02 maio 2013

1968: Uma revolução do desejo (1)





Um dos movimentos raros e singulares da modernidade aconteceu em 1968 em que a política é novamente apropriada pelo cidadão em gestos e palavras, e as ruas de uma cidade voltam a pertencer aos seus habitantes. O ano de 1968 teimou em reproduzir uma série de eventos mais ou menos violentos, organizados e reprimidos, mais ou menos libertários em diferentes partes do mundo simultaneamente, sem nenhum centro coordenador.

O ano constelação, um dos momentos em que várias transformações simultâneas têm lugar no planeta. Em Paris, as manifestações confrontaram o capitalismo. Em Praga, o comunismo soviético, que era inquestionável pela esquerda internacional, passou a ter suas falhas expostas amplamente. O movimento dos estudantes franceses provocou no México uma reação ao massacre de Tlatebolco onde o Partido Revolucionário Institucional reprimiu duramente um protesto estudantil causando centenas de mortes. A sociedade e a intelectualidade envolveram-se amplamente, e o PRI teve de assumir que seu compromisso político já não era apenas a Revolução Mexicana, e, sim, com os valores democráticos.

Em todos esses eventos, o espaço público foi retomado com o exercício quase cotidiano da ação, da palavra, dos direitos políticos, da percepção de que existe uma dimensão de felicidade em abandonar certa opacidade triste que sacode nossas vidas privadas.

Em 1968 a tendência para desafiar o status quo em países ao redor do mundo era como um vírus que se espalhava como o espírito revolucionário que varreu a Europa após a Revolução Francesa em 1789. O desejo de construir um novo mundo e dar descarga nos velhos e estabelecidos modos de ver o mundo era infeccioso. Mas, infelizmente, teve vida curta. Muitos músicos chocaram o mundo com suas filosofias e alguns poucos (Hendrix, Morrison, Joplin) se tornaram mártires por levar a filosofia “faça a seu modo” ao extremo. Eles morreram antes de “envelhecer”.
 
A contracultura da época era vivenciar as emoções e mergulhar profundamente em si mesmo para descobrir o que existe em seu interior, sem culpa. Um bom exemplo é o da atriz Jane Fonda que sumariza o curso de mudança culturais da América ao longo de quatro décadas: ela foi libertária na metade dos anos 60, radical no fim da década, progressiva no anos 70, empreendedora nos 80 e grande dama corporativa nos 90.

A contracultura dizia respeito a viver a vida sem restrições e seu sentido foi vivenciado inteiramente
nos anos 1970. O período heroico de sexo, drogas e rock and roll em excesso estava destinado a se exaurir. A principal falha da contracultura foi nunca se apossar das instituições – mídia, partidos políticos, corporações – que poderia ter lhe permitido exercer alguma espécie de presença para combater a reação conservadora. Hoje em dia a contracultura é um espírito sem voz.

Na canção “Questão de Ordem”, Gilberto Gil mostra um momento crucial da história brasileira e dialogou com as preocupações que desencadearam o movimento estudantil de maio de 1968, na França. Em março daquele ano, o Brasil assistia à cena de violência das tropas de choque da polícia militar contra os protestos estudantis, que resultou na morte de um estudante secundarista. Essa morte elevou ainda mais os ânimos e os confrontos, três meses depois, em protesto, estudantes, artistas e intelectuais realizaram a Passeata dos Cem Mil. A canção emerge como testemunho desse momento da história brasileira e da vida desse artista:




Questão de ordem (Gilberto Gil)
Você vai, eu fico

Você fica, eu vou
Daqui por diante
Fica decidido
Quem ficar, vigia
Quem sair, demora
Quem sair, demora
Quanto for preciso
Em nome do amor
Você vai, eu fico
Você fica, eu vou
Se eu ficar em casa
Fico preparando
Palavras de ordem
Para os companheiros
Que esperam nas ruas
Pelo mundo inteiro
Em nome do amor
Você vai, eu fico
Você fica, eu vou
Por uma questão de ordem
Por uma questão de desordem
Se eu sair, demoro
Não mais que o bastante
Pra falar com todos
Pra deixar as ordens
Pra deixar as ordens
Que eu sou comandante
Em nome do amor
Você vai, eu fico
Você fica, eu vou
Os que estão comigo
Muitos são distantes
Se eu sair agora
Pode haver demora
Demora tão grande
Que eu nunca mais volte
Em nome do amor


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Canções da música popular que ouço o tempo todo (Vol.13)

Eu sou neguinha, Cassia Eller (Ao Vivo)
Jardim de Allah, Rita Lee (Santa Rita de Sampa)
Para todos, Chico Buarque (Para Todos)
Guadarte, Roberto Mendes (Minha Historia)
Nos lençóis desse reggae, Zelia Duncan (Zelia Duncan)
Tô voltando, Simne (Pedaços)
Dandalunde, Margareth Menezes (Margareth Menezes)
J.America Brasil, Ilê Aiyê (Canto Negro)
Carimbador maluco, Raul Seixas (Raul Seixas)
Puluxia das 7 portas, Xangai (Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranias de Elomar) 
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