03 outubro 2011

Fachadas de Salvador a partir da década de 70:a arte dirigida às coletividades(6)

No começo da Afonso Celso tinha a frase do personagem deixando escapar um desejo da classe media soteropolitana: “Faustino tem um terreno na ilha”. Um terreno que muitas vezes é utópico. O diálogo prossegue criticando a demora do ferry boat, o custo da passagem e a educação dos passageiros. Além do terreno, Faustino também possuía dois objetos de consumo: uma pasta 007 e uma capanga, onde guarda uma calculadora. A pasta 007 surgiu como símbolo do executivo bem sucedido. Ele foi sendo aperfeiçoado e alguns importavam dos EUA. A pasta passou a ser usada pelos contínuos das empresas em suas constantes idas e vindas aos bancos, cartórios e outros locais de grande movimentação comercial. Assim, a pasta 007 que era chic ficou cafona, fora de moda. Veio a capanga, e de repente gente mais simples passou a usá-la, indiscriminadamente, inclusive muitas delas com material inferior. E o drama diário (na época) do ser humano da classe média que ao retornar do supermercado a cada semana encontrava os preços muitos altos e seu salário estacionado durante meses.


Além do humor de Faustino, Miguel Cordeiro também fazia um trabalho gráfico e/ou plástico, desenhos coloridos representando o universo urbano, também pintado nas ruas. “Resolvi colocar esses trabalhos plásticos na rua talvez pelas mesmas causas que me levaram a pôr Faustino. Se você vai a uma galeria, os espaços são muito limitados, tanto em termos físicos como de ação: você tem que fazer parte de um círculo de amigos influentes. Quem é desconhecido enfrenta um bloqueio muito grande. Em vez de ficar com o trabalho estocado em casa, decidi colocá-lo na rua”.


Ele explicou a escolha de temas urbanos em seus desenhos: “Sempre tive uma vivência urbana. A gente vai para a rua e tudo o que esmaga a cidade, as neuroses urbanas, as diferenças sociais. Seria impossível fazer algo fora do que me toca. Tudo que se na cidade pode ser uma fonte de inspiração. É uma maneira até nova de se expressar por meio de frases ou pinturas. Você joga na rua, sem nenhum aparato atrás. Sem burocracia para licenças. Usa o espaço como se divulga uma peça de teatro ou um show. É uma coisa imediata. Não me considero um artista convencional. Sou autodidata. Muitos artistas dizem: ´Não vou botar meu trabalho na rua`. Não tenho esse grilo. Posso usar a rua como uma galeria. quem ache os temas de meus desenhos muito violentos. Mas é a falta de costume de ver um trabalho assim. A realidade é mais violenta que um simples trabalho na parede. E o que você hoje em dia nas artes plásticas? Tudo muito bem comportado. Coisas limpa, sem contradições. O meu trabalho é muito contraditório. A pintura do suicídio, por exemplo, é menos violenta do que você sair na rua e tomar um tiro saem saber por que. uma tendência forte, nas artes plásticas baianas, de explorar o misticismo, o afro. Virou uma padronização. Eu não sou contra, mas meu trabalho não tem isso. Seria insincero da minha parte pintar a Ladeira do Pelourinho ou um orixá”.


Miguel esteve na época (1984) em Nova Iorque, onde pintou algumas paredes. Ele comenta: “Em Nova Iorque, como em São Paulo, o uso dos grafites é até maior, mas aqui, em Salvador, é muito consistente. Tem uma importância local, mas o artista do grafite pode divulgar seu trabalho em qualquer lugarno Japão ou no Morro de São Paulo. O artista convencional precisa de um estúdio, de uma certa concentração. Eu não. Existe um boom do grafite em Nova Iorque, Paris, Londres e Berlim. É uma linguagem que não tem o grilo, o limite das barreiras. Uma maneira das pessoas jovens botarem pra fora toda a crise. Em Nova Iorque existe galeria de vanguarda de grafites como em Paris. Em São Paulo também o espaço está sendo mais aberto. Na mesma época, os grafites começaram a surgir no mundo todo, mas muita gente entrou por curtição. Muitos pararam, mas outros surgiram. Na época áurea do grafite, viajei para São Paulo e vi que aqui, em Salvador, o grafite tinha características próprias: o Min, o Zezin, o Baldeação.. Um movimento mais personalizado. No Rio e São Paulo o trabalho era mais anônimo, enquanto aqui se batizavam os personagens. No Rio era aquelas frases estranhas: `Celacanto`, ´Lafemur´, e em São Paulo, `Beatles Forever...`. Aqui tinha uma força poética. No Sul não tem uma linha característica. Mas tempos atrás vi em São Paulo uma exposição de grafiteiros. Pessoas que fazem mais tempo e desenvolveram uma linguagem forte. Aqui sobrou o Faustino”.

Ele explica seu personagem: “Faustino não é uma pessoa específica, mas é típico daquele grupo de pessoas que é facilmente manipulável. Quando falo que ele ouve Julio Iglesias, por exemplo, é porque acho Julio Iglesias a maior armação. E Faustino entra na jogada, ele acredita. Mas eu não sei julgar, meu trabalho é criar. Não sei dizer porque ele usa uma calculadora na capanga´. Miguel faz questão de falar sobre sua ligação com os grupos de rock: “Sou amigo do pessoal do Camisa de Vênus. Na primeira apresentação do trabalho do grupo, teve uma mostra de meus trabalhos na Casa dos Festejos. O público de um grupo de rock me interessa mais que o de um vernissage, comendo salgadinhos e discutindo babaquices. O rock sempre fez parte de mim, desde garoto, com sua contestação e irreverência. Os artistas convencionais têm um preconceito muito grande em relação ao rock, considerado estrangeiro, alienante. Acho que em 1984, pensar assim é meio perdido. No rock, as pessoas botam pra fora tudo que as bloqueiam. Acho que o rock está voltando a uma fase de vitalidade. O rock teve três fases: a coisa pura dos anos 50 e 60, com os Beatles e Rolling Stones; a apatia dos anos 70, e a partir de 80 volta a vigor dos anos 50”, comenta Miguel, que acha possível uma analogia entre o grafite e as letras de rock: “São duas coisas ligadas. Têm o lance da irreverência e da crítica corrosiva, a coisa urbana. E vários grupos de rock usam a linguagem do grafite: curta e objetiva. Não é como outros tipos de músicas que contornam, em vez de ir direto ao assunto. Chamo de rock o que vai direto ao ponto. É como no grafite: muita gente fez poesia formal, que acho que não funciona. O grafite é uma coisa telegráfica, que, num simples passar de olhos, você capta a mensagem”.


Miguel contou que surgiu uma firma de publicidade interessada em comprar a marca Faustino: “Acho que não tem sentido mostrar Faustino dizendo: `Faustino compra uma enceradeira Eletrolux na casa tal`. Iria assassinar friamente o personagem, que critica, sobretudo, o consumo. Seria fazer o oposto do que se mostra com o personagem. O Faustino teve um resultado porque manteve uma coerência esse tempo todo sobre seu universo: é inesgotável. Existe um sistema que tem o Faustino. Que,m deve acabar com ele são as pessoas que transam o poder”.


O artista escolhe os lugares para as pichações, de acordo coma estratégia do muro”. “Muitas vezes você passa num lugar e o muro é despercebido. Na Avenida Manoel Dias, por exemplo, existem vários muros que são frontais, estratégicos, facilmente visíveis. Quando comecei, escolhia muros que as pessoas não viam. Depois você vai apurando a vista”. A polícia não persegue tanto os grafiteiros. Sei que é uma coisa ilegal, mas também então seriam ilegais as pichações políticas e de promoção de shows. São problemas que são pequenos demais para uma cidade que cresce muito. Problema banal. O grafite é apenas uma espinha no rosto da cidade. outros problemas grandes que se constituem como câncer: a mortalidade infantil, a violência urbana. aconteceu de eu estar pichando e passar um carro da polícia. Eu justifiqueiisso faz parte do meu trabalho, não quebrando nem destruindo nada. Se tiverem de me incriminar têm de incriminar também grande parte da população, como os blocos de Carnaval que espalha cartazes pela cidade inteira”. Entre as últimas pichações de Miguel Cordeiro estavam as frases: “Faustino faz piquenique em motel”, “Faustino quitou o carnê do bloco”, “Faustino cheira o fio dental”, “Faustino vendeu o ouro do dente”, além de alguns cartazes com pintura.

---------------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929). Na Galeria do Livro, em outubro: Oficinas do Mês das Crianças.

0 Comentários:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home