
Lucas da
Feira foi um escravo rebelde que se notabilizou como líder de um
afamado bando de
salteadores da Bahia provincial na primeira metade do século XIX. A
trajetória de vida de Lucas da Feira é delineada na obra, embasada
por uma acurada pesquisa em fontes documentais, memória oral,
romances, cordéis e no estudo da cultura material dos locais onde o
escravo, possivelmente, teria percorrido.
O álbum
é um convite a se embrenhar pelas caatingas do agreste baiano
escravista na região de Feira de Santana, localizada numa
encruzilhada de caminhos e sede de uma vigorosa feira que alimentava
as demandas do interior da Província e da capital no século XIX. A
expressão 'Terra de Lucas' é uma expressão comumente atribuída à
Feira de Santana, normalmente carregada de uma conotação
pejorativa, cujo simbolismo está correlacionado à rebeldia escrava
personificada em Lucas Evangelista, o 'Lucas da Feira', que viveu e
atormentou aquela região da Província da Bahia na primeira metade
do século XIX.
A
narrativa mostra o menino Lucas, escravo rebelde que foge da
humilhação do cativeiro, até a construção do homem, bandido
temido pelo poder local. Nesses recortes narrativos do passado o
leitor toma conhecimento das façanhas da personagem como resistência
negra, sua força e personalidade até o mito, a prisão e o
enforcamento do herói. Toda a construção da personagem foi baseada
em elementos do imaginário popular, histórias da oralidade e
versões forjadas pela historia oficial. Essa última pode edificar
ou dignificar seus heróis e demonizar e silenciar os personagens do
ovo. O olhar sobe Lucas nessa HQ é pela resistência no auge da
escravidão no Brasil, ou seja, mesmo acorrentado, silenciado,
invisibilizado, o povo não permaneceu passivo.
A busca
pela liberdade permeia toda a obra. E nossa historiografia não
costuma mostra essa faceta. O mundo impessoal dos negócios da
escravidão onde as pessoas eram submetidas a transações comerciais
reduzidas a meros instrumentos de trabalho, é cheio de ações
complexas e delicadas. O narrador pode evidenciar o lado de uma
ideologia de concessão senhorial ou apresentar o quotidiano do lado
escravo e a sua luta por justiça e o direito à liberdade.
Nesse
aspecto, esses escravos eram homens e mulheres com ideias próprias
que lutaram e conseguiram pequenos ou grandes vitorias. Interessa
aqui, portanto, compreender a partir da trajetória de Lucas como ele
construiu estratégias para a conquista da liberdade na região de
Feira de Santana, na segunda metade do século XIX. Esta investigação
buscou pensar o problema num contexto mais amplo ao buscar observar
graus de todos os sentimentos e nuances da personalidade de Lucas,
inserindo-as ma micropolítica tecida no dia a dia a partir da
relação senhor/escravizado. Numa sociedade onde uma classe
dominante sempre é mais visível, vale resgatar e legitimar as lutas
desses escravos invisíveis.
A
historia oficial ofuscou a figuras de negros em nossa história. Uma
prova disso é a guerreira de Itaparica, Maria Felipa. Os autores
procuraram dar mais credibilidade ao trabalho apresentando as
variedades do português popular e expressões africanas na cultura
oral brasileira. No final do álbum, o apêndice com palavras
utilizadas pelos personagens e um glossário, relação de termos e
expressões regionais ou pouco comuns, com o sentido em que são
usados nessa obra. Um belo trabalho que deve ser lido e relido por
todos.
A dupla
Marcos Franco e Helcio Rogério estão de parabéns. Há closes
espetaculares, enquadramentos cinematográficos, realismo histórico
na narrativa quanto na ilustração. Um álbum que deveria estar em
todas as nossas escolas para o conhecimento de todos – quem foi
Lucas da Feira? Por que nossas historiografia oficial esconde esses
fatos? A conquista de sua liberdade pela altivez dos seus atos fere a
história oficial? O que está por traz disso tudo? Precisamos
espalhar para todos o significado do percusso desse personagem e e
muitos outros que estão no subsolo da história. É preciso resgatar
todos eles a visibilidade dos dias atuais para a reflexão.
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2 comentários:
Belo trabalho. Parabéns ao Marcos e ao Hélcio.
Silvio Ribeiro
Essa dupla é imbatível nos quadrinhos baianos. Longa vida!
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