humilhadas e ofendidas viam em Lampião um exemplo, naquele meio termo entre temer o que ele era e querer ser igual a ele, quase a justificar sua existência de bandoleiro errante.

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