
Enquanto a mulher teria de ser destituída de seu erotismo, o homem era perfeitamente reconhecida sua potencialidade desejante ao lado de sua efetividade reprodutiva. Deslocando-se livremente entre os espaços público e privado, isto é, entre os espaços social e familiar, ao homem era permitido o duplo exercício erótico e reprodutivo. Assim, o sacrossanto espaço para a reprodução da espécie era a família, e o espaço social era o lugar efetivo para a existência do erotismo.
Assim, a grande expansão da antiga prática da prostituição, que ocorreu ao longo do século XIX, seria a contrapartida social para que pudesse definir o exercício do erotismo masculino. Nesse espaço, os homens poderiam satisfazer suas demandas eróticas, impossibilitadas parcialmente no campo da família. Contudo, a prostituição foi muito bem regulada pelo Estado, por instrumentos da nascente medicina social, para que não colocasse em risco a demanda de reprodução na família. Desta forma, a prostituição teve territórios muito bem circunscritos do espaço urbano – apenas em certos quarteirões e bairros da cidade a prostituição era permitida. Por isso mesmo, tais lugares passaram a ser amaldiçoados e proibidos no imaginário coletivo, representando sempre a desordem, a presença do mal e a ameaça de morte
Assim, a prostituição era objeto de vigilância exercida pelo Estado, por intermédio da polícia médica e da higiene social. O desejo e a reprodução eram bem regulados entre os espaços público e privado, ou seja, entre o espaço social ampliado e a família. Conseqüentemente, o erotismo poderia ser usufruído pelos homens no circuito semiclandestino da prostituição, enquanto o amor, em contrapartida, se identificava com a ordem da família, sempre voltada para a reprodução.
As mulheres que fugiam e se desviavam do reto e sagrado caminho da maternidade eram ativamente culpabilizadas, moralmente diminuídas em seu valor e até mesmo criminalizadas pela assunção de outras figuras sociais. Essas mulheres desviantes eram bem definidas nas suas configurações sociais e morais. Existia uma verdadeira galeria de “mulheres perigosas” que foram bem delineadas pelo discurso da medicina de então. A produção médica da época descreveu minuciosamente quatro modalidades de desvio moral da feminilidade: a prostituição, caracterizada pela assunção positiva do erotismo como forma de vida e a recusa da existência familiar e maternal; a ninfomania, marcada pelo erotismo excessivo, que transbordava numa espécie de desejo insaciável presente nessas mulheres; a infanticida, aquela que mata de bom grado os filhos recém-nascidos, para se livrar do peso da maternidade e manter-se livre para aventuras eróticas; a mulher histérica seria aquela que gostaria de ser como a prostituta, a ninfomaníaca e a infanticida, mas não suportaria passar da imaginação para ação, isto é, deslocar-se do registro da fantasia para o do ato. Presa no conflito psíquico entre erotismo/maternidade, não conseguiria jamais se deslocar do registro do imaginário para o do real. Com isso, a mulher histérica adoeceria psiquicamente, presa ao seu conflito moral, imobilizada por não exercer todos os seus anseios e desejos.
Essas diferentes modalidades de produção de subjetividade advindas da estratégia desse poder, pela oposição que acabou de promover entre erotismo e maternidade no ser da mulher estabeleceu, no século XIX, a prática médica sistemática de extração do clitóris, nas mulheres mais indóceis aos imperativos da maternidade e que ansiavam também pelos doces deleites do erotismo. Com isso, a extração cirúrgica do clitóris poderia colocar essas mulheres no caminho virtuoso da maternidade, já que não seriam mais tomadas de assalto por suas demandas eróticas. A maternidade acabaria por se impor por si mesma pela despossessão do desejo feminino figurado pelo clitóris.
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