11 outubro 2017

HQ mostra dificuldades de ser criança no Brasil


O premiado quadrinista curitibano José Aguiar lança seu olhar sobre a história brasileira através da graphic novel A Infância do Brasil, lançamento da AVEC Editora. O autor narra vários momentos das crianças. Pelo viés da infância. Com ênfase nas contradições, abusos, descasos, abandonos e outras situações que insistem em não ficar para trás.

Um bebê nasce numa pequena casa de madeira do Brasil do século 16. Ao saber que a criança nasceu, o pai entra afobado no quarto querendo saber se sua mulher finalmente deu à luz um menino, porque ele não quer mais filhas. Esse é o primeiro capítulo da história em quadrinho de José Aguiar.


A obra surgiu junto com as preocupações do autor, enquanto pai. Ele comenta ter redescoberto a infância a partir do nascimento de seu primeiro filho: “O que me levou a questionar como foram as infâncias de meus pais, dos pais deles e assim por diante”. Seu próximo passo foi elaborar um projeto aprovado no edital do Mecenato Municipal de Curitiba que viabilizou a criação de uma webcomic lançada online entre 2015 e 2016.

Dividida em seis capítulos, cada um dedicado a um século desde o início da colonização do Brasil por Portugal. E, em cada capítulo, o autor mostra as dificuldades enfrentadas pelas crianças, principalmente as mais pobres e de minorias étnicas, no país, como a desigualdade de gênero, o preconceito racial, o trabalho infantil, a mortalidade infantil e a pobreza. Tudo isso usando, como pano de fundo, episódios históricos como as bandeiras paulistas, a promulgação da Lei do Ventre Livre e a consolidação das leis trabalhistas.


“A Infância no Brasil” também contou com a consultoria da historiadora Claudia Regina Moreira para melhor retratar cada época em que se passam os capítulos. Ela também escreve textos complementares, contextualizado nossa sociedade desde o século XVI até o XXI “A partir dos temas que propus, levantou para mim leituras e contextualizou cada século em que se passa a trama, escrevi narrativas fictícias que pudessem dialogar com o presente”, revela o quadrinista.

O projeto também teve cores de Joel de Souza – que já havia trabalhado com Aguiar em outra HQ, Folheteen. Para o autor, a participação do colorista foi fundamental para dar a atmosfera exigida pela narrativa histórica.


Infância Perdida
A graphic novel trata de um arco formado de pequenos personagens que atravessam quase seis séculos de abusos, sexismo, intolerância, preconceito e violência não só física. “São os problemas que estão nos alicerces de nossa sociedade e que todos com um mínimo de sensibilidade gostariam de sanar”, explica Aguiar.


O autor define sua obra não como uma história de grandes feitos, batalhas, tratados, políticos ou soldados. Mas como “uma HQ sobre pessoas que poderiam ter realmente existido ou que podem estar hoje na sua esquina. Ou quem sabe, ser você.”

“O brasileiro de hoje cresceu acostumado com a ideia de que vive num país jovem. Mas, inevitavelmente, o país está crescendo, amadurecendo e deixando sua infância para trás. Mas crescer não significa deixar nossa infância de lado. Ela sempre fará parte de nós por se tratar de uma etapa fundamental na vida de todos. Período de experimentação, aprendizado, descobertas, conquistas e, por que não, também de tristezas. Afinal, é nela que se esboça o adulto, o cidadão, o ser humano pleno que faz parte de nossa sociedade”.


Para a historiadora Mary Del Priore, no prefácio do álbum, “ainda pouco explorados, os quadrinhos são capazes de provocar emoções, animar uma narrativa, inspirar sentimentos, explicar situações e ´fazer a história do Brasil´. E, mais importante, desenhar é contar. E contar é fazer compreender. E para compreender, as técnicas da HQ são fundamentais. Em cada episódio, panoramas, zoom, cenografia dos detalhes, ponto de vista dos personagens e diálogos arrastam o leitor para um enredo fascinante e tão instigante quanto histórico. Aprendemos enquanto nos divertimos!”.


A Infância do Brasil foi publicado em formato de revista, pela editora Avec, e conquistou neste ano o Troféu HQMix, a principal premiação brasileira do segmento. A obra pode ser adquirida na loja online da AVEC editora, na Amazon ou aqui mesmo em Salvador, na RV Cultura & Arte, no Rio Vermelho..

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