04 outubro 2017

V de Vingança, uma revolução nos quadrinhos

A narrativa se passa numa Inglaterra futurista. Após uma Terceira Guerra Mundial e assolada por bombardeios, a cidade está mergulhada no caos. Depois de algum tempo, a ordem é estabelecida, mas por meio de manipulações políticas e ideológicas de um governo fascista que caça os direitos civis, impõe uma forte censura aos meios de comunicação e reprime violentamente os opositores e livros, músicas e obras de arte considerados perigosos para a manutenção da ordem são destruídos.

Dentre aqueles considerados não adequados à nova ordem estão os estrangeiros, muçulmanos, negros e os homossexuais que são encaminhados aos chamados campos de readaptação, onde são torturados e feitos como cobaias de experiências. V é um homem que sobreviveu às experiências e, usando sempre uma máscara, vai eliminando os líderes fascistas. Tanto a HQ quanto o filme são sobre o amor e sobre o que regimes totalitários podem fazer com a vida das pessoas, no que elas podem se transformar, no que elas podem ser roubadas, na sua essência e dignidade e na possibilidade de lutarem contra a submissão.


V de Vingança permanece como uma das maiores obras dos quadrinhos. O trabalho revelou ao mundo seus criadores, Alan Moore e David Lloyd. Trata-se de uma poderosa e aterradora história sobre perda de liberdade e cidadania em um mundo bem possível.

V de Vingança foi a primeira tentativa de Alan Moore de produzir uma série continuada, ao longo de vários meses e anos – começou a ser publicada em 1982 na revista britânica Warrior e seguiu até 1983, para depois ser relançada pela DC Comics em seu selo adulto, Vertigo. Hoje, é relativamente fácil de ser encontrada nas livrarias brasileiras em uma edição encadernada lançada pela Panini, e ganhou adaptação cinematográfica em 2006, por James McTeigue.


V for Vendetta é um sombrio thriller futurista, encenado sob uma atmosfera orwelliana, que une a tradição do suspense britânico a paralelos com a ascensão do nazismo na Alemanha dos anos 30. O hiper-realismo dos desenhos de David Lloyd, utilizando reproduções de fotos xerocadas, sugere ao leitor imagens de um filme antigo, de colorido desbotado.

A obra original é um drama político denso, ilustrado em tons de história noir, repleto de personagens e tramas complementares que rodeiam o personagem principal, V, mascarado que desafia o governo fascista de uma Inglaterra futurista. Após salvar a adolescente Evey Hammond de um ataque de agentes do governo, ele arregimenta a garota para sua causa, manipulando-a e criando com ela uma estranha relação, às vezes sádica, às vezes quase fraternal.


Ao longo de dois anos, V embarca em uma série de maquinações e ataques com o objetivo direto de instaurar o caos e derrubar o status quo vigente, substituindo o fascismo pela completa anarquia. No meio do caminho, tenta abrir os olhos dos cidadãos para a tirania do governo, não os eximindo de culpa por terem permitido que o partido atual chegasse ao poder.

O texto-fonte é uma alegoria política que critica as mazelas da política imperialista da Inglaterra de Margareth Tatcher, a “dama de ferro”, e, de quebra, a restrição dos direitos individuais nos EUA. Moore utiliza-se de uma agressiva visão neoliberal, muito próxima ao anarquismo, para levantar uma série de críticas a Estados totalitários, que espalham o medo generalizado e utilizam-se da mídia para manipular a população.


O filme é do diretor James McTeigue e produzido por Joel Silver e os irmãos Wachowski, que também contribuíram com o roteiro. Os cineastas removeram muitos dos temas anarquistas e as referências a drogas que estavam na história original e também alteraram a mensagem política para o que eles acreditavam que seria mais relevante para um público de 2006. O filme foi visto por muitos grupos políticos como uma alegoria da opressão do governo. Libertários usaram isso como uma afirmação conservadora contra a intervenção governamental na vida dos cidadãos. Posteriormente a mascara virou um símbolo dos anarquistas para divulgar a teoria política do anarquismo.

A fita mostra como a indústria cultural (representado pela mídia), o terrorismo e as teorias política agem e se relacionam como instrumentos de manipulação e inibição das reflexões da sociedade. O filme tem como grande ícone da liberdade e vingança a mascara de V, que não por coincidência representa o número cinco em algarismo romano (V), e também o dia da comemoração do evento de cinco de novembro, “Não existe coincidência, apenas a ilusão de uma coincidência."(V de Vingança).


A poética do filme está nas cenas em que o protagonista V recita versos de Shakespeare, “Mac Beth” e “Noite de Reis”, e o clássico “O Conde de Monte Cristo” (referência esta que já existia nos gibis de Moore e Lloyd). Também está inserido nela a teoria anarquista de Mikhail Bakunin e Alexandre Dumas.

“V” é o homem da máscara branca, sempre sorridente, de capa preta e atitudes teatrais; inspirado visualmente no extremista Guy Fawkes, que tentou detonar o parlamento inglês em 1605. Mas V é, acima de tudo, a representação de uma filosofia, de um ideal político e social, da luta dos oprimidos, da busca pela liberdade e igualdade. V simboliza a nova ordem, o futuro melhor. Alan Moore construiu um personagem universal, um “símbolo”. Por isso não é difícil entender como que a máscara de V, hoje em dia, simboliza todo esse anseio por liberdade de uma nova geração, estando presente em quase todo tipo de protesto e manifestação ao redor do mundo. É como se a HQ tomasse vida própria e todo o conjunto de valores do personagem viessem à tona.


As posições defendidas pelo personagem fizeram com que em novembro de 2006, manifestantes do grupo americano "Fundação para a Educação Constitucional" protestassem fantasiados das personagens de "V da Vingança" em Washington. O grupo
caminhou em frente à Casa Branca exigindo o direto de fazer uma petição ao governo e
receber respostas para as violações à educação na Constituição.

A máscara de Guy Fawkes, o principal ícone de V de Vingança, é constantemente usada em protestos ao redor do mundo. Começou com o Occupy Wall Street e até nas manifestações no Brasil, sem esquecer do grupo hacker Anonymous, usam a máscara.

“Você usa tanto uma mascara que, acaba esquecendo de quem você é” sugere que o protagonista luta não somente uma guerra contra o governo totalitário da Inglaterra, mas também uma luta interna, o personagem havia sido preso e torturado e posto às experiências, quando a prisão explode, o espectador vê o protagonista saindo das chamas, em um acidente na prisão. Ele parte para uma grande batalha contra si, seus instintos e seus desejos. Sua mascara simboliza a luta de um governo que mente para a população sobre o massacre, portanto, ela também vai simbolizar esta mentira. Essa mascara, que já foi utilizada em passeatas e manifestos na vida real tem um simbolismo muito forte, representa uma vontade de justiça mascarada pela ideia de vingança, o autor da HQ Moore tem uma concepção anarquista da existência, seu personagem propõe uma sociedade sem representantes, portanto, uma sociedade auto governável, de ausência de governantes, portanto, pode ser a HQ como uma carta aberta ao povo sobre a possibilidade de retirar o poder da elite e devolver ao povo a direção de suas vidas.


A hora é certa para uma revolução, canta Mick Jagger nos créditos finais do filme, na clássica Street Fighting Man. 

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