31 maio 2011

Balada de um homem solitário (1)

Há dois tipos de artistas: os que saem com sua câmara para nos informar sobre a realidade – injustiças, opressões, fracassos sociais – e os que se deixam fascinar pelo interior das pessoas. Ambos são necessários. Pertenço ao segundo grupo” (Ingmar Bergman)



Prefácio


A narrativa é um retrospecto, feita pelo personagem principal, Augusto, contada na primeira pessoa. Pretendemos relatar uma história que sucedeu ao narrador/personagem. Augusto é o ponto de vista do qual o leitor vê os acontecimentos, isto é, a história apresentada na maneira por que Augusto a experimentou, interpreta e expõe. Não vemos n em ouvimos os fatos.

O romance, se é assim que podemos chamar, é uma crônica sobre a Bahia. A história é simples: um garoto fala de sua região, lugar onde nasceu e vive intensamente a sua ligação com a terra. Tem diversos colegas e um amigo do peito, fiel companheiro de suas andanças que, embora de melhor condição social, não impede de ser o melhor amigo. Os dois afinem no desejo de liberdade total. Surgem namoradas ao longo da história, mas logo desaparecem.

O verão e o inverno são período de infância e adolescência; a primavera e o outono são descobertas do amor, do amadurecimento. Não é autobiográfico, mas traz retalhos de encontros que tive outrora, que penso a respeito das pessoas e de mim mesmo. O final é inesperado, silencioso, talvez mudo.

A história aprofunda casos de vida cotidiana, fazendo observação sobre o comportamento dos indivíduos e o valor de cada criatura humana. O gosto da solidão, medo do mundo e uma necessidade muito grande de se proteger, são características de meus personagens. Sendo um sujeito isolado como sou, até certo ponto, meus trabalhos refletem isso. Meu aprendizado literário foi através de leitura de diversos autores. Os livros são importantes para mim, pois me disciplinam cada vez mais e, através da literatura, minha vida encontrou, de certa forma, sentido. Confesso-me publicamente, através de meus livros, promover meu próprio caminho, mas acontece que escrevo para mim mesmo. Meu grande vício não é a bebida nem o fumo ou mesmo o jogo, meu vício é escrever histórias.


Gutemberg Cruz

Fevereiro, 75


O retorno


É dezembro – e um garoto se recompõe no ar. Em seu peito vibra, mais que o pulsar do coração, a presença dos mistérios. Um garoto num estranho mundo....Olha intensamente, tentando lembrar-se de alguém e, para surpresa, o outro que está diante de mim era eu próprio....minha infância. Fiquei confuso novamente, como é difícil falar de mim e desse mundo!

Começava a tomar conhecimento do regresso àquelas zonas desconhecidas na sua totalidade, sepultadas durante anos, inertes. E aquilo tomava forma, crescia e os personagens surgiam a todo instante, formando um todo dos períodos adormecidos. A música que tocava ajudava ou atrapalhava, não sabia explicar, só sei que era o profeta da desorganização musical transmitindo seu som aleatório. Era John Cage que lançava seus ruídos desconcertantes sintetizados em aparelhos eletrônicos. A música soava cada vez mais alto, até que se chegou ao silêncio....a fita do gravador havia terminado.

O silencio pairava no ambiente, e sempre fora assim a minha vida, silenciosa com o vôo dos pássaros à procura de maior espaço. Mas sempre faltava-me coragem para tudo. Uma vez, há anos, tentei pó encontro com a verdade. A única verdade, mas o momento foi dominado pelo medo, companheiro inseparável, barreira intransponível. Agora voltava de novo, quem sabe, para desistir uma segunda vez.

Vejo-me quando menino, exterior e interior fundindo-se, dúvida pairando...Acendo a luz, abro a gaveta da cômoda, vejo algumas fotos de amigos que tive outrora....”Durante a minha vida sempre estive a espera de alguma coisa. Agora encontrei...você. Foram as palavras que vieram no telegrama de ontem...De quem será? Deve ser de Ana...aposto como já está na cidade. Pego uns papéis e começo a rabiscar...o retorno de minha vida.

No instante em que escrevo, procuro esquecer todas as misérias deste mundo, mas é impossível, não adianta fechar os olhos, pois a miséria entra em mim, circula em minhas veias e mistura-se em meu sangue. Meu coração pulsa aceleradamente, sinto-me tonto, confuso. Uma música recompõem-se no ar, olho vagamente e lembro-me de que deixei o gravador ligado, aumento o som e ouço os barulhentos rocks das músicas pop...é a única maneira de fugir, por alguns instantes de tudo isso...

Mas, cedo ou tarde, o som irá terminar, o vazio voltará a encher a sala, e nesse instante veria toda a minha infância desfilar diante de mim, pessoas amadas, pessoas amigas e também pessoas falsas. Mundo triste, solitário. Mundo desgovernado, desorientado. Mundo ambicionado, conquistado, mundo imundo!.

A mente busca o passado distante, recordações do lugar onde nasci, no ano qualquer da década de 50. Ano que começava a viver, vi e vendo. Vim ao mundo e fiquei desapontado, vi a luz e sorri, vi a noite e fiquei melancólico, vi as pessoas e fiquei triste. Gente mascarada, gente que não sabia sorrir nem chorar, gente que representava.



São 17 capítulos dessa história escrita em 1975
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