06 março 2012

Conquistas femininas na Bahia

Primeiro elas saíram das cozinhas em direção às salas de aula. Depois veio o trabalho fora de casa e o direito ao voto. Vieram os direitos trabalhistas, a pílula anticoncepcional e a lei do divórcio. De lá pra cá as mulheres tornaram-se multifuncionais: chefes de família, participam ativamente do mercado de trabalho e continuam acumulando a maioria das atividades domésticas, mas ainda com remunerações inferiores às dos homens. E mesmo persistente a relutância à presença feminina no âmbito da política, a ascensão as estruturas de poder e aos importantes cargos políticos são alguns dos motivos de lutas travadas pelas revolucionárias contemporâneas. Aos poucos, elas vêm sendo reconhecidas e adquirindo espaço.


Entre 1993 e 1997 Salvador elegeu a primeira e até hoje única prefeita da cidade: Lídice da Mata. Depois, a desembargadora Silvia Zarif foi a primeira mulher a ocupar a presidência do Tribunal de Justiça da Bahia. Em 1985, o governo federal promulgou a Lei 7353, que criou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Sua finalidade é promover políticas que visem eliminar a discriminação da mulher em âmbito nacional, assegurando-lhe condições de liberdade e igualdade de direitos, bem como sua plena participação nas atividades políticas, econômicas e culturais do País.


Segundo a Lei 9504/97, cada partido político ou coligação eletiva deverá reservar o número de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo. Conhecida como Lei das Cotas, a legislação demonstrou uma nova vitória feminina. Entretanto, como ocorre em diversos setores sociais, essa é uma conquista que ainda não conseguiu força para ser aplicada em sua totalidade.


BAHIA


Edson Carneiro, mostrando Salvador à antropóloga americana Ruth Landes, autora do emblemático Cidade das Mulheres, dizia que a capital baiana só funcionava porque assim elas queriam. Mais de 50 anos depois da visita de Landes, a coordenadora executiva do Ceafro (projeto ligado ao Centro de Estudos Afro Orientais da UFBa) Vilma Reis acrescenta que os portugueses, oriundos de uma sociedade em que as mulheres não valiam nada, jamais imaginariam que justamente elas, as desvalorizadas, ainda por cima negras, criariam estratégias próprias de reeditar o poder que possuíam na África. Vale lembrar que a tradição no continente africano é oposta à visão europeia, herdada do cristianismo, que define as mulheres como seres inferiores. Lá, no berço onde nasceu a especie humana, elas eram respeitadas e até cultuadas como deusas.


Jogadas na diáspora, coube a elas o papel de recriar uma sociedade que, mesmo clandestinamente, preserva a herança dos antepassados. Princesas e rainhas eram traficadas e mesmo escravas para os engenhos do recôncavo baiano e para as ruas de Salvador. Os súditos, porém, uniam-se em sociedades protetoras, juntavam pecúlio em caixinhas trancadas a sete chaves e pagavam por sua liberdade. Princesas e rainhas atravessaram o oceano para organizar a resistência das mulheres negras à escravidão e fundar territórios de candomblé como a Casa Branca, considerado o mais antigo do Brasil. De todos os países da América Latina, onde a antiga religião africana penetrou, seja Jamaica (obia), Haiti (vodu) e Cuba (santeria), foi no Brasil onde a recriação do reino das antigas soberanas africanas obteve mais sucesso, através do poder centralizador das ialorixás.


Catarina Paraguaçu, Ana Nery, Joana Angélica, Maria Quitéria, Luiza Mahim, Menininha do Gantois, Irmã Dulce e muitas outras são mães da Bahia. A índia Catarina Paraguaçu, protagonista do primeiro milagre no Novo Mundo e pioneira na difusão da fé católica, também se tornou conhecida pela generosidade, pois dedicou boa parte da vida a praticar caridades. A primeira enfermeira do Brasil, Ana Nery prestou serviços ininterruptos nos hospitais militares, bem como nos hospitais da frente de operações. Pelas suas virtudes e pela sua heroicidade, foi condecorada pelo Exército com o título de “mãe dos brasileiros”


Soror Joana Angélica foi abadessa do Convento das Franciscanas da Bahia. Na guerra da Independência, em 1822, os soldados portugueses invadiram o Convento para estuprar as freiras. Soror Joana Angélica, desarmada, guarneceu a porta do claustro, retardando sua entrada. As freiras fugiram e os soldados, enfurecidos, mataram Soror Joana a golpes de baioneta.


Maria Quitéria se distinguiu nas lutas pela consolidação da independência, inclusive tomando parte em várias batalhas contra os portugueses. Foi a heroína na guerra da independência. Luiza Mahim foi uma mulher africana que no Brasil exerceu, além do papel de escrava, uma posição de mulher guerreira. Em pleno século XIX, antes mesmo da abolição escravocrata, Mahin comandou a Revolta dos Malês – uma das grandes revoltas negras na história do Brasil.


Mãe Menininha foi a primeira mais famosa mãe-de-santo (ialorixá, na língua ioruba) da Bahia, comandou durante 64 anos o mais importante terreiro de candomblé do Brasil: Gantois. Ela enfrentou a proibição da realização dos cultos de candomblé no Brasil e, em seus 92 anos de vida dedicados à religião, tornou-se personagem respeitada e atuante na vida política e social do Brasil, chegando a ser confidente de muitos políticos e artistas.


Poetisa, romancista, contista e teatróloga, Amélia Rodrigues foi uma das nais completas literatas baianas, aliando essas atividades à de educadora. A bibliotecária e professora Denise Tavares, idealista que viu concretizar o seu ideal- a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Agente cultural, filantrópica e mentora religiosa Dona Canô continua distribuindo simpatia a todos.


Na música temos Gal Costa, Maria Bethânia, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Pitty, Margareth Menezes, Claudia Leite, Vania Abreu, Sarajane, Manuela Rodrigues, Marcia Castro, Jussara Silveira, Marcia Short, Preta Gil, Baby Consuelo, banda Rabo de Saia e muitas outras.

Edith Mendes da Gama e Abreu conquistou, como mulher, um lugar antes reservado aos homens, pela força de sua personalidade no desempenho de inúmeros papéis. Foi presidente da Federação Baiana pelo Progresso Feminino, membro do Conselho de Educação e Cultura da Bahia, presidente da Sociedade Baiana de Combate à Lepra. Primeira mulher a ingressar na Academia de Letras da Bahia que liderou por quase quarenta anos (1938-1982). Escreveu ensaios, um romance e inúmeros discursos e conferências.


A desembargadora Sílvia Zarif foi presidente do Tribunal de Justiça da Bahia. A professora Consuelo Pondé de Senna conduz com sucesso os destinos do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Myriam Fraga está à frente da Casa de Jorge Amado. Sylvia Athayde na direção do Museu de Arte da Bahia. Alice Gonzalez na presidência do Instituto de Direito Administrativo da Bahia e a secular Associação Comercial da Bahia, a mais antiga do Brasil, esteve tempo atras sob a liderança de Lise Weckerle.


São muitas as mulheres (guerreiras, domésticas, educadoras) da Bahia que precisa de mais espaço, de visibilidade. Afinal, 41% dos lares de Salvador contemporânea são chefiadas por mulheres, mesmo quando elas representam 32% do contingente de desempregados da cidade (dados de 2004). De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), existem quase 22 milhões de famílias que têm como a principal figura responsável pela casa uma mulher. Entre 2001 e 2009, a proporção de casas chefiadas por elas no Brasil saltou de 27% para 35%. Destas famílias, 26% são chefiadas por mulheres com marido ou companheiro. Essa taxa ainda é considerada pequena, apesar do crescimento expressivo dos últimos anos.

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