11 janeiro 2019

Charge, libertinagem da imaginação




Absolutista na política, iluminista na filosofia, no século XVII, a razão (quando investe na seriedade como condição de credibilidade para os discursos sociais e as práticas que deles decorrem) destitui o humor da ordem dos saberes, como portador de discurso cômico sem razão, desprovido, portanto, de verdade. Exilado da cultura, banido da função de expressar o sujeito, o humor recupera, agora no traço da charge, essa sua antiga faculdade de produtor e portador da verdade.




Enquanto existirem o poder e o ser humano, a charge persistirá, independentemente do regime político vigente, seja a ditadura ou a democracia. Charge significa carga, bateria e só é possível na periodicidade de um jornal diário e de um contexto político. A charge é uma ferramenta que revela as fraquezas. Para o cartunista baiano Lage (1946-2006) nada pode apagar o sorriso provocado pela exposição de um político ao ridículo extremo. Tem o poder de catarse. Ele não acreditava nos políticos nem na honestidade deles. Na dinâmica social, o povo é o grande inimigo da ditadura.




A charge é um desenho de humor que estrutura sua linguagem como reflexão e crítica social. A proposta não é registrar o real, mas significá-lo. Registra a história, a partir do que a história, objetivamente, não registra. A charge, “essa libertinagem da imagem”, é um instrumento universal de crítica e sátira política limitado pelas especificidades culturais de cada país, ao contrário da caricatura e do cartum, sempre iguais, independentemente de origem. Dos três gêneros gráficos que se apropriam da realidade para expressá-la através do traço de humor, a charge é o mais sofisticado, pois conta e resume histórias reais de modo e maneiras convincentemente irreais.



O caráter de denúncia, revestido de ironia e humor, sempre marcou os traços de Lage. Em sua trajetória na imprensa baiana ele fez da pena o instrumento de crítica lúcida e afiada, traduzida na melhor literatura.




A charge é um tipo de texto que atrai o leitor, pois, enquanto imagem, é de rápida leitura, transmitindo múltiplas informações de forma condensada. Além da facilidade de leitura, o texto chárgico diferencia-se dos demais gêneros opinativos por fazer sua crítica usando constantemente o humor. Mas a charge não está isolada dos demais textos que aparecem no jornal. Ela contém a expressão de uma opinião sobre determinado acontecimento importante com muita probabilidade de aparecerem outros textos do jornal.




Os textos chárgicos transmitem informações utilizando o sistema pictórico e verbal. A charge assim é um texto visual humorístico que critica uma personagem, fato ou acontecimento político específico. Por focalizar uma realidade específica, ela se prende mais ao momento, tendo, portanto, uma limitação temporal.



Há charges compostas por um único quadro e outras compostas por mais de um. Nas charges com mais de um quadro, os primeiros funcionam como preparadores para o efeito humorístico ou surpreendente que é colocado no último. O humor surge do traço, do gag, da contraposição entre os códigos verbal e visual.




O humor é o principal fundamento de sua narrativa, o instrumento singular de sua linguagem, uma vez que é através dele que a charge transforma a noticia numa consciência sobre ele. Como charge se designa, sobretudo, imagens, cujo sentido está além dos limites da razão. Assim, a charge resume situações políticas que a sociedade vive como problemas, e os re-cria com os recursos gráficos que lhe são próprios. Essa economia de recursos que a caracteriza, isto é, o modo como sua linguagem se articula produtivamente, aponta para a negação da razão como doadora exclusiva de significado à realidade, e para a criticada linguagem textual como instrumento privilegiado de seu sentido. E a charge produzindo uma verdade independente da realidade, da razão. Ao incorporar o humor como linguagem produz uma verdade cujo sentido esta fora da realidade e além da razão.

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