06 outubro 2017

Jovens mutilados em nome do louvor a Deus (2)

Há 139 anos (1878) o Vaticano deixava de usar homens emasculados no seu coral. Numa época em que o palco da ópera era proibido às mulheres, o talento dos eunucos (homens castrados) encantava as exigentes platéias da Europa. Desde a antiguidade até tempos recentes, homens sexualmente mutilados foram usados para vigiar haréns, fazer tarefas domésticas ou servir como espiões para reis e imperadores. Eram comuns em Roma, na Grécia, no norte da África, nas terras bíblicas e na Índia. Até mesmo a Europa do século XVIII idolatrava os castrati, cantores que tinham sido emasculados na infância para preservar sua voz masculina de soprano.


O Vaticano, por exemplo, só deixou de usar homens emasculados no seu coral em 1878. Entretanto, em nenhum outro lugar os eunucos tiveram uma importância histórica tão grande quanto nos palácios da China Imperial. A partir do século VIII e, provavelmente até antes disso, homens sexualmente mutilados serviam o detentor do "mandato do céu", suas inúmeras esposas e concubinas. Desde tempos remotos e especialmente depois do advento do confucionismo, os chineses exigiam severa "pureza" moral das suas mulheres. E verdadeiras hordas de eunucos eram empregadas para vigiar a castidade das suas esposas e concubinas. Homens "inteiros" eram mortos se simplesmente se aproximassem do harém, uma vez que a certeza da paternidade era essencial para os governantes. Do contrário, não haveria descendentes para honrá-los por meio do culto dos ancestrais, quebrando assim a frágil harmonia entre o Céu e a Terra.


Por causa da sua proximidade dos governantes, o que lhes permitia influenciar e conseguir favores especiais dos soberanos, e por não poderem constituir família, os eunucos eram a única força política que escapava às restrições do mundo oficial. Por isso, eram odiados pela classe dos mandarins. Mas apesar da forte oposição, os eunucos não perderam sua importância e poder de influência. Ao contrário de outros lugares, os eunucos chineses não eram apenas castrados, mas totalmente emasculados. Um número enorme de meninos era comprado das suas famílias, emasculado e levado ao palácio onde serviam as mulheres do harém e os jovens príncipes.


Muitas damas da corte tinham esses meninos eunucos como animais de estimação. Seu órgão amputado era chamado de "pao" ou "precioso". Preservado num vaso hermeticamente selado, era realmente muito valorizado pelo eunuco, pois a cada vez que ele era promovido tinha de exibir sua preciosidade e ser reexaminado pelo eunuco chefe. Se o pao fosse perdido ou roubado, nessa ocasião ele tinha de comprar outro na clínica que realizava castrações ou alugar o "precioso" de outro eunuco. Também era vital que o órgão fosse enterrado com ele numa tentativa de ludibriar os deuses, fazendo-os acreditar que ele era um homem "inteiro". Do contrário, ele iria para o além como uma mula.

GUARDIÕES DE PALÁCIOS

A palavra Eunuco se refere a homens castrados que guardavam Haréns de Sultões na Ásia. O costume de empregar homens eunucos como guardiões de palácios, de tesouros, de haréns e de exércitos é bastante antigo. Os sultões otomanos, na realidade, adotaram este costume dos Imperadores Bizantinos, nas cortes de Constantinopla. Os eunucos comumente ascendiam a posições de elevada hierarquia e posição política nas cortes onde serviam. Os eunucos mais famosos da História são: Mordecai, Hegai, Saasgaz, Ebede-Meleque, o Eunuco da Rainha de Candace e o General Narses de Bizâncio.


O mais famoso castrato do século XVIII terá sido Carlo Broschi, conhecido por Farinelli, tendo sido realizado um filme sobre a sua vida, Farinelli il Castrato. O filme "Farinelli", de Gérard Corbiau (1994) focaliza a vida do mítico cantor italiano Carlo Broschi (1705-1782), que iniciou sua carreira ao lado do irmão, o pianista Ricardo Broschi. Fora aluno de Nicola Porpora e ganhou muito prestígio em toda a Europa. Aparece como um galã, de olhar triste e solitário, que encerrou carreira como cantor exclusivo do rei Felipe V da Espanha, que o contratou porque seu canto era a única coisa que o tirava da depressão.


"Cry to heaven" é uma obra de Anne Rice de 1982, que descreve a vida de "castrati" italianos, cantores de ópera, na sociedade do séc. XVIII. Homens que foram adulados por multidões, como hoje o são os ídolos pop, sujeitos de paixões por homens e mulheres, mas que, no entanto, não deixavam de ser considerados apenas como meios-homens (ou meio-humanos). (Texto publicado neste blog dia 20 de maio de 2008)

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