29 junho 2007

Música & Poesia

Ninguém Merece (Zelito Miranda, Eugenio Cerqueira e Clarice Miranda)


Não, ninguém merece essa vida não

Não, ninguém merece

Ninguém merece sofrer por amor

Não, ninguém merece

O que rola é paixão

Mera ilusão

De quem sofre por amor

Querer chamar sua atenção

Essa é a razão

De fazer tanto terror

Cobrar amor não dá

Amor se dá na hora h amor se tem

Enquanto a energia rolar

A gente vai se dar bem

Não precisa nem tocar

Basta um olhar carinhoso

Estilhaço pode até rolar

No fragmento de um discurso amoroso

Aí o bicho vai pegar

E o sentimento é perigoso

Não precisa explicar

Pois o amar sempre é gostoso.


O espectro (Bruno Tolentino). A Ivan Junqueira


Não há como agarrar-te à natureza

quando a asa da noite baixa e faz

a sombra sobre a acha, a lenha presa

à luz da labareda que a desfaz;

morres despreparado ou morres bem,

mas passas pela cinza, meu rapaz.

Tudo talvez ressurja mais além,

mas ao abutre, albatroz, águia ou condor

o vôo acaba por pesar e tem

que perder altitude no esplendor:

dos páramos à esteira de uma nave

estende-se a amplidão, mas sem repor

fôlego a um coração até que a ave

recolha a asa e pronto, se acabou,

foi-se o que era tão doce! Tão suave

levitou-se e mais nada lembra o vôo...

Nada, nem mesmo a terra, eqüidistante

do que caiu como do que voltou,

com uma equanimidade impressionante.

E caso a interpelassem que diria?

Nada outra vez, ou menos que o ex-amante

fingindo-se impassível se algum dia

ouve dizer que tudo acaba assim.

Pois foi assim que o espectro da poesia

surgiu-me um belo dia, e veio a mim

assim que eu consegui levar a sério

os canteiros de Kant num jardim

à beira Tâmisa, ante um cemitério...

Lá estivera eu de mão no queixo

a espanar as lombadas do mistério,

seguindo a lógica ao seu belo fecho:

afinal, se a equação mais arbitrária

conseguiria amarrar a terra a um eixo,

qualquer cogitação imaginária

não seria nem mais nem menos frágil;

divagações da hora solitária,

arabescos da mente, sempre ágil

ao fazer de um trapézio o seu lugar.

Pois foi então que, assim como um presságio

obriga a respirar mais devagar,

mas faz bater mais forte o coração,

eu primeiro senti aquele olhar

antes de perceber a assombração

que entre o rio, o junquilho e o malmequer

vi caminhar em minha direção.

Atônito, amparei-me a uma mulher,

semidesfalecido: o encapotado

era a cara do Charles Baudelaire

do retrato, cuspido e escarrado!

Ninguém via o que estava acontecendo,

em toda aquela gente ali ao lado

ninguém notava aquele rosto idêntico

à corola da rosa corroída

em que Blake encarnara o sofrimento.

E lá vinha ele andando! Espavorida

mas alerta, habilíssima colméia,

a mente me exigia uma saída

e, assim como o avestruz ante a alcatéia,

insistia em não ver: não, não seria,

não podia ser ele, era outra idéia

a espumejar na velha alegoria

dos nevoeiros que complicam Londres...

Mas não havia erro! A ventania

havia depenado tanto as frondes

que atirava topázios e safiras

contra o bueiro em brasas do horizonte,

mas nele havia o ar dessas mentiras

que dizem a verdade: confrontou-me

e num rápido olhar deixou-me em tiras

os trapos da razão – era o meu homem!

Há múmias que uma vez desembrulhadas

têm escrito na cara o nosso nome.

Carros, ônibus, gente nas calçadas,

um semáforo ao longe, vaga-lume

estático entre sombras apressadas,

e aquilo a se agitar que nem um cume

de palmeira no ar – e andando, andando

e desferindo o olhar como um perfume

de gangrena fatal ensarilhando

o eterno câncer da imaginação

que desorbita a mente como um bando

de morcegos agrava a escuridão.

Por fim parou-me ao lado e imaginei

ouvir (talvez sonhasse, talvez não...)

um balbucio familiar e cheio

de ecos aos que andamos pelo canto:

“Andaste num vazio sempre alheio,

entre noções apenas e, no entanto,

nunca bastou sequer a consolar-te

tanta fabulação cheia de espanto,

de dor... Buscas o todo parte a parte,

queres as perfeições da geometria,

e ao fim do sonho circular da arte

entregas tudo à fantasmagoria,

aos jogos malabares da ilusão.

Andas equivocado e nem seria

de surpreender tua equivocação,

porque, se alguma vez desconfiaste

dessa imprudência, abriste o coração

à luz conceitual, o belo traste

que temes porque o adoras e te leva,

como o refém que és do que adoraste,

de lição em lição à mesma treva.

É tudo sempre a treva tumultuosa,

não por causa da carne, que se eleva

quando quer à estação miraculosa,

mas por causa do olhar que não quer ver

e abisma-se em si mesmo, como a rosa

amada pelo verme e sem poder

de o recusar, tentando resignar-se.

Não te resignes mais a conceber

um triunfo de idéias, um disfarce

para as caras da morte neste mundo,

uma equação qualquer que a mascarasse,

como o médico mente ao moribundo

e o coitado a si mesmo: também eu

meti-me com paixão nesse infecundo

escrínio de ilusões, mas vem do céu

a luz que nos sustém, a que alucina,

a luz conceitual, nasce de um breu.

Não sigas mais a falsa peregrina

que rapta a imagem, rouba-lhe o reflexo

e entrega os dois a um jogo que termina

por desfazer de tudo a cada nexo.

A terra é provisória e improvidente,

tudo é relâmpago entre a morte e o sexo,

mas a alma faminta não consente

que lhe mintam! A Idéia te convida

mas não recebe nunca e, de repente,

entre a porta da entrada e a da saída

perdes as proporções e logo a conta,

o fio da meada e o dom da vida;

fecha-se a última jaula e a fera tonta

descobre que agoniza e morre presa.

E no entanto repara: o cisne aponta

para a altura cantando, e com certeza

essa canção no extremo transfigura

a coisa moritura e a alma surpresa

entre o número, o nada e a noite escura...

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