23 março 2012

Personagens com identidade brasileira nos quadrinhos (6)

O mineiro Henrique de Souza Filho, o Henfil em plena treva da ditadura dos anos 70, que mais dialogou com as massas, transformando-se num popstar do desenho no País. Seus personagens, habitantes da caatinga seca e árida, passaram a apresentar a contradição do sul maravilha e o mundo bravo do sertão, principalmente mostrando nos personagens Zeferino, Graúna e o bode Francisco de Orelana. Na galeria de personagens criados pela genialidade de Henfil, os Fradins têm um lugar especial. Eles foram inspirados em dois freis dominicanos mineiros. O Cumprido é o religioso carola e careta, covarde, mas também lírico, romântico e sonhador. Já Baixim é o Henfil pós-freis dominicanos, com uma nova visão de Igreja, que conhece a hipocrisia do mundo e a combate através da ironia e da agressão.


Os Fradins têm ainda o mérito de introduzir em páginas impressas expressões como putsgrilla, tutaméia, cacilda, além do gesto simbólico e sua onomatopeia, o top top, que caíram no gosto dos leitores. Acompanhado os dois Fradins, o Preto que Ri, um frei negro, que ri de sua própria desgraça, e o Tamanduá que Chupa Cérebros. O Cabôco estreou no Pasquim em 1972 e de todos os personagens de Henfil foi o que causou mais polêmica e inimizades ao autor. Dono de um cemitério atípico, Cabôco só enterrava pessoas que estavam vivas. Para personalidades públicas que, no entendimento de Henfil, haviam colaborado de alguma forma com a ditadura, caia no cemitério dos mortos-vivas. E o Cabôco tinha como cúmplice o Tamanduá, que sugava cérebros de suas vítimas para conhecer os pensamentos mais escondidos.


Com o negro Orelhão, criado nas páginas de O Dia, Henfil desenha a crítica social, com um humor direto, falando claramente aos pobres da cidade, sobre seus problemas mais imediatos. Também para esse público surgiram no Jornal dos

Spots seus personagens de futebol: Urubu (torcida do Flamengo), Bacalhau (torcida do Vasco, portugueses), de Arroz (torcida do Fluminense, de pessoas ricas), Cri-Cri (torcida do Botafogo, por conta de sua chatice), Gato Pingado (torcida do América, muito pequena). E para os mais intelectualizados Ubaldo, o Paranoico, um personagem criado com a anistia de 1970, e que sempre se recusou a admitir que os tempos estariam mudando.

The Supermãe nasceu no Jornal do Brasil em março em 1969 e, em março de 1970 mudou-se para as páginas da revista Claudia. Em 1981 Ziraldo reuniu quase uma centena de suas melhores historinhas em um álbum para contar este longo tempo de convivência da Dona Clotildes com seu amadíssimo folho Carlinhos. E elas são uma prova de que o humor é implacável, mesmo quando fala de carinho, de amor e de ternura. Ou da dificuldade que o ser humano tem de se entender com coisas tão simples. Ainda em 1969, Fortuna cria no Pasquim a série em quadrinhos Madame e seu Bicho Muito Louco. Fernando Ikoma criou para a editora Edrel, Satã, a Alma Penada.


A presença massiva da produção do quadrinho norte-americano no mercado de países periféricos como o Brasil criou barreiras que impediram o desenvolvimento de uma produção local. Como forma de combater esta invasão, foram utilizadas duas estratégias pelos produtores nacionais: num primeiro momento foram criados personagens que buscavam um discurso de semelhança como modelo original; em seguida foi utilizada a paródia como recurso narrativo com o objetivo de ridicularizar o discurso épico do super-herói americano.


Os quadrinhos de super-heróis tiveram vários personagens brasileiros lançados em revista nos anos de 1960: Capitão 7, Capitão Estrela, Jet Jackson, Capitão Radar, Vigilante RodoviárioEscorpião e Raio Negro. No estilo policial foi criado O Anjo, desenhado por Flávio Colin que originou o filme O Escorpião Escarlate. No faroeste apareceu a tira do gaúcho Fidêncio, de Júlio Shimamoto, além dos quadrinistas de horror, que trabalharam nas revistas da Editora La Selva. Com o golpe militar houve uma nova onda de moralismo que bateu de frente com os quadrinhos. Em compensação, esse movimento inspirou publicações jornalísticas cheias de charges como O Pasquim que, embora perseguido pela censura, criticavam a ditadura incansavelmente. A Editora Edrel fundada por Minami Keizi em 1967, foi pioneira no estilo mangá no país, isso quando o estilo ainda não havia se tornado febre, artistas como o próprio Keizi e Claudio Seto desenhavam no estilo, na época o estilo era considerado estranho e por isso, os artistas tiveram que segue padrões norte-americanos e/ou europeu. (sucesso também em seriado de tevê), Minami introduziu o mangá no Ocidente vinte anos antes dos americanos.

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