24 janeiro 2007

Quadrinhos, espelho da sociedade

A história em quadrinhos é formada por dois códigos de signos gráficos: a imagem e a linguagem escrita. Esse meio de expressão é uma espécie de confluência das técnicas de cinema, fotografia e literatura, mas tem absoluta autonomia em relação às três. Os quadrinhos refletem a pedagogia de um sistema e funciona como reforçadora dos mitos e valores vigentes. A força do quadrinho enquanto instrumento de penetração e divulgação cultural, política e ideológica é imensa. Estudar o que os quadrinhos estão dizendo e, principalmente, o que eles poderiam dizer é uma tarefa urgente. O quadrinho amadureceu como arte e leitura do nosso tempo. O universo das HQs pode ser visto como uma espécie de espelho de cada época.

A história em quadrinhos, como toda narrativa, tem várias funções, independente de mercado. Entreter, educar e retratar a sociedade, espelhando determinada realidade. O geógrafo e pensador Milton Santos disse que a crescente aproximação entre os povos fez com que as soluções técnicas de cada povo sofressem um afunilamento muito grande. Quando as sociedades viviam isoladas, cada uma criava diferentes técnicas de organização social. Havia uma diversidade cultural muito grande. Conforme os povos foram ampliando as formas de contato, as técnicas foram se padronizando, e hoje estão igualadas. A sociedade japonesa, por exemplo, hoje é muito parecida com a ocidental.

Assim, a interação entre os povos pela dominação de um sobre os outros gerou um grande nivelamento, e a diversidade foi banida. As sociedades tornaram-se cada vez mais igualitárias (num sentido negativo), e também utilitárias. Nada que seja cultural, que tenha a ver com a identidade de um povo, importa muito. Importa a utilidade que isso possa ter. Assim a cultura tem poucas condições de brotar.

Nos quadrinhos, até os anos 80, a garotada que gostava de desenhar criava super-heróis influenciados pelos quadrinhos norte-americanos. Nos anos 90 em diante o estilo manga japonês teve acesso a mídia e tornou-se a novidade da década. Neste século, apesar de muitas imitações, existe um espaço para quadrinhos com essa função crítica de espelhar a sociedade. Há muitas experiências alternativas, em várias cidades, de resistências ao pensamento único. Os criadores (texto & imagem) devem observar a vida, conhecer as características das pessoas para a criação do person
agem com base naquilo que quer representar, e também na observação da vida. Estudar um pouco mais a filosofia de cada um na construção do personagem e sua formação já é um bom começo. Assim, o artista pode representar melhor sua sociedade, criticamente ou não.

Essa complexidade do discurso que se constrói hoje em relação aos quadrinhos, cartum, charge, entre outro grafismo. O humor, charge, quadrinhos feitos pelos profissionais é reflexo de seu tempo, sua sociedade com seus problemas e tormentos. Muitos dizem que a imprensa é um partido único, você leu um jornal, leu todos. A imprensa aqui tem um lado. Aqui a imprensa toda fala a mesma língua. Depois da censura do estado, veio a auto-censura do jornal que não é institucional, mas é velada e tolhe os artistas locais. Essa imprensa não fará com que o senso crítico vá aflorar. Precisamos refletir sobre isso.

Nenhuma forma de arte viveu dentro de limites tão pequenos como a HQ nos últimos 100 anos. É hora da HQ crescer e encontrar a arte subjacente. É hora de equilibrar a balança, ver o mundo e ampliar os horizontes. E no nosso mundo, o principal desafio do quadrinho brasileiro e, consequentemente baiano, está na escolha correta da estratégia a ser trilhada. As novidades tecnológicas são fatores crescentes de promoção do desenvolvimento das narrativas gráficas. O Brasil tem um grande potencial, o brasileiro é muito criativo, imaginativo, e é isso que atrai os leitores. A capacidade do imaginário, de criatividade, de sensibilidade...tudo isso faz a grande diferença.

Portanto, vamos à luta. Vamos desenvolver quadrinhos que falam da nossa realidade, do que ocorre em nossa volta para despertar interesse de todos. Se salvador é apontada como ícone do Brasil, para o turismo, vamos explorar esta faceta. Vamos desvendar os segredos e mistérios da Bahia. E também da “caixa preta”. O que se esconde nos gingados dos baianos e nos remelexos das mulatas. E do falar aberto, arrastado? Vamos sorrir dos nossos problemas, das nossas ações, aventuras e desventuras. Vamos aprofundar essa questão. Cante sua aldeia para o mundo.

A história em quadrinhos precisa mostrar o homem em luta com grandes problemas de sua época, pois os quadrinhos compõem um trabalho ideológico e político do autor. É preciso compreender que o trabalho do autor é o de simples participante de um processo, como o próprio leitor o é. A HQ tanto pode ser usada para conscientizar como também para alienar. A culpa não está na HQ e sim nas intenções daquele que faz uso dela. È preciso desenhar um quadrinho mais participante onde o autor é o repórter da história, é testemunha ocular. Um quadrinho com uma perspectiva nova em termos de linguagem, conteúdo e forma.

Refletir e expressar o seu tempo é essencial para o desenhista. Ter consciência de sua época. Como expressar seu mundo, de que forma dispõe para a execução e que posições tomar frente à realidade do momento. Essas são perguntas que muitos desenhistas se fazem a todo instante, uns mais outros menos. Uma obra de arte significa sempre uma tomada de posição do artista perante a vida. Aqueles que procuram uma arte de consumo fácil, de puro ócio, dificilmente seu trabalho resistirá ao passar do tempo.




















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