22 janeiro 2019

Território da alma humana (2)


A aparente quietude das HQs esconde a dinamicidade e a riqueza expressiva que saltam de suas páginas coloridas e transforma esse meio de comunicação impresso em um dos produtos culturais mais ágeis dessa indústria do espírito. E essa indústria organiza a cultura de massa para orientar o indivíduo durante o lazer, convertendo este mesmo lazer no tecido da vida pessoal do indivíduo.



O divertimento, inoculado no cerne do lazer, transforma-se ao maior atrativo dos meios de comunicação de massa. As mesmas imagens e palavras, aparentemente inócuas, que encantam crianças e divertem adultos, escondem por trás de suas cores e traços mensagens tremendamente eficazes que nos fazem falar, escrever, amar, vestir e nos portar como os nossos protagonistas preferidos das histórias em quadrinhos.

 


Protegido pela tinta e pelo papel, os personagens das HQs materializam representações que são constantemente retomadas, reatualizadas e normatizadas sob a forma de um simples exercício de leitura. E desse jogo lúdico entre palavra e imagem (aparentemente desvinculado do mundo real), retoma, recria e fundamenta modelos e saberes.



Assim, os quadrinhos convertem-se em possibilidades de naturalização de valores, modelos e paradigmas que são decalcados na memória coletiva sob a forma de representações, que são absorvidas como normas e verdades. Sobre a produção dessas verdades, Michel Foucault é claro quando diz que (...) vivemos em uma sociedade que em grande parte marcha “ao compasso da verdade” – ou seja, que produz e faz circular discursos que funcionam como verdade, que passam por tal e que detêm, por esse motivo, poderes específicos. A produção de discursos “verdadeiros” (e que, além disso, mudam incessantemente) é um dos problemas fundamentais do Ocidente. (FOUCAULT, 1979, p. 231).



Os quadrinhos e demais produções do imaginário reatualizam e revitalizam as narrativas místicas, matrizes de paradigmas seculares, assumindo o lugar dos contos de fadas ou das antigas epopeias heroicas. Esses produtos reintroduzem antigos heróis, seres semidivinos, suas obras, dores, amores e ódios, assim como as ideias de bem e mal em nosso cotidiano, instaurando modelos e criando funções.

 


Em 1924 Harold Gray começa a publicar sua tira Little Orphan Annie, a pequena órfã conhecida por causa dos olhos redondos desenhados sem pupilas, cabelos encaracolados, sempre protegida pelo milionário da indústria bélica “Daddy” Warbucks. Annie vivia sempre acompanhada de um cachorrinho chamado Sandy e representou talvez o máximo de conservadorismo que as histórias em quadrinhos puderam um dia refletir. Sustentada por um magnata da indústria de guerra que enfrentava greves mandando assassinar os seus cabeças (Daddy Warbucks), a menina personificava o apoio à plutocracia como modelo ideal de sociedade.



Nunca cresceu, permanecendo por mais de cinquenta anos congelada no tempo, vagando pelas regiões inóspitas dos Estados Unidos, sendo raptada por bandoleiros - normalmente ligados a etnias diversas ou a classes pouco privilegiadas -, e esperando que seu papai retornasse de uma de suas intermináveis viagens para salvá-la dos perigos, com os quais parecia ter contrato de exclusividade. Talvez por personificar a mentalidade tacanha e retrógrada que dominava (e domina ainda) boa parte da população de seu país, foi um dos grandes sucessos dos quadrinhos, sendo desenhada por seu autor até a morte deste, em 1968, e depois tendo sua continuação por outras mãos. Virou até musical na Broadway e produção cinematográfica. A série provocou críticas severas em sua época, teóricos da área são unânimes em suas afirmações:



“A órfã das pupilas sem luz, sempre perseguida e sempre triunfante, é o pretexto para celebrar as pretensões, os privilégios, os abusos de certa porção da sociedade americana: a necessidade de ganhar muito, o gosto pelas obras de caridade, ou seja, o dinheiro, como fim e como meio”. (BUONO, 2007, p. 7). “As histórias eram parábolas, contos moralistas, cheios de alegorias caracterizações” (MOYA, 1993, p. 55)



“Gray, que sempre desenhou Aninha com olhos brancos, foi acentuando na sua série suas convicções políticas de direita extremada, colocando muitas vezes como ´vilões´ sindicalistas, grevistas ou operários simpatizantes do comunismo (GOIDA, 1990, p. 25). “As tiras de Little Orphan Annie são um exemplo da introdução da ideologia de direita nos comics: paternalismo, glorificação do mundo patronal, etc”. (GUBERN , 1979, p. 90). Apesar disso, Aninha, pela forma sentimental e esperançosa com que enfrentava perigos e situações difíceis, conquistou leitores no mundo inteiro.




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