11 dezembro 2019

Sesquicentenário dos quadrinhos brasileiros (11)


ANOS 80



Oitenta foi a década dos anseios e das interpretações e pode ser definida por uma palavra: pós-moderno. Signo do vale-tudo da década, esse jargão funcionou como um abre-te sésamo para explicar qualquer coisa. E para caracterizar as inovações e o estilo de vida desses anos de paródia e marketing do passado reciclado. Compact discs, videoclip, videocassete, antena parabólica, fax, computador pessoal, TV a cabo, controle remoto.



Livres, agressivas, as mulheres irromperam, nos primórdios da década, determinadas a garantir seu espaço. Sônia Braga, Xuxa, Luma de Oliveira e Luiza Brunet se destacaram aqui e lá fora. Um inimigo microscópio, capaz de matar o homem em menos de um ano, mobilizou médicos de todo o mundo: o HIV, vírus da Aids. E não há qualquer droga capaz de destruí-lo ou impedir sua multiplicação em níveis não letais.




Além da década da democracia, os anos 80 foram também a década do meio ambiente – da expansão planetária da consciência ecológica. Começando a perder o medo de ser negra, a Bahia atravessou a década no passo do Ilê Ayê e do Olodum, que ocuparam as ruas num rito de contagiante liberdade. Nos quadrinhos, os vilões ganharam projeção. Muitos desenhistas fixaram a loucura da década sob o signo das artes plásticas nas HQs. As graphic novels (edições de luxo das novelas gráficas) invadiram as livrarias, aumentando a média etária dos leitores. Ninguém mais diz que quadrinhos é coisa de criança.



Na esteira do êxito de Rita Lee, o rock nacional ganha força e qualidade inéditas e consagra-se como o mais recente movimento a mudar o panorama da música brasileira.




Ao longo da década de 1980, cartunistas como Angeli, Glauco e Laerte imaginaram tipos que fazem sátira ao comportamento da classe média apática, hipócrita e consumista. As tramas dos quadrinhos de humor publicados por esses artistas nas revistas da Circo Editorial se passam no ambiente urbano. A cidade de São Paulo é o lugar em que surgem personagens como o consumista e inseguro Geraldão (do cartunista Glauco), os anárquicos Piratas do Tietê (de Laerte), a além da boêmia Rê Bordosa e do punk Bob Cuspe, concebidos por Angeli. Os personagens masculinos representam as mudanças enfrentadas pelo homem: o machista inveterado e crepuscular, os hippies envelhecidos, o militante de esquerda que não se adapta aos novos tempos marcados pela democracia ou o hedonista que dança diante do espelho para apreciar a própria imagem. As mulheres, se já não são mais donas de casa submissas, enfrentam a solidão da cidade e das relações frias e de curta duração. O espaço típico onde esses personagens vivem seus dramas é o condomínio, microcosmo que oferece uma falsa sensação de segurança. Há, também, aqueles que se revoltam ou vivem à margem dessa sociedade, como os piratas que navegam no principal rio de São Paulo, o poluído Tietê, ou o punk que habita os esgotos da metrópole e percorre as ruas sujas, entulhadas com os detritos que já foram mercadorias. Seu grito de protesto ecoa pelas paredes de concreto que revestem os edifícios-montanhas que abrigam os trogloditas modernos, mas, limitado pelos muros



Analista de Bagé: Personagem mais multimídia do escritor Luis Fernando Verissimo. Começou como crônica, teve longa vida no teatro e várias histórias produzidas em quadrinhos a partir de 1983.



Condomínio – Série criada por Laerte com os habitantes do Condomínio (o Síndico, o Zelador) para o jornal O Estado de S.Paulo na década de 1980, e depois nas revistas Piratas do Tietê e Striptiras. O Condomínio foi o primeiro núcleo de tiras que ele fez. Teve essa idéia quando foi morar num prédio pela primeira vez, mais ou menos em 1973; lá conheceu um síndico e um zelador muito parecidos com o Síndico e o Zelador das tiras.




Dora Mulata – Quadrinho criado pelo cartunista baiano Lage (1946-2006) na revista Viverbahia a partir de 1981. A sensual Dora era uma nativa da ilha de Itaparica, na Bahia. Ela se relaciona com um gringo, um francês e um nativo. Triângulo amoroso onde ela tinha preferência pelo francês. Foi publicada também na revista Axé Bahia. Sua maneira objetiva de apresentar, com a simplicidade de seu traço, os vários problemas diferentes ao ser humano, descrevendo com capacidade, firmeza os muitos quadros públicos. O olhar “malandro” das suas personagens, desta vez apresenta o empoderamento da mulher que começa a se emancipar do machismo da época.



Dr. Baixada - Criado por Luscar (Luiz Carlos dos Santos)  em 1980, na época do Mão Branca e do Esquadrão da Morte que atuava na Baixada Fluminense. Capa preta, chapéu e arma na mão, esse é o Dr. Baixada, sempre atuando — ou no assaltante ou na vítima. A ordem é apagar, fazer o serviço, sem perguntas e sem que ele próprio saiba a quem serve.




Mara Tara - Personagem humorística criada por Angeli para a revista Chiclete com Banana, n.07, novembro de 1986. Era a primeira história da pacata cientista que se transforma na pervertida Mara Tara quando acuada. Mara Tara é uma cientista super recatada e dedicada a sua profissão, no qual ela estava fazendo sua pesquisa sobre O Sexo das Bactérias, pois ela insistia que "As bactérias têm sexo, como todos nós...". Mas, em consequência de suas pesquisas, a doutora Mara contraiu o vírus Ninfus Maniacus e em momentos de alta tensão, seu corpo recebe grandes mutações, tirando-lhe a consciência e dando a ela formas volumosas. Sim, Mara Tara transforma-se em uma tarada e obcecada por sexo, momento em que ela não têm mais consciência de si e ataca todos os homens, que morrem de medo dela. Suas armas são nada mais que chicotes, meia arrastão, botas de cano longo e um lindo espartilho preto. Pudica, quando fica excitada, transfigura-se em uma mulher fatal, obcecada por sexo e que ataca os homens de uma maneira sádica e devoradora, até matá-los. Ela é uma metáfora exacerbada de mulheres independente da década de 1980, que intimida os membros do sexo masculino. Basicamente, a personagem faz uma crítica ao universo urbano, que mostra o homem contemporâneo super liberal, porém, no fundo, totalmente conservador.



Radical Chic - Personagem de cabelo vermelho e curtinho criada pelo cartunista Miguel Paiva. Irônica e divertida sátira sobre uma típica mulher urbana de trinta anos (que se auto denomina, "sou um pupurri de emoções"). Seus quadrinhos, originalmente publicados no suplemento dominical do Jornal do Brasil, apresentam como temas principais a feminilidade, o sexo, o papel das mulheres na sociedade e as diferenças entre elas e os homens na maneira de reagir às situações cotidianas.




Rê Bordosa – O cartunista Angeli cria nas páginas do Folha de S.Paulo, a partir de 04 de abril de 1984, a junkie Rê Bordosa que logo depois vira musa da porralouquice nacional. Ela era a pin up dos anos 80, a mulher esponja. Em dezembro de 1987 o criador mata a personagem. Eleita em 1984 a “Pin up do Final do Século” pela revista Around, a personagem idealizada por Angeli representa a desilusão sentida pela geração de mulheres que se emancipou da família e dos homens, mas não conseguiu estabilidade emocional. Rê Bordosa casou com Juvenal, o garçom do bar onde costumava embriagar-se, mas acabou morrendo de tédio provocado pelo casamento.



Menino Maluquinho Sem dúvida nenhuma o maior sucesso de Ziraldo, O Menino Maluquinho surgiu em livro no ano de 1980. Além de livros, revista, peça de teatro e filmes para cinema, ganhou também sua versão em tiras diárias em 1989 realizada pelo estúdio Zappin e foi publicado em vários jornais Brasil afora. Em 1991 a revista saiu quinzenalmente pela Abril com o mesmo nome do personagem. Desta forma o personagem nasceu de um livro de sucesso.  A história do menino inquieto, que tinha o olho maior que a barriga e fogo no rabo, publicado pela Editora Melhoramentos, virou peça de teatro, filmes, videogame, HQ, bonecos, ópera infantil, parque temático e até minissérie de TV.








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