23 janeiro 2007

As curvas da arte e dos quadris

A pálida virgem quase à morte dos românticos, a destruidora de corações dos realistas e a louca histérica dos médicos fazem parte da mitologia da feminilidade no século 19. Vivendo em mundos quase que completamente separados, homens e mulheres ainda guardavam os eternos segredos que fascinavam o sexo oposto. A obsessão que o século da rainha Vitória tinha pelas mulheres era real e não se restringia apenas aos livros e quadros, mas se espalhava pelas ruas em cartazes de propaganda, peças de teatro popular e crônicas de jornal.

No mundo desses homens que viviam trancados nos gabinetes das fábricas, não era permitida a entrada da mulher, que, em casa, ostentava jóias e bebês, ou, no bordel, tomava champanhe quente. E essa separação teve um preço: para todo lado que eles olhavam viam mulheres. Estátuas nuas perfilavam pelas ruas e museus, os nomes femininos estavam presentes na representação da Justiça, da Ciência, da Eletricidade, da Indústria, da Ferrovia, e também a luxúria, a castidade, a verdade e a cultura.

O inconsciente coletivo de 1900 confundia a curva da arte com a curva dos quadris. E todas as penas descreviam suas heroínas fortes, da musa de Charles Baudelaire à serenidade burguesa prestes a explodir de Madame de Renal, de Stendhal. Não é à toa que um médico vienense, Sigmund Freud, começou a ver sérios problemas de natureza sexual nas mentes de seus pacientes. Assim, a mulher povoou as páginas da literatura em fins do século 19 como castradora, vampira, fatal. Cleópatra, Helena, Dalila e muitas outras mulheres que se destacaram na história, a preferida como tema para os artistas era Salomé. A assassina bíblica mereceu atenção especial por parte de pintores e escritores. A dança fatal de Salomé inspirou versos encantadores fatais de Charles Baudelaire, Émile Zola e Oscar Wilde. Ela era a mulher fatal e ingênua, ao mesmo tempo virgem e prostituta. Impossível resistir a tanto apelo e, frágeis, os homens se entregavam aos caprichos.

Foi através da literatura folhetinesca e do cinema que a mulher fatal (irresistível) tomou impulso. Ela é forte, dominadora e habilmente induz o homem a fazer o que deseja. A Bíblia é pródiga em mulheres fatais. Exemplos? Dalila que encarna a traição ao vender-se aos inimigos de Sansão. Ela descobriu no leito que os cabelos de Sansão guardam sua potência e, após o amor ela lhe corta a cabeleira. Salomé com sua dança sensual pede a cabeça do profeta João Baptista. No império romano, Messalina convenceu o marido, imperador Cláudio a ordenar o assassinado do senador Apio Silano. A rainha do Egito, Cleópatra conquistou Júlio César e Marco Antônio.

Na literatura elas foram mais que sedutoras. Carmen por exemplo surgiu como personagem de uma novela de Prosper Mérimée, em 1852 e depois se tornou ópera, por obra de Bizet. Mais tarde foi adaptada para o cinema e balé. Essa cigana seduz o cabo José, faz dele um bandido e depois o trai com um toureiro. Haja chifre!. Wladimir Nabokov criou a ninfeta Lolita, a jovem atraente para a desgraça dos mais velhos. Tem ainda as noites intermináveis de Sherazade, a escolhida do rei para lhe entreter contando histórias. O rei ouve todas as noites e, se não for de seu agrado, faz com que a narradora morra. Sherazade torna os contos atraentes e encadeados para que o rei desista da idéia de sacrificá-la no dia seguinte. Assim ela narrava a trama das mil e uma noites carregadas de aventuras e surpresas. Quem lembra da exótica dançarina Mata Hari (olho da madrugada), a cortesã mais bem paga da Europa que virou espiã? Era fatal!

As mulheres nas peças de Shakespeare são possessivas. Em Macbeth, por exemplo, Lady Macbeth domina e reina induzindo o frágil esposo aos piores crimes. Em O Mercador de Veneza a mulher travestida de advogado é a mais hábil, inteligente e perfeita defensora de Antônio e a cruel acusadora de Shylock. Titus sofre na mão da perversa Tamora. Lear vai aprender que não se divide herança em vida para filhas que parecem amorosas e nem se deserda a que o ama, Cordélia.

Décadas de transformações sociais, históricas e econômicas possibilitaram a mulher ocupar novos lugares na cena social, ter acesso ao mercado de trabalho, apropriar-se de seu corpo e de sua sexualidade, aproximando-o de seu desejo. O acesso das mulheres à vida universitária, fruto de muitas lutas dos movimentos feministas, faz com que hoje, embora minoritárias, as mulheres políticas, cientistas, sejam respeitadas. Nas áreas das letras e das artes, as mulheres sempre estiveram presentes, embora discriminadas. Tocar piano ou pintar era como bordar: algo para as mulheres se entreterem ou entreter a família. O direito ao reconhecimento público e à profissionalização foi conquistado com muita luta. Apesar dos avanços, as mulheres ainda são minorias e exceção.










































Um comentário:

Cristiana Soares disse...

Caro Gutemberg, é uma honra receber uma visita de alguém com esse nome e esse currículo! E ainda ouvir elogios gostosos! Acabo de aportar por aqui. Vou dar uma passeio para conhecer melhor. Já adianto um grande abraço pra ti.