13 junho 2011

Balada de um Homem Solitário (10)


Um lugar ao sol


Ao voltar para Salvador, bem perto do cais, vejo encaminhar-se para mim um cara, que não me pareceu desconhecido. Conhecia, fosse donde fosse, mas onde, diabo de memória. Aproximou-se de mim e falou:

-- Aposto que não me conhece, senhor Augusto?

-- Não me lembro...desculpe-me....

-- Sou Marcos, aquele do colégio...

Recuei espantado...”impossível de acreditar”, pensei alto, “mas como foi que ficoui desse jeito rapaz?”, exclamei mais espantado ainda...

-- Não é preciso contar-lhe nada – disse ele enfim -, o senhor pode adivinhar. Lembra-se daquelas minhas conquistas?

-- Sim, lembro-me, mas me diga o que lhe aconteceu?

-- Você não sabe da minha história... Aqui abandonado pelo meu pai, pessoa de recursos e que vivia aqui, no bairro da Graça quando ainda engatinhava. Minha mãe, de família humilde, buscou proteção junto aos parentes de meu pai, na ocasião, residente em Ilhéus. Tudo lhe foi negado. Ela resolveu então regressar a Salvador, passando a morar num terreno de invasão, nos Alagados, no bairro do Uruguai. Fui dado para criar a uma tria que morava na Ladeira da Praça, irmã de meu pai que, aos cinco anos, me matriculou na escola. Depois ingressei no colégio, quando o conheci, mas, por falta de recursos e orientação, abandonei os estudos. Minha tia ameaçava-me constantemente. Um dia, resolvi abandona-la e passei a residir nos Alagados, em uma casa de tábuas de caixotes. E foi aí que conheci uns amigos que me levaram, ao Maciel, o local das prostitutas. Ah!, conheci Teresa, uma mulher que viveu comigo...

-- Durante esse período – continuou Marcos -, conheci diversos marginais. Mas como a vida é dura, resolvi trabalhar em uma casa de tecidos na Cidade Baixa. Depois, Tereza me abandonou e passei noites em farras e bebidas, perdendo o emprego. Tornei-me marginal. Inicialmente acompanhava ladrões e ficava à espreita para avisá-los da aproximação der pessoas, na bandeira, como dizem. Mas essa vida não me agradava. Procurava sair daquele submundo, mas cada vez mais me atolava nele. Procurava algum ponto da vida e encontrava o desencontro. Aspirava a poluição e via minha trajetória. Vasculhava o passado e não via o meu futuro. O tempo foi passando e compreendi que não podia retornar. Procuro a compreensão e não compreendo. Sei que chorei, sem sofrer. Hoje sofro sem chorar. Perdi o equilíbrio emocional. Procurei em vão emprego, muitos me prometiam hoje, amanhã e o tempo foi passando, sem uma definição. Devido a uma série de incidentes que me foram desgostando, tomei uma atitude, iria me destruir, suicidar-me do Elevador Lacerda, mas quando estava decidido, encontrei você.

Ouvi aquilo de um só sopro, estupefato, só consegui articular isso:

- Vou te ajudar!

Um sorriso lhe abriu os lábios.

-- Não é o primeiro que me promete, e não sei se será o último que não me fará nada...

-- Creio que devia s considerar-me. A nossa amizade não morreu...

-- O que eu quero, senhor Augusto, é um diálogo. Quero uma ajuda. Não me envergonho do que fui e nem do que sou. Quero ser gente. Quero trabalhar e um lar...

-- Não se preocupe, farei tudo por você. Vamos à minha casa, você pode tomar um banho, mudar de roupa, almoçar comigo, depois conversaremos.

Por mais que tentasse ficar alegre, almocei triste. A imagem reminescente de criança alegre, aquilo tudo foi como bola de sabão, que estourou com um simples sopro. Mais tarde, consegui um emprego de logotipo no jornal e o amigo, aos poucos, conseguiu estabilizar-se em um lugar ao sol. Voltou em paz com a sociedade e consigo próprio.

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Estamos publicando um folhetim com 16 capítulos dessa história escrita em 1975

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