24 setembro 2012

Ética brasileira

Toda coletividade cultiva um sistema de valores e normas morais que definem o bem e o mal, o certo e o errado, as virtudes e os vícios. A ética aponta para a construção da pessoa, enriquecimento do ser como pessoa. Ao longo do processo histórico, as esferas da sociedade como a política, a religião, a arte, a ciência, vão adquirindo sua própria autonomia. A religião e a ética perdem a hegemonia que exerciam sobre a sociedade tradicional. De forma mais radical, com o avançar do processo, a economia assume papel dominante e subordina a seus interesses as outras esferas sociais, inclusive a ética.

Os fatores da crise ética da nossa sociedade têm gerado a falta de honestidade, a corrupção, o abuso do poder, a exploração institucionalizada e a violência. Há uma ruptura entre o indivíduo que se fecha sobre si mesmo e a vida pública e os valores comuns, sobre as quais se ergue a sociedade.

A pesquisa "Retrato da Ética no Brasil" (jornal Folha de S.Paulo, 04/10/2009), informa que nosso país, no que diz respeito a atitudes corruptas e corruptoras “vale mais o faça o que eu falo e não o que eu faço. Para uma ética de verdade em primeiro lugar estou eu e meus próximos (família e comunidade a que pertenço)".

É muito fácil dizer que os políticos são corruptos (porque muitos deles fazem questão de dar exemplos todos os dias), porém é preciso reconhecer que na correção do problema, e principalmente em viver de modo ético, sou eu que estou em primeiro lugar.

Por isso insisto que a política, a questão ética na sociedade, somente se resolverão pela cultura, ou seja aquele espaço de sociedade onde vivo e que essa mudança de postura diante da vida, dos outros com quem convivo no trabalho ou na vizinhança, tem de ser uma realidade hoje. Esse processo evidentemente é educativo, por isso temos sempre apontado aqui que entre todas as prioridades sociais a maior é a da urgência educativa.

Um país em que os eleitores trocam voto por dinheiro, emprego ou presente e acreditam que seus concidadãos fazem o mesmo costumeiramente; um país em que os eleitores aceitam a ideia de que não se faz política sem corrupção; um país assim deveria ser obra de ficção, como em "Os Bruzundangas" (Ediouro), livro de Lima Barreto de 1923. Mas o Brasil da prática cotidiana parece mais com Bruzundanga do que com a Escandinávia.

A pesquisa do Datafolha (2009) tem o mérito de colocar em foco problema crucial nacional. Uma discussão sobre se o Brasil deve seguir Bruzundanga. A obra que retrata a República dos Estados Unidos da Bruzundanga foi lançada no ano seguinte à morte de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), autor consagrado por livros como "Triste Fim de Policarpo Quaresma".

"O valo de separação entre o político e a população que tem de dirigir faz-se cada vez mais profundo. A nação acaba não mais compreendendo a massa dos dirigentes, não lhe entendendo estes a alma, as necessidades, as qualidades e as possibilidades", escreveu Lima Barreto. E concluiu: "Um povo tem o governo que merece".

O triunfo do velho faça-o-que-eu-digo-não-faça-o-que-eu-faço é a principal revelação da pesquisa do Datafolha, porque ela dá uma medida de como estamos longe de distinguir o público e o privado e do quanto são escorregadios nossos “marcadores éticos e morais“, para usar uma expressão do filósofo Renato Lessa.

O desfazimento da hipocrisia perversa com que tocamos nossas vidas em sociedade completa-se, agora sim, com um perfil bem conhecido. Somos todos igualmente hipócritas, mas alguns podem mais por debaixo dos panos da moral e da ética: Os homens (86%) transgridem mais do que as mulheres (80%), os jovens 16 a 34 anos (91%) mais do que os mais velhos, e os mais ricos e mais estudados são, é claro, os que têm as maiores taxas de infrações (97% dos que ganham mais de 10 mínimos assumem ter cometido infrações e 93% daqueles que têm ensino superior também).

O retrato é péssimo, em suma, mas indica a necessidade de tratarmos da transgressão das regras. A educação TEM QUE abandonar a superfície das regras e mergulhar na problematização da sabotagem do que essas regras representam. Ficam aí as pistas e os por ques do confronto que deve ser promovido.

O escritor Ruy Espinheira Filho escreveu um artigo no jornal A Tarde (Um longo desfile bem impressionante, 20/09/2012) onde diz que “não dá para entender o fato de tanta gente se achar merecedora de votos, já que em sua maioria não realizou nada, e visivelmente despreparada, mal dotada intelectualmente e sem reconhecimento de alguma virtude de caráter moral. Trata-se de fenômeno, claro, de nosso modelo político, de baixíssima exigência e apenas interessado em qualquer que seja possível ´puxada de votos´ para os partidos”. Está aí uma explicação clara sobre a situação política do país, hoje!
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