20 novembro 2019

Diferentes estilos dos quadrinhos brasileiros (02)


Dono de um trabalho rico tanto visualmente quanto por temáticas e abordagens, o cartunista Laerte Coutinho faz das histórias em quadrinhos um espaço de inquietação constante. Valores, linguagens, preconceitos e o próprio trabalho são colocados em questão nas quatro linhas que delimitam os quadrinhos. É celebrado por quadrinistas e jornalistas pelo experimentalismo e pela originalidade da sua produção. Ao longo dos seus mais de 30 anos de carreira, Laerte editou ou participou das revistas Circo, Chiclete com Banana, Piratas e outras. Criou personagens já bastante notórios como Os Piratas do Tietê, Fagundes (o irrecuperável puxa-saco), os habitantes do Condomínio (o Síndico, o Zelador), o Homem-Catraca (além das definições), Hugo Baracchinni (moderno) e muitos outros. Nesses personagens notam-se as principais habilidades de Laerte com a arte sequencial: seu traço leve e reconhecível, a utilização de temas e linguagens cotidianos através de uma grafia próxima da fonética, a presença de questões filosóficas-existenciais de forma suave, única e desconcertante, o humor sutil e mordaz.




Com um traço original, que tanto se adapta ao clima sombrio das histórias de terror, quanto à luminosidade épica das histórias de ficção & fantasia, o mineiro Mozart Couto tornou-se um dos nomes mais conhecidos de nossos quadrinhos. Um verdadeiro maestro de uma sinfonia de cores, luzes e sombras. Produziu para diversas editoras do eixo Rio-São Paulo recebendo, em 1986, o Prêmio Angelo Agostini, da Associação de Quadrinhistas e Cartunistas de São Paulo, como melhor desenhista. Dono de um traço inconfundível de realismo impressionante, em 1988 começou a exportar seus trabalhos para a Europa, onde foram publicados álbuns de histórias em quadrinhos e tiras de jornais. Em 1993, entrou no mercado norte-americano colaborando em revistas das editoras Marvel Comics, DC Comics, Acclaim Comics, Dark Horse e Image Comics, desenhando conhecidos personagens como Mulher Maravilha, Thor, Hulk, Elektra, Turok, Glory, Gamera, e outros.




Julio Shimamoto é uma lenda dos quadrinhos brasileiros. Ele estreou como desenhista de quadrinhos em 1959, na Editora Continental/Outubro. Entre 1961 e 1964, foi um dos líderes do movimento pela lei de nacionalização dos quadrinhos. Após o golpe militar de 64, foi fichado como comunista e subversivo, tendo que migrar para a publicidade. Sua grande volta aos quadrinhos se deu em 1978 e, a partir de então, não parou mais. Produziu para as editoras, Vecchi, Rio Gráfica, Grafipar, Press e Opera Graphica, além de colaborar com várias revistas independentes, como Made in Quadrinhos e Mystérion. Os álbuns Sombras, Musashi I e II, Madame Satã, Volúpia e Claustrofobia estão aí para provar a qualidade de sua arte. Com mais de cinco décadas de atuação, conquistou os principais prêmios da área – como HQMix, Ângelo Agostini e FIQ. Sua obra, caracterizada por constante experimentação gráfica, transita pelos mais diversos gêneros, do terror ao erótico.




O quadrinhista Flavio Colin (1930 – 2002) é um dos nomes mais cultuados da história da nona arte no Brasil. Desenhista carioca, criado no sul do país, Flavio Colin iniciou sua carreira de quadrinhista ainda bem jovem, nos anos 50. Nos anos 60, marcaria definitivamente sua carreira com o gibi.  O Vigilante Rodoviário. Para os estúdios de Maurício de Souza e o grupo Folha, produziu Vizunga, um dos primeiros personagens de quadrinhos realmente com background ecológico. Entre os anos 70 e 80, produziu ininterruptamente, colaborando para as publicações das editoras Grafipar e D-Arte, entre outras. Prolífico até o fim de sua vida, Colin ficou conhecido pela nova geração de leitores brasileiros, ao estrelar publicações especiais como: O Boi das Aspas de Ouro, Estórias Gerais e Fawcett. Ele é simplesmente o maior mestre da nona arte no Brasil, ainda na ativa. Possui um traço único, diferente, estilizado. Já desenhou de tudo um pouco, passando por tiras, HQ’s de terror, eróticas e até álbuns com obras históricas. Em fevereiro de 2001, ganhou o troféu Angelo Agostini de melhor desenhista de 2000, com Fawcett.




O chargista é conhecido por seu humor anárquico e urbano. Sob essa característica Angeli desenvolveu uma série de personagens como a famosa Rê Bordosa, uma junkie dos anos 80, Wood & Sotck, dois hippies que fumaram até os neurônios, o anarquista Meia Oito e seu parceiro gay enrustido Nanico, Luke e Tantra, duas adolescentes com os hormônios em fúria, a ninfomaníaca Mara Tara e muitos outros personagens. Desde os anos 80, Angeli vêm desenvolvendo uma galeria de personagens famosos por seu humor anárquico e urbano; entre eles se destacam o esquerdista anacrônico Meia Oito e Nanico, o seu parceiro homossexual enrustido (mas não muito); Rê Bordosa, conhecida como a junkie mais "porralouca" dos anos 1980; Luke e Tantra, as adolescentes que só pensam em perder a virgindade; Wood & Stock, dois velhos hippies que deixaram seus neurônios na década de 1960; 


os Skrotinhos, a versão underground dos Sobrinhos do Capitão; as Skrotinhas, a versão "xoxotinha" dos Skrotinhos; Mara Tara, a ninfomaníaca mais pervertida dos quadrinhos; Rhalah Rikota, o guru espiritual comedor de discípulas; Edi Campana, um voyeur e fetichista de plantão à procura do melhor ângulo feminino; o jornalista Benevides Paixão, correspondente de um jornal brasileiro no Paraguai e o único a ter conseguido entrevistar Rê Bordosa; Ritchi Pareide, o roqueiro do Leblão; Rampal, o paranormal; o machão machista Bibelô; o egocêntrico Walter Ego (também conhecido como "o mais Walter dos Walters"); Osgarmo, o sujeitinho vapt-vupt; Rigapov, o imbecil do Apocalipse; Hippo-Glós, o hipocondríaco (inspirado em Cacá Rosset); Vudu; Los Três Amigos e Bob Cuspe, o anárquico punk que cuspiu nas piores criaturas de nossas gerações. Ele próprio também se tornou um personagem, estrelando de início as tiras "Angeli em crise". Outra versão caricata sua é o personagem Angel Villa de Los Três Amigos.


19 novembro 2019

Diferentes estilos dos quadrinhos brasileiros (01)


Os leitores de revistas em quadrinhos além de escolher o personagem preferido, também seleciona seus desenhistas, pois cada página é uma surpresa. Quem vira a página de uma HQ pode não saber o que vai encontrar do outro lado, mas se deixa levar pelos traços cheios de movimento que desenham a ação. São os detalhes, as páginas minuciosamente trabalhadas em diferentes estilos, que guiam a nossa imaginação através do universo habitado por milhares de personagens. A história das HQs brasileiras, dos seus personagens, é muito vasta.




O italiano Angelo Agostini (1843 – 1910) veio ao Brasil ainda adolescente, fundou uma serie de jornais ilustrados, foi um dos pioneiros mundiais das HQs e integrou-se de corpo e alma nas campanhas abolicionistas e republicana. O registro visual das duas décadas e meia que precederam a República encontra em Agostini sua mais perfeita tradução. O realismo dá o tom nos desenhos, numa época em que a fotografa ainda não era reproduzível nas páginas da imprensa. Ele foi o mais importante artista gráfico do Segundo Reinado.




Péricles, o criador do mais famoso e popular personagem do cartum brasileiro, o sádico, maldoso e malicioso Amigo da Onça. Seu mau caráter era amado. O sucesso do Onça (quatro décadas!) tem tudo a ver com o jeitinho brasileiro. Por essa razão, exerceu a autocríticaa e um Brasil que tem tudo para dar certo, mas que sempre é invadido por Amigos da Onça que se deleitam em precatórios ou invadem a alma de políticos que se perdem em autoritarismo.




O desenhista da fome Edgar Vasques e seu desempregado Rango. Tem a escatologia de Marcatti, a criatividade de Laerte, o desenho fluído de Mozart Couto, o traço caligráfico de Henfil, o expressivo Julio Shimamoto, o humor de verve nacional de Péricles, a composição elaborada e realista de Flavio Colin, a ironia e o bom humor de Miguel Paiva (Radical Chic e Gatão de Meia Idade), o estilo sociológico e verbal de Angeli (com os tipos politizados como MeiaOito e Nanino, ácido como Bob Cuspe e Skotinhos, bregas como Bibelô, o punk Bob Cuspe, a pornográfica Mara Tara, o guru místico Rhalah Rikota entre outros) que criou personagens que refletem o mundo a a si mesmo e no dia em que eles não servem mais a esse propósito não tem pena, mata! A lista é muito grande, vamos conhecer alguns deles:




O gaúcho Renato Canini (1936 - 2013) é um ilustrador brasileiro, conhecido por seu trabalho em diversas publicações, como Pasquim, Pancada e para a Editora Abril, onde ilustrou histórias em quadrinhos da Disney e destacou-se desenhando o personagem Zé Carioca, ao qual atribuiu seu traço pessoal e uma identidade mais brasileira, distanciando notavelmente este personagem do estilo Disney original. Ele mudou o visual do Zé Carioca, trocou a gravata borboleta e o paletó por uma camiseta e uma bermuda, tirou o chapéu panamá e o charuto. Tirou o bicho das ruas sem vida para levá-lo aos morros, campinhos de futebol de terra batida e favelas. Canini criou diversos outros personagens, entre eles o Dr. Fraud, o indiozinho Tibica, e Kaktus Kid, uma paródia inspirada nos velhos caubóis do faroeste norte-americano.




O quadrinhista Francisco Marcatti, considerado o mais importante autor de histórias em quadrinhos underground do Brasil. Tanto pelos temas que abraçou com as mãos, pernas, línguas e tripas, quanto pela forma que encontrou de publicar e distribuir seus trabalhos. Imprimindo por conta própria as suas revistas e livros, vendendo pelas ruas e se associando à mais famosa banda punk do país, este paulistano escreveu com lodo, mijo e nanquim o seu nome. Os traços arredondados e "sujos" de Marcatti são reconhecíveis de longe por fãs de quadrinhos. Como títulos ele escolheu as palavras Mijo, Lôdo, Ventosa. Entre as histórias, criou o personagem sem pudor repleto de desejos e com um nome nada comum, Frauzio. Também transformou os integrantes da banda de hardcore Ratos de Porão em personagens.


14 novembro 2019

Há 40 anos morria o criador do Reco Reco, Bolão e Zeitona: Luiz Sá


A obra deste genial caricaturista, quadrinhista e cartunista brasileiro, criador dos popularíssimos personagens Réco-Réco, Bolão e Azeitona, da revista O Tico Tico durou três décadas, de 1930 a 1950. Único caricaturista do país a realizar cartuns para cinejornais nacionais, Luiz Sá (Fortaleza, Ceará, 28/09/1907- Niterói, Rio de Janeiro, 14/11/1979) atuou em vários outros veículos de comunicação, tornando-se o primeiro caricaturista multimídia brasileiro. Foi também responsável pelas duas primeiras tentativas de criação de um desenho animado brasileiro. Há 40 anos ele faleceu e a nova geração não conhece seu trabalho.




O artista também foi um dos precursores do desenho animado no Brasil, cartunista sanitário e o criador gráfico do bonequinho das críticas cinematográficas do jornal O Globo, criado em 1938, e que até hoje indica a cotação dos filmes. Sua trajetória estendeu-se de 1930 a 1979, com um traço original, abrindo caminho para a modernidade do desenho de humor em nosso país.




Nasceu no Ceará em 1907, e ainda menino começou a rabiscar com carvão pelas calçadas de Fortaleza. Mudou-se para o Rio de Janeiro por volta de 1929, onde fez um pouco de tudo: foi vigia noturno no Hospital da Gamboa, fez charges, ilustrou livros, desenhou para cinema e televisão, etc. Deixou seu traço na história em um período em que idéias importantes sobre educação, saúde, e propaganda estavam sendo desenvolvidas.



Depois dessa época de ouro dos seus desenhos, a vida de Luiz Sá não ficou nada fácil. Durante os anos 60, aconteceu uma verdadeira invasão dos quadrinhos estrangeiros, e por isso muitas revistas brasileiras fecharam. Por isso, o artista retirou-se para viver afastado em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio. Ele contraiu tuberculose em 1974, e foi internado no Sanatório Azevedo Lima, em Niterói.




Apesar das dificuldades, continuou a trabalhar em prol da saúde, e durante sua internação, realizou cerca de 50 desenhos. Alguns retratavam o bacilo de Koch, causador da tuberculose, e outros inimigos da saúde. O desenhista se recuperou e voltou para casa após o tratamento, mas alguns anos depois, em 1979, acabou falecendo de complicações causadas pelo problema no pulmão.




Se  você perguntar para os seus avós ou seus pais: se eles gostavam de histórias em quadrinhos, provavelmente conhecem Reco-Reco, Bolão e Azeitona. Os três meninos bagunceiros eram personagens muito famosos criados por Luiz Sá e publicados na primeira revista em quadrinhos do Brasil, O Tico-Tico, que circulou desde 1905 até a década de 70. A revista tornou conhecido muito desenhistas brasileiros, e divertiu gerações de leitores. Seu desenho é caracterizado pelo uso quase exclusivo de linhas curvas, tendo quase todos os seus personagens os rostos bastante arredondados.




Na mesma época que Reco-Reco, Bolão e Azeitona faziam muito sucesso, entre os anos 30 e 50, o seu criador Luiz Sá trabalhava também como funcionário do Serviço Nacional de Educação Sanitária  - um órgão governamental criado em 1941, durante o governo do presidente Getúlio Vargas - e ilustrou vários livros e folhetos sobre saúde pública e prevenção de acidentes.



Seus traços retratavam os hábitos e cuidados com a saúde com leveza e humor, ajudando a tornar o tema mais atraente para todos os públicos. Hábitos saudáveis, alimentação correta, higiene, prevenção e combate a doenças eram alguns dos temas tratados pelo Serviço Nacional de Educação Sanitária, que se dedicou a criar peças de propaganda em diversos meios. Um desses recursos eram as cartilhas, como estas, que datam de 1949.




Os livrinhos tratavam de assuntos variados de saúde, higiene e alimentação. Falavam de doenças específicas, mas também de cuidados do cotidiano. Temas tão importantes de educação para a saúde exigiam ilustrações à altura. Por isso, foi convocado um fera dos quadrinhos e cartuns como Luiz Sá para ajudar a confeccionar as cartilhas. Depois dessa época de ouro dos seus desenhos, a vida de Luiz Sá não ficou nada fácil. Durante os anos 60, aconteceu uma verdadeira invasão dos quadrinhos estrangeiros, e por isso muitas revistas brasileiras fecharam. Por isso, o artista retirou-se para viver afastado em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio. Ele contraiu  tuberculose em 1974, e  foi internado no Sanatório Azevedo Lima, em Niterói.



Apesar das dificuldades, continuou a trabalhar em prol da saúde, e durante sua internação, realizou cerca de 50 desenhos. Alguns retratavam o bacilo de Koch, causador da tuberculose, e outros inimigos da saúde. O desenhista se recuperou e voltou para casa após o tratamento, mas alguns anos depois, em 1979, acabou falecendo de complicações causadas pelo problema no pulmão.




Bolão ficou tão popular que, em 1961, virou uma série de figurinhas do chiclete Ping-Pong. Luiz Sá também criou outras figuras como Louro, um papagaio, o cachorro Totó, o rato catita e Pinga Fogo no Tico Tico. Já o Detetive Desastrado e Maria Fumaça (uma empregada negra que pouco entendia as ordens da patroa) foram publicados na revista Cirandinha. Luiz Sá mostrou, através do relacionamento entre três garotos comuns do ambiente urbano – a capacidade de iniciativa e de participação da criança. Luiz Sá atuou em diferentes áreas e seu desenho faz parte do nosso dia-a-dia até hoje: ele é o criador gráfico do bonequinho das críticas de cinema do jornal O Globo, criado em 1938, e que indica a cotação dos filmes.


12 novembro 2019

Mr Magoo continua aprontando 60 anos depois


Há 60 anos surgia um desenho animado que agradou a todos: Mr. Magoo.  Criado pela United Productions of America (UPA) em 1949, o personagem principal, Quincy Magoo, é um velhinho baixo, careca e com grave deficiência visual que se envolve em situações cômicas e perigosas devido à sua pouca visão. Durante os anos seguintes, a UPA (United Productions of America) lançou vários curtas de animação com o velhinho, inclusive dois vencedores do Oscar: When Magoo Flew (1953) e Mr. Magoo's Puddle Jumper (1955).


O roteirista americano Millard Kaufman escreveu o roteiro do desenho animado The Ragtime Bear que estreou em 1949 e no qual apareceu pela primeira fez o popular personagem Mister Magoo, um pequeno e bondoso idoso extremamente míope, inspirado em um tio do roteirista. Desenhos de John Hubley.



O desenho fez parte da infância de diversas gerações desde 1960, E ele voltará às telas em uma nova versão animada no Discovery Kids 2019. Mr. Magoo é um senhor atrapalhado que vive esquecendo os óculos por aí e sempre se mete em confusão por causa disso. Baixinho, careca e simpático, ele aparece sempre acompanhado do seu cãozinho.




Nesta nova versão do desenho, surge um personagem inédito: Fizz, um hamster megalomaníaco que quer conquistar o mundo, a começar pelo seu dono humano e totalmente submisso. Fizz está sempre criando grandes invenções para conquistar seu objetivo, mas Mr. Magoo, distraidamente, o separa do seu propósito. No episódio de estreia, Mr. Magoo segue aquilo que ele acredita ser um OVNI. Na verdade, trata-se de um pernilongo. Em sua missão fantasiosa, o senhor distraído tenta "defender o planeta dos alienígenas conquistadores".



O Artigo do Wall Street Journal (1997) revelou que o velho míope era uma crítica velada ao senador dos EUA Joseph McCarthy. Vê inimigos que não existe, como Joseph, que via todos comunistas como tal, e os que existiam, não via. Em 1997 Sr. Magoo foi interpretado por Leslie Nielsen no cinema, mas foi recebido com críticas muito negativas.




Esta foi mais uma atração infantil que povoou as tardes da garotada que ficava grudada na TV dos anos 70. A UPA, empresa que revolucionou a animação nos EUA nos anos 40/50, produziu dezenas de curtas que eram distribuídos pela Columbia Pictures. O estilo revolucionário da UPA mudou completamente a cara dos desenhos animados, que pararam de ter aquele estilo fofinho à la Disney, para usar um design mais moderno que influenciou todos os estúdios — inclusive Disney, que modernizou o traço.




Magoo foi licenciado para os quadrinhos em 1952. Nos anos seguintes ele apareceu em vários gibis da Dell Comics, a maioria deles em dupla com Gerald McBoing-Boing. Em 2002, a TV Guide classificou o Mr. Magoo como número 29 na lista 50 Maiores Personagens de Desenhos Animados de Todos os Tempos. No Brasil, foi exibido na Rede Tupi nos anos 60 e 70. Mais tarde no SBT nos anos 80. Atualmente vai ao ar na Rede Brasil.


11 novembro 2019

Julio Shimamoto celebra seu 80º aniversário


O desenhista e roteirista brasileiro Julio Yoshinobu Shimamoto, mais conhecido como Shima, celebra seu 80º aniversário este ano. O artista será o grande homenageado do Artists’ Alley, assinando o pôster e a credencial do espaço dedicado aos quadrinistas, além de participar da CCXP19 (festival de cultura pop), programada para São Paulo, em dezembro. Ícone dos quadrinhos brasileiros, experimentador e inovador das ilustrações, Shimamoto ou simplesmente Mestre Shima é um expert em artes em preto e branco.

                              
                                                                                      

Nascido em Borborema (SP), em 1939, Julio Shimamoto começou a desenhar profissionalmente aos 16 anos e aos 17 fazia quadrinhos para a CETPA (Cooperativa e Editora de Trabalho de Porto Alegre-RS), Folha de S.Paulo, Folha da Tarde e Editora do Brasil. Representante de uma geração de grandes nomes dos quadrinhos de terror, Shima desenvolveu sua paixão pelas artes plásticas durante a infância, desenhando com gravetos no sítio do pai em Borborema, no interior de São Paulo. Ainda na juventude, tornou-se desenhista no Departamento Promocional da multinacional Sears, Roebuck & Co. (Lojas Sears) e, desde então, nunca mais abandonou os pincéis.



Em seguida trabalhou com publicidade. Voltou aos quadrinhos na década de 1970, desenhando para as editoras Noblet, Bloch, Vecchi, Grafipar e D´Arte. Com o fim dessas editoras, voltou à propaganda até 1991, para ser ilustrador free-lancer e quadrinista. Lançou ábuns como Madame Satã I e II, Musashi I e II, Sombras, manuais de Artes Marciais, Manual de Claro-Escuro, Volúpia, Banzai – 100 anos da imigração japonesa no Brasil, Guerreiros da Água, Ponta de Flexa, entre muitos outros.




Particularmente muito conhecido por seus trabalhos no gênero terror. Estreou profissionalmente como desenhista de histórias em quadrinhos em 1959 pela Editora Continental/Outubro, onde desenho a primeira HQ do Capitão 7, personagem surgido na televisão. Em maio de 1963, criou a pedido de Maurício de Sousa, o personagem Fidêncio, o gaúcho, para o Suplemento Infanto-Juvenil do jornal Folha de S. Paulo. Entre 1961 e 1964, foi um dos líderes do movimento pela lei de nacionalização dos quadrinhos.




Após o golpe militar de 64, foi fichado como comunista e subversivo, tendo que migrar para a publicidade. Sua grande volta aos quadrinhos se deu em 1978 e, a partir de então, não parou mais. Produziu para as editoras, Vecchi, Rio Gráfica, Grafipar, Press e Opera Graphica, além de colaborar com várias revistas independentes, como Made in Quadrinhos e Mystérion (essa última ainda contém o último trabalho do saudoso Flávio Colin nos Quadrinhos). Os álbuns Sombras, Musashi I e II, Madame Satã, Volúpia e Claustrofobia estão aí para provar que ele ainda muito que mostrar.




Com seu traço denso, passou por praticamente todas as editoras e publicações do país: La Selva, Taika, Outubro, Ebal, Noblet, Folha de São Paulo, Ática, Editora do Brasil, Cooperativa Editora e de Trabalho de Porto Alegre, Vecchi, Grafipar, Abril, D-Arte, Press, Maciota, Record, Globo, Bloch, Via Lettera, Devir, Marco Zero, Novo Mundo, Escala, Nova Sampa e Opera Graphica.



Em 2002 Shimamoto recebeu uma homenagem da Câmara Municipal de São Paulo[6] e em 2005 recebeu outra homenagem, dessa vez a Moção de Congratulação nº 230/05 pela Câmara Municipal de Jaboticabal. Foi convidado de honra e homenageado no 5º Festival Internacional de Quadrinhos em 2007, tendo o Japão como país homenageado. 2008, ilustrou o livro BANZAI! História da Imigração Japonesa no Brasil para as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa, e em 2009 publica Samurai, uma colêtanea de histórias sobre samurais, ninjas, entre outros artistas marciais pela EM Editora (na verdade um selo da Mythos Editora) e Quadrinhos para telefone celular da Operadora Oi. Seu apelido nos círculos de histórias em quadrinhos é "Samurai dos quadrinhos".




Aos 80 anos, Shima segue na ativa, envolvido em projetos autorais e produzindo quadrinhos experimentais. Recentemente, desenvolveu uma técnica na qual aplica uma camada de tinta sobre uma peça de cerâmica para depois desgastá-la utilizando objetos pontiagudos. As imagens surgem em negativo, em uma nova versão do estilo claro-escuro, técnica consagrada no Renascimento por artistas como Caravaggio. A partir do negativo, passa a escanear e xerocar estas imagens, para depois montar as páginas das histórias por meio de colagens. E foi justamente com essa técnica inovadora que ilustrou Cidade de Sangue, com texto de Márcio Jr, agitador cultural goiano cuja versatilidade abrange incursões pela música, cinema, escrita e, claro, HQs. Poucos atingiram um traço tão personalizado e marcante. Raros dominaram a narrativa sequenciam como ele ou ousaram experimentar tantas variações e técnicas. Vale a pena conhecer a obra do Mestre Shima!

08 novembro 2019

HQ brasileira hoje está mais autoral com variedade de estilos (04)


Foi com o fanzine Na Era dos Quadrinhos (1970) que surgiram as primeiras manifestações conscientes no sentido de se construir HQ autenticamente nacional - e popular na Bahia. O quadrinho baiano tomou fôlego com o surgimento do tabloide A Coisa, do jornal Tribuna da Bahia. A Coisa foi um seguimento natural do Na Era e tinha como meta principal “uma maior valorização do autor brasileiro e em particular baiano”. “Pretendemos também – dizia o editorial -, divulgar e abrir novas perspectivas aos humoristas e desenhistas que ainda não tiveram oportunidade de publicar seus trabalhos”. Em pouco tempo o suplemento revelou novos cartunistas e desenhistas de quadrinhos.




O lançamento do tabloide serviu para aproveitar vários desenhistas que antes apenas trabalhavam em outros setores. Jorge Silva, Carlos Ferraz, Romilson Lopes e Péricles Calafange foram as revelações em termos de quadrinhos. Lessa e Aps (Anildson Pereira dos Santos) tinham base cartunística e colocaram de maneira implícita a relação quadrinho/cartum.




Nessa época o humor do cartunista Lage era conhecido em toda a Bahia: humor engajado, militante sem ser partidário, contestador. Essencial, puro, em estado bruto. Na trilha do humor de comportamentos, ele criou personagens impagáveis, fazendo a melhor crítica de costumes dos quadrinhos baianos. Desenho de traço nítido, econômico, o cartunista Nildão em vez de fazer rir às custas da pessoa retratada, o ser humano que aparece em seus desenhos é anônimo. E o espectador se identifica com ele. Ele não ri mais às custas de um outro, mas às suas próprias custas. O cartunista e quadrinista Setubal trafega bem pelos quadrinhos. A significação social de sua obra e a elaboração narrativa trazem propostas extremamente ricas para nossos quadrinhos. O dinamismo de seus planos reveste-se de uma significação estrutural à altura das melhores produções gráfico visuais dos nossos tempos. Ele costuma dar um traço próprio aos seus personagens: Maré Mansa, reflexo da vida baiana, Argemiro e Garibaldo entre outros.




Flávio Luiz é muito conhecido pelas tirinhas em quadrinhos de Jab, um lutador, Rotta 66, as revistas Jayne Mastodonte, Au o capoeirista e pela graphic novel O Mesias em parceria com Gonçalo Júnior, entre outras. Luís Augusto discutiu o relacionamento do mundo adulto com a infância apresentando a diversidade do universo infantil e contribuindo para que a criança tenha voz atuante na sociedade na serie Fala Menino!.




Cedraz, um dos mais importantes quadrinhistas da Bahia, principalmente na área do quadrinho infantil, gênero que alcançou o auge das historietas cômicas nas séries Lúbio, Zé Bola, Joinha, Ana, Pipoca e a Turma do Xaxado. Durante muitos anos Cedraz vinha publicando seus trabalhos na Bahia, em outros estados e até fora do país. No mercado há mais de 40 anos, sempre batalhou, lutando para abrir espaço para os quadrinhos nacionais, mas com muita humildade. Nunca desistiu da luta, mesmo que batalhasse com dificuldades e enfrentando o todo poderoso syndicate norte americano.

Da simplicidade do traço à criatividade da narrativa, Xaxado retrata a vida rural com todas as suas lendas e mistérios. São aventuras de um garoto, neto de um famoso cangaceiro que vivia com o bando de Lampião, às voltas com problemas do dia a dia, junto com seus pais e amigos. A Turma do Xaxado reúne personagens tipicamente brasileiros e já recebeu diversos prêmios. Todo o trabalho tem um bom acabamento visual das personagens, com precisão no traço e originalidade temática. Através de um enredo fluente, falando de um cotidiano em que se misturam o real e o simbólico, o objetivo e o subjetivo, o autor constrói uma atmosfera da qual é difícil ficar alheio. Através de Xaxado penetramos no universo gráfico de Cedraz, o imaginário infantil cria asas e viaja na mente de todos nós.



O cartunista, publicitário e ambientalista Paulo Serra lançou em 1976 o personagem Mero para criticar e alertar sobre a devastação do meio ambiente. Também na década de 70 Dilson Midlej publicava as tiras de Niquita e o cartunista Caó se destacava com O Porco com Cauda de Pavão. Tem ainda nomes importantes como Tulio Carapia, Helcio Rogerio, Valmar Oliveira, Wilton Bernardo, Bruno Aziz entre outros.



Bacuri, de Carlos França, a garota Bartira de Péricles Calafange, a vida de um casal nos alagados, Nego & Nega, de Romilson Lopes, o grafismo de Cleber Barros, o traço criativo e experimental de Aps, Helson Ramos, o poema processo de Almandrade, e o experimentalismo gráfico de Carlos Ferraz, Jorge Lessa e Jorge Silva num delírio visual nunca visto até hoje na região, as pinturas influenciadas pelos quadrinhos de Juarez Paraíso, Floriano Teixeira, Carybé, Chico Liberato entre outros. Até Castro Alves já rabiscava caricatura, o cineasta Glauber Rocha também.


07 novembro 2019

HQ brasileira hoje está mais autoral com variedade de estilos (03)


Desenhista de HQ na Bahia é mesmo um forte. Pode ser em tempo de crise, mercado restrito, falta de editora, sempre surge uma publicação que contraria a lei do contra. Em 1989 Lage, Nildão, Rezende, Valtério lançaram a revista Pau de Sebo. Sobreviveu apenas cinco números. Separado do grupo, em 1990, Rezende lançou sozinho a Vilões, revista só de quadrinhos com linguagem underground. Foram cinco mil exemplares rodado e vendeu cerca de dois mil em bancas, fora as vendas em shows, eventos e universidades. Apesar do esforço, o número um foi filho único. Apesar de iniciativas como estas, que geraram outros fanzines de vida curta, os quadrinhistas não voltaram a se unir. Cada um botou sua arte nas costas e seguiu um caminho.




Em 1993 o experimentalismo marcou a revista Des HQuê (leia Desagaquê) que mesclou histórias em quadrinhos com o experimentalismo que caracterizou as estratégias dos fanzinistas. Editado por Carlos Mattos, traz desenhos de Carlos Mattos, Fabio Abreu, Marco Aurélio, entre outros. O artista plástico Parlim, da cidade de Juazeiro, transpôs a saga de Antônio Conselheiro e seus seguidores para o mundo dos quadrinhos. A publicação foi de 1994.




Sufocado pelo mercado editorial, os novos quadrinistas respiraram através dos fanzines. E faziam de tudo um pouco para colocar suas ideias `no ar´. Mário Sérgio Moura, o Afoba, vocalista de Lisérgia, lançou o zine O Morrete. Augusto Mattos, preparou o zine de ficção Fobos. Hector Salas lançou Facção junto com Bruno Aziz que já rabiscava desde criança a tirinha Dilemas Infantis. Em 1997 saiu a Crau que teve participação de alguns desenhistas paulistas.




Em 2005 a prefeitura de Paulo Afonso juntamente com a Secretaria de Educação e Cultura e Secretaria de Serviços Urbanos deram apoio cultural a uma obra que atravessou fronteiras. Trata-se de Sertão Vermelho 2, do roteirista Haroldo Magno e do desenhista Edvan Bezerra. Através da arte sequencial eles contam a saga de Lampião, o rei do cangaço pelo sertão da Bahia.




Outro álbum, Lucas da Vila de Sant´Anna da Feira (lançado em 2010), patrocinada pelo Banco do Nordeste/Ministério da Cultura através do Edital de Microprojetos Culturais, é fruto de anos de pesquisa do roteirista Marcos Franco e de entrevistas realizadas em conjunto com o também roteirista Marcelo Lima, com pesquisadores e líderes de associações de bairros feirenses, resgata a história do escravo rebelde Lucas da Feira. Lucas da Feira foi um negro que na primeira metade do século 19 se rebelou contra a escravidão e passou a atacar tropeiros a caminho da Feira do Gado em Feira de Santana. Os diálogos coloquiais e os desenhos de Hélcio Rogério ajudam a ambientar a região. A começar pela capa que foge do padrão com muita criatividade. Há um recorte do rosto da personagem, impactante. O uso do tom, excelente. Os desenhos registram todo os aspectos, ambientes da época. O traço de Hélcio é forte, personalístico e dinâmico.



Lima adaptou o livro O bicho chegou a Feira, do escritor e jornalista Muniz Sodré para os quadrinhos em uma revista homônima que está pronta desde 2017 e deve ser lançada em breve. A obra foi financiada por um edital do selo literário João Ubaldo Ribeiro, projeto da FGM.



Vencedores do edital para artes visuais, o roteirista Igor de Albuquerque e a arquiteta e artista visual Amine Barbuda vão lançar o livro -13, -38: amanhã de novo. Trata-se de um romance gráfico ambientado na Salvador de 2049, que perdeu seu nome e é conhecida pelas suas coordenadas geográficas (-13, -38 ). A história toda se desenrola em um dia da vida de Clarissa Huang, uma sino-baiana que trabalha com a poesia de Gregório de Mattos. Os balões de diálogos do livro foram desenhados por Túlio Carapiá.




Salvador em algum ponto do futuro também é cenário para a história de ficção em que androides herdam a terra, ponto de partida para o HQ que Bruno Marcello, o Bua, deve lançar ainda este ano, projeto financiado pelo edital setorial de artes visuais da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb). Marcello também é coautor, juntamente de Camilo Fróes e Moreno Pacheco, de Cidade-motor, uma outra história ambientada numa Salvador do futuro. Nesse livro, o futuro da capital baiana é pincelado como um aglomerado de passarelas, viadutos e centros comerciais. A obra foi lançada em 2016 pela RV Cultura e Arte, um dos raros lugares em Salvador que vendem HQs.



O baiano Hugo Canuto publicou a HQ Conto dos Orixás em 2017, apostou no crowdfunding, e a campanha deu tão certo que ele já está partindo para a terceira tiragem. O estado onde ele mais conseguiu vender foi São Paulo, depois a Bahia e o Rio de Janeiro. Mas houve compradores no exterior também. O quadrinista se diz um apaixonado por mitos e o livro baseia-se em lendas yorubás e na cultura das religiões africanas, com divindades como Iemanjá, Xangô e Oxóssi.


06 novembro 2019

HQ brasileira hoje está mais autoral com variedade de estilos (02)


Com vários álbuns publicados, o paulistano Marcelo D'Salete coloca o dedo na ferida de um problema premente no Brasil: o racismo. Sua extensa pesquisa sobre a cultura afro e a escravidão no Brasil culminou em Cumbe, HQ que além do Brasil e dos EUA foi publicada na França, Áustria, Itália e Portugal. Com essa obra conquistou o prestigiado prêmio Eisner de 2018 na categoria de melhor edição americana de materiais estrangeiros. Durante a infância e a adolescência Marcelo sentia falta de histórias que tratassem da história do negro no Brasil, da discriminação e do racismo. Foi nas letras de rap que Marcelo encontrou histórias que se aproximavam da realidade brasileira, como a repressão policial e o preconceito que ele vivenciou no centro de São Paulo em seu primeiro emprego como office boy.


Em 2001 ele passou a publicar quadrinhos nas revistas Quadreca e Front. Noite Luz, o primeiro álbum foi lançado em 2008 pela editora Via Lettera. Encruzilhada saiu inicialmente pela editora Leya em 2011, cinco anos mais tarde a Veneta republicou a HQ com a inclusão de Risco, uma história de 40 páginas que havia saído pela editora Cachalote em 2014. O Quilombo dos Palmares, um dos principais do período colonial brasileiro, é descortinado poeticamente no livro Angola Janga, lançado em 2017. Ele narra a história de personagens negros como Zumbi, Antônio Soares, Ganga Zumba e Ganga Zona.


Outro nome da nova geração de quadrinistas brasileiro, Pedro Cobiaco, filho do também quadrinista Fabio Cobiaco, vencedor de um Prêmio Jabuti. Pedro tem duas obras publicadas, ambas pela Editora Mino, Harmatã e Aventuras na Ilha do Tesouro. Também importante é o paraibano Shiko e suas aquarelas impressionam leitores de todos os tipos e todas as idades. Ele é autor, entre outras obras, de Piteco - Ingá (2013), da série Graphic MSP, do erótico Talvez seja mentira (2014) e do assustador Lavagem (2015), que retrata a paz abalada de um casal que vive num lugar afastado, ele envolvido com os porcos que cria, ela com a religião e os desejos reprimidos, quando recebem a visita de um homem misterioso e místico.

Tem ainda o paranaense Yuri Amaral com sua obra O Menino Que Não Sabia voar (2018) uma história que ajuda adultos e crianças que sabem interpretar histórias a exercer a tolerância à diversidade. Os autores Rafael Calça e Jefferson Costa usaram de muita sensibilidade na Graphic MSP – Jeremias: Pele (2018) neste gibi para falar de racismo, solidão do jovem negro.

O cearense Zé Wellington já é conhecido. Em 2014 ele produziu Quem Matou João Ninguém?, Em 2015 foi o vencedor do troféu HQ Mix na categoria Novo Talento Roteirista, por seu trabalho na graphic novel Steampunk Ladies – Vingança a Vapor.  Em 2018 ele voltou a publicar um novo álbum, pela mesma Editora Draco. Dessa vez a narrativa se passa em um futuro próximo e tem todas as marcações da estética cyberpunk, “baixas condições de vida, alta tecnologia”: Cangaço Overdrive.


Outros nomes importantes de quadrinistas brasileiros: Spacca, Bianca Pinheiro (desenho), Alcimar Frazão, João Pinheiro, Cidalti Jr, Jefferson Costa, Camilo Solano, Fefê Torquato, Cynthia B., Murilo Martins, Andre Ducci, Pedro Paulo Moreno, Wesley Rodrigues, José Aguiar, Felipe Parucci, Sirlanney, Rafael Coutinho, Lelis, Mika Takahashi, Andre Diniz, Lu Cafaggi, Pedro Vergani, Lulu Penne, Alexandre Lourenço e muitos outros espalhados por esse país.


05 novembro 2019

HQ brasileira hoje está mais autoral com variedade de estilos (01)


Nos últimos anos, a HQ nacional ficou mais autoral, com uma variedade de estilos. No final dos anos 90 o melhor caminho para entrar no ramo dos quadrinhos era investir em tirinhas para jornais e revistas. Os tempos mudaram. Os quadrinistas dessa geração já começam a desenhar e a escrever pensando em álbuns que possam ser vendidos nas livrarias. Em parte, a internet é grande responsável por essa nova tendência. Através dela é possível criar fanzines e se tornar conhecido antes mesmo de ter algum trabalho publicado. Os artistas estão experimentando o estilo livre, mais atento ao roteiro que somente ao virtuosismo do traço.

Após um período de estagnação econômica geral na década de 1990, uma série de fatores contribuiu para a retomada do quadrinho brasileiro no século atual. A difusão da internet como meio de divulgação, agenciamento, compra e venda contribuiu para formar carreiras de artistas, fundação de editoras e potencialização da crítica especializada. Os festivais de quadrinhos foram pontos de convergência importantes na fase recente do quadrinho brasileiro. O Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (bienal, desde 1997), a Bienal Internacional de Quadrinhos de Curitiba (desde 2011) e a Comic Con Experience (anual, desde 2014) são os principais eventos de encontro da cena nacional, com grande impulso de vendas, contato com influências estrangeiras e promoção dos quadrinhos. Entre os maiores beneficiados dos festivais estão os quadrinistas independentes, que planejam lançamentos e campanhas de financiamento coletivo conforme as datas de cada evento.


Temos o paulistano Danilo Beyruth, criador das HQs Necronauta, São Jorge, Bando de Dois entre outros, de alta voltagem gráfica, desenha agora para a Marvel. Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho são dois quadrinistas mineiros que começaram a trabalhar juntos no blog Quadrinhos Rasos, que adaptava letras de músicas em quadrinhos. A primeira HQ deles foi Achados e Perdidos, o primeiro quadrinho brasileiro financiado via crowdfunding, história de um menino que descobre um buraco negro em sua própria barriga. Seguiram Cosmonauta Cosmo, Bidu – Caminhos (para a série Graphic MSP) e Quiral.


Os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá foram premiados internacionalmente pela série Daytripper, Em 2015, lançaram uma adaptação em quadrinhos do romance Dois Irmãos, de Milton Hatoum, além de Casanova, publicada nos Estados Unidos pela Marvel Comics. Gabriel Bá também é autor da HQ The Umbrella Academy, roteirizada por Gerard Way e que virou série na tevê.

Já o jovem paulistano Felipe Nunes depois de lançar duas HQs independentes e com baixa tiragem, S.O.S. e Orome - Vol.1, o autor publicou Klaus (2014), pela Balão Editorial, seguida de Dodô. Nunes usa o universo infantil para abordar temas delicados como abandono, o inconformismo e o distanciamento familiar. Outro paulistano - Gustavo Duarte é um mestre dos quadrinhos sem falas. Seus dois primeiros trabalhos foram compilados em Có e Birds, lançado em 2014 pela Companhia das Letras. Pela mesma editora, ele também lançou Monstros (2012), Duarte também é autor de Chico Bento - Pavor Espaciar (2013), da coleção Graphic MSP. O trabalho rendeu a ele oportunidades no exterior, desenhou edições do grupo Guardiões da Galáxia, da Marvel Comics, e do personagem Bizarro, da DC Comics.


Donos de traços delicados e autores do sucesso Turma da Mônica - Laços (2013), da série Graphic MSP, os irmãos mineiros Lu e Vitor Cafaggi mantiveram a qualidade em seus trabalhos posteriores, a sequência Turma da Mônica - Lições (2015), e em seus trabalhos individuais: a série Valente, de Vitor, e Quando tudo começou (2015), de Lu.


Aclamado em países com mercado de quadrinhos tradicionalíssimos, como Espanha e França, o niteroiense Marcello Quintanilha é um dos principais nomes brasileiros no exterior. É autor do premido Tungstênio (2014), uma história sobre uma confusão envolvendo um ex-militar, um traficante, um policial e sua esposa. Também escreveu e desenhou Talco de Vidro (2015), assim como Almas Públicas e Sábado dos meus amores, coletâneas de histórias curtas do autor, publicadas pela Editora Conrad. Em janeiro de 2016, Quintanilha venceu um prêmio no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, principal premiação de quadrinhos na Europa

31 outubro 2019

As máscaras nas histórias em quadrinhos


A humanidade, ao longo da história utilizara máscara com os fins mais distintos, de acordo com a cultura e a religiosidade do povo que a adotava. Geralmente ela permitia o acesso a universos regidos pela imaginação ou a dimensões espirituais invisíveis. Os contadores de histórias assumiam muitas vezes o uso das máscaras para dar mais vida às suas narrativas. Elas desempenharam, em muitas civilizações, o papel espiritual, como instrumentos principais em rituais sagrados.


No mundo ocidental os antigos gregos foram pioneiros no uso das máscaras, adotadas nas festas dionisíacas, perpetradas em homenagem a Dionísio, divindade responsável pelo vinho e pelos rituais de fertilidade. Nessas ocasiões, todos dançavam, cantavam, se embriagavam e realizavam orgias, evocando a presença do deus através do emprego da máscara. A Grécia foi também o berço do Teatro, modalidade artística que recorria constantemente ao encantamento das máscaras, até mesmo como uma forma de evitar que os atores incorporassem os mortos. Atualmente ainda se vê este hábito perpetuado no Japão.

Esconder a identidade é talvez a função mais popular das máscaras. Bandidos sempre se mascararam usando meias, lenços ou o que estivesse à mão. Estranhamente, nas histórias em quadrinhos, os justiceiros e combatentes do crime também se mascaram, como se houvesse algo de reprovável em perseguir bandidos e malfeitores. O mais provável é que os super-heróis se mascarem apenas para proteger suas privacidades. Não se pode negar que o fazem com bastante imaginação. Basta que se analisem as máscaras do Batman, do Homem-Aranha e do Homem de Ferro, por exemplo.


Super-herói é fantasia. É sonho de poder e ação.  O Fantasma, criação de Lee Falk, foi o primeiro herói mascarado dos quadrinhos lançado em 1936 inaugurou uma categoria dentro do gênero das histórias de aventuras. O mistério que ronda o personagem parece ter sido um dos principais fatores do seu sucesso. Embora todos os  leitores sabiam que ele se chama Kit Walker, seu rosto jamais foi mostrado. Mesmo quando o Fantasma esconde a fantasia e se disfarça para  “percorrer as ruas da cidade como um homem qualquer”, sua aparência é ainda mais misteriosa, com chapéu, capote e óculos escuros. Um personagem meio fantástico, mascarado, dominando as selvas de Bengala com a ajuda dos pigmeus do experiente Guran, morando na caverna da Caveira, contando também com a solidariedade de Capeto, o cão-lobo, e de Herói, o cavalo. 

Depois do Fantasma vieram vários. E antes dele vários mascarados já existiam nas mais diversas formas narrativas e cumprindo os mais variados papéis. Mas no final do séc. XIX e início do séc. XX, a máscara tinha um papel bem claro: impedir a identificação de um criminoso pelos meios legais oficiais, meios estes que contavam com uma ferramenta que revolucionou o processo investigativo: a fotografia.

No herói e, posteriormente, no super-herói, a máscara tem uma função que remete à sua origem de “perturbador da lei” como presente na narrativa de viagem, verdadeiro “anti-herói”: o criminoso. Anti-herói porque na máscara do Fantasma também está presente a moralidade afiada do detetive que quer proteger o status quo e reestabelecer a ordem.


Três anos depois, em 1939 surge Batman o homem morcego, com desenhos de Bob Kane e história de Bill Finger na revista Detective Comics. Confessadamente inspirado por personagens dos livros de bolso, como The Shadow, e pelo vilão da versão cinematográfica de The Bat, romance policial de Mary Roberts Rinehart. Batman luta contra o mal a partir da sombra, de sua caverna, permanecendo no anonimato: Wayne temia os morcegos, assim como temia os criminosos, mas tornando-se seu próprio medo alcançou o “poder” que lhe faltava. Não há mais nada a temer, não há mais o que enfrentar, o medo era a principal barreira que poderia ser enfrentada e, ao se tornar a personificação dele, ele desaparece. Assim, Batman não só luta contra o mal, mas contra seus próprios medos.


Jack Cole cria para a National Periodical Publications, em 1941, o Homem Borracha (Plastic Man), homem alto, esguio, de cabelos pretos e óculos rayban, vestido numa malha inteiriça vermelha, com um cinturão de listras pretas e amarelas. Era o primeiro número da revista Police Comics que trazia este super herói tão estranho: começou sua carreira como criminoso. Fugindo da polícia, ele leva um banho de ácido e é abandonado à própria sorte pelos seus companheiros, mas ainda assim consegue escapar. E, quando é salvo por um monge, decide passar para o outro lado, assumindo a identidade do Homem de Borracha, o mais implausível de todos os super heróis mascarados.


V de Vingança foi a primeira tentativa de Alan Moore de produzir uma série continuada, ao longo de vários meses e anos – começou a ser publicada em 1982 na revista britânica Warrior e seguiu até 1983, para depois ser relançada pela DC Comics em seu selo adulto, Vertigo. Hoje, é relativamente fácil de ser encontrada nas livrarias brasileiras em uma edição encadernada lançada pela Panini, e ganhou adaptação cinematográfica em 2006, por James McTeigue. V de Vingança permanece como uma das maiores obras dos quadrinhos. O trabalho revelou ao mundo seus criadores, Alan Moore e David Lloyd. Trata-se de uma poderosa e aterradora história sobre perda de liberdade e cidadania em um mundo bem possível.

“V” é o homem da máscara branca, sempre sorridente, de capa preta e atitudes teatrais; inspirado visualmente no extremista Guy Fawkes, que tentou detonar o parlamento inglês em 1605. Mas V é, acima de tudo, a representação de uma filosofia, de um ideal político e social, da luta dos oprimidos, da busca pela liberdade e igualdade. V simboliza a nova ordem, o futuro melhor. Alan Moore construiu um personagem universal, um “símbolo”. Por isso não é difícil entender como que a máscara de V, hoje em dia, simboliza todo esse anseio por liberdade de uma nova geração, estando presente em quase todo tipo de protesto e manifestação ao redor do mundo. É como se a HQ tomasse vida própria e todo o conjunto de valores do personagem viessem à tona.