
Vamos começar pelos olhos. Os olhos continuam sendo os grandes monopolizadores de nossos sentidos. Cerca de 70% dos receptores dos sentidos do corpo humano estão localizados nos olhos, e é principalmente por meio da visão do mundo que o podemos julgar e entender. Nossa linguagem está baseada nas imagens. Sem a luz e sem a água a vida existiria? A luz afeta nossos estados de espírito, acelera os hormônios, detona nosso ritmo. Durante as estações em que prevalece a escuridão nas latitudes do norte, aumentam os índices de suicídios, a insanidade surge em vários lares e o alcoolismo torna-se uma constante. Uma característica de nossa espécie é a habilidade de adaptarmo-nos ao ambiente e também de mudá-lo para servir-nos melhor. Quando queremos iluminar o mundo em torno de nós, construímos lâmpadas. Nossas pupilas aumentam naturalmente quando estamos entusiasmados ou excitados.
Há muitas maneiras de ver. O esforço para enxergar projeta uma visão diferente de tudo e de todos. Às vezes as sombras desenham imagens que distorcem a verdade das coisas e das pessoas. E também a visão direta da claridade, sem acostumar os olhos, cegava. Para enxergar bem, é preciso olhar profundamente e isso faz descobrir novas formas e significados e até mesmo outras visões. Os olhos que tudo vêem, não vêm a si mesmos, têm que se adaptar ao desejo de quem olha.
Já os odores detonam suavemente nossas memórias. Basta percebemos um aroma, e as lembranças explodem todas imediatamente. O olfato é o sentido mudo, o que não tem palavras. Vemos somente quando existe luz suficiente, degustamos o paladar quando colocamos coisas na boca, sentimos apenas quando tocamos alguém ou alguma coisa, ouvimos somente quando os sons são audíveis. Mas cheiramos o tempo inteiro, sempre que respiramos. Se cobrirmos os olhos, deixaremos de ver, se taparmos as orelhas, deixaremos de ouvir, mas se bloquearmos o nariz para não sentir mais cheiros, morremos. “Quem dominasse os odores dominaria oi coração das pessoas”, escreveu Patrick Suskind no romance O Perfume.
O olfato está intimamente ligado às emoções, à memória, além de influenciar seu bem-estar, sua imaginação e personalidade. O olfato tem ligação com nosso subconsciente. Os nervos olfativos se ligam com a gente do cérebro que regula a atividade sensório-motora, o sistema límbico. Esta região cerebral é responsável pelos impulsos primitivos de sexo, fome e sede e afeta diretamente o comportamento emocional.
Os cheiros compõem um alfabeto e linguagem particular que têm o poder de provocar reações específicas no corpo e na psique. Assim atingem os mais profundos cantinhos da alma, muitas vezes desconhecidos. Muitos artistas procuram sensações olfativas para estimular a criatividade. Segundo Jean Jacques Rousseau o sentido do olfato é a própria imaginação. O aroma de um pedaço de bolo e uma xícara de chá inspiraram Marcel Proust a descrever, em uma das maiores obras primas da literatura, a recordação infantil de comer bolinhos chamados “madeleines”. O olfato é um sentido muitas vezes menosprezado pela cultura excessivamente visual da atualidade. Os cheiros envolvem-nos, giram ao nosso redor, entram em nossos corpos, emanam de nós. Vivemos em constante banho de odores. O olfato é o mais direto de nossos sentidos. Cada um de nós possui suas próprias memórias aromáticas. O olfato foi o primeiro de nossos sentidos a se desenvolver. Pensamos porque cheiramos.
A cegueira não é empecilho para que o herói do gibi como Demolidor faça justiça. Quem é deveras cego? Pergunta José Saramago (Cia das Letras) no “Ensaio sobre a Cegueira”. Já João Vicente Ganzarolli de Oliveira (Revan) explicita como o belo é concebido pelo cego em “Do Essencial Invisível”. Em “O Perfume, História de um Assassino” (Record), Patrick Suskind busca a fórmula de um perfume ideal, num mundo descrito por odores, enquanto que o poeta Chales Baudelaire em vários poemas do “Flores do Mal”, traz a sinestesia, trabalha muito com o olfato. Isso sem falar na obra maior de Marcel Proust, “Em Buscas do Tempo Perdido”, no qual o odor de uma madeleine no chá traz à tona recordações de infância, inspirou pesquisadores ingleses a investigar a relação olfato-memória, que foi batizada de “proustian phenomena”. O terceiro e último desses artigos sobre sentidos vamos conhecer o tato, o paladar e a audição.
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