18 agosto 2016

Caymmi, “ilimitado como o oceano que ele canta”



Sua poesia é de essências, precisa e substantiva. Clara e doce. Bonita e sensual como as mulheres que
canta, com um misto de malícia e delicadeza. E em linguagem e dicção tão populares quanto os personagens que recriou. Seu estilo inimitável de compor e cantar influenciou várias gerações de músicos brasileiros. Importantes homenagens dentro e fora do Brasil marcaram os anos 80 para Caymmi. Em 1984, no seu septuagésimo aniversário, ele foi condecorado em Paris pelo ministro da cultura francês, Jack Lang, com a Comenda das Artes e Letras da França, atribuída a importantes personalidades culturais. No ano seguinte, inaugurou-se em Salvador a Avenida Dorival Caymmi.

“Mangueira vê no céu dos orixás/o horizonte rosa/no verde do mar/a alvorada veste a fantasia/pra exaltar Caymmi e a velha Bahia/ô ô ô/quanto esplendor/nas igrejas soam hinos de louvor/e pelos terreiros de magia/o ecoar anuncia o novo dia/nessa terra fascinante/a capoeira foi morar/o mundo se encanta(bis)/com as cantigas que fazem sonhar (bis)/lua cheia/leva a jangada pro mar/oh! sereia como é belo o seu cantar/das estrelas/a mais linda tá no Gantois/Mangueira berço do samba/ Caymmi a inspiração/que mora no meu coração/Bahia terra sagrada/de Iemanja e Iansan/Mangueira super campeã/tem xinxim e acarajé/tamborim e samba no pé (bis)” (Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira tem, letra de Lvo, Paulinho e Lula). Em 1986, no Rio, o artista virou enredo da Estação Primeira de Mangueira, com o qual a escola de samba venceu o
desfile do carnaval daquele ano. Caymmi foi o primeiro baiano a ganhar o Prêmio Jorge Amado. O compositor foi escolhido por unanimidade para receber o Prêmio Nacional Jorge Amado de Literatura e Arte, edição 2006, dedicado à música popular brasileira.

Tem muitos compositores que lhe homenagearam. Na canção “Nação”, João Bosco, Aldir Blasnc e Paulo Emílio cantam “Dorival Caymmi falou para Oxum/com Silas tou em boa companhia/o céu abraça a terra/deságua o Rio na Bahia”. Em “Buda nagô”, Gilberto Gil revela: “Dorival é um buda nagô/filho da casa real da inspiração/como príncipe principiou/a nova idade da canção”. Toquinho e Vinícius de Moraes em “Tarde de Itapoã” entoavam: “Depois, na praça Caymmi,/sentir preguiça no corpo/e,numa esteira de vime,/beber uma água de coco”.

“Acho o Caymmi ilimitado, como o oceano que ele canta”, definiu Tom Jobim. Já o escritor e amigo Jorge Amado o pintou como “o cantor das graças da Bahia”. Ele foi um dos primeiros compositores a gravar suas próprias canções, numa época em que o habitual era o autor entregar a música para um cantor. Antonio Carlos Jobim lhe admira as modulações de meio-tom. Baden Powell foi buscar nele a base dos sambas-afros. Edu Lobo se ouve nas músicas do baiano. O segredo da linguagem musical de Caymmi, segundo o crítico Luís Antônio Giron (Suplemento Mais, abril 1994) está na simplicidade e na funcionalidade. “Foi autodidata. Começou a tocar violão alterando os acordes perfeitos (dos quais se compõe o sistema tonal), introduzindo dissonâncias, arpejando as cordas com descontinuidade. Possuía na juventude a intuição do artesão, aquele eu redescobre e encena nos dedos a história do som.

“Afastou-se desde o início com a quadratura do samba e da canção porque adotou o único método que tinha à disposição: o modalismo (sistema baseado em escalas diversas) típico da música baiana. Soube dar leveza às cantigas do candomblé e absorveu o espírito da música da cidade”. Em 1992 Chico Buarque compôs e gravou “Paratodos” onde em um trecho canta: “Nessas tortuosas trilhas/a viola me redime/creia, ilustre cavalheiro/contra fel, moléstia, crime/use Dorival Caymmi/vá de Jackson do Pandeiro”.

Já a homenagem de Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro está em “Oba de Xangô”. Diz a letra: “Caymmi é um criador abençoado/navegador das águas da canção/é o compositor do mar predestinado/seu violão tem cordas de sargaço/e foi cortado de um pedaço de uma velha embarcação//Caymmi é um deus do mar reencarnado/por isso que seu canto é uma oração/e para quem descobre o som ele é sagrado/o vento é que lhe sopra melodia/estrela dalva, poesia/e a voz é de arrebentação//Caymmi tem espuma no cabelo/e o seu olhar é o sete estrelo/que a três filhos já criou/guardião das tuas lendas, pescador/pintor do que compõe um cantador//Caymmi é o rei do mar, é o soberano/cavaleiro do oceano, Iemanjá que coroou//De todas as marés sabe o segredo/é o canoeiro de São Pedro/o Oba mais velho de Xangô”.

“É tarde/A manhã já vem/Todos dormem/A noite também/Só eu velo/Por você, meu bem/Dorme anjo/O boi pega Neném/Lá no céu/Deixam de cantar/Os anjinhos/Foram se deitar/Mamãezinha Precisa descansar/Dorme, anjo/Papai vae lhe ninar/"Boi, boi, boi,/Boi da cara preta/Pega essa menina/Que tem medo de careta" Acalanto (Dorival Caymmi)


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