11 outubro 2019

Terror e faroeste misturados em Três Buracos


A obra é densa, envolve terror, questões psicológicas em um clima de faroeste. O local é uma cidade do interior da Paraíba chamada Três Buracos. Três coisas a mantém viva: o garimpo, o puteiro e o cemitério. Esse é o foco da mais nova obra do desenhista Shiko lançado recentemente pela Editora Mino: Três Buracos




E é nessa terra perdida que um delegado tenta manter as leis e a sanidade geral punindo severamente quem pega o que não é seu, especialmente aquilo que está destinado ao patrão. Um dia o delegado cai nas graças do desejo quando encontra uma das maiores turmalinas, porém ele se nega a entregar ao patrão e a esconde para nunca ser encontrada. Esta atitude o sentencia a morte. A cidade parece viver uma maldição pelo afastamento do único capaz de ditar as regras e sua filha Tânia, é a única que permanece no garimpo durante os anos.




“Quando o pai da Tânia é morto, o garimpo acaba, o irmão dela vai embora e vira um ladrão. Ela não consegue sair de Três Buracos por ser assombrada pelo espírito do pai. É uma história de botija, um mito sertanejo de tesouro escondido. O tesouro tá enterrado, escondido, e a alma da pessoa que escondeu não consegue partir, fica presa na terra até que alguém desenterre esse tesouro. Aí essa filha é assombrada pelo espírito do pai e não consegue abandonar esse lugar”, revela Shiko.



O artista Shiko transparece em cada página com críticas da vida nordestina e do garimpo misturadas com um faroeste tupiniquim onde a lei do mais forte sobrevive. E isso não apenas fisicamente, mas mentalmente também. Aqui, nada caminha a exatidão e felicidade, sobra apenas a realidade dura e dolorida.




Em certos momentos a ausência de textos fortalece a construção dos traços. O preto e branco é um definitivo para o clima do vazio e da perda de esperança dos personagens presos em seus buracos perdidos.



A narrativa é um faroeste com enforcamento, garimpo e assalto a banco. No sertão nordestino é comum o assalto a caixas eletrônicos e essa obra fica entre o faroeste e o terror com um ambiente contemporâneo. Os enquadramentos horizontais lembram a fotografia do cinema italiano de faroeste.



Realidade e  sonho se misturam para contar essa história na qual as almas estão sempre entre a salvação e o Inferno. Três Buracos é contemplada ainda pelo forró de Luiz Gonzaga, com Buraco de Tatu, e a cantiga medieval de Pedro Calderón de la Barca, com trecho da peça A Vida é Sonho, para embalar as almas – vivas ou mortas – que buscam a salvação para fugir do inferno.



O quadrinista Shiko tem obras importantes como a adaptação de O Quinze e as graphic novels O Azul Indiferente do Céu, Talvez seja mentira, Lavagem e Piteco – Ingá. Seus temas recorrentes giram em torno de fantasia, erotismo, folclore, solidão e cultura popular. Em 2014 ganhou o 26º Troféu HQ Mix de melhor desenhista nacional e melhor publicação de aventura/terror/ficção. Também ganhou o 30º Prêmio Angelo Agostini como melhor desenhista, dois dos mais importantes prêmios de quadrinhos nacional. Três Buracos comprova a qualidade excepcional em produzir boas histórias alinhadas a uma arte inesquecível. Seu traço é excepcional e a riqueza que dá para os personagens nos transporta para cada cena.




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