

“Triste Bahia, oh, quão dessemelhante.../estás e estou do nosso antigo estado/pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado/rico te vejo eu, já tu a mim abundante/Triste Bahia, oh, quão dessemelhante/a ti tocou-te a máquina mercante/que em tua larga barra tem entrado/a mim já foi-me trocando e tem trocado/tanto negócio e tanto negociante”.
Era assim que o mordaz Gregório via a localidade: dessemelhante, diferente, desigual, injusta nas oportunidades que oferece aos seus filhos. Mudou alguma coisa de lá pra cá?
O nosso quotidiano oferece tantas sugestões eróticas, como nossa mania de falar tocando nas pessoas (e haja toque), o riso fácil (há há há), as roupas sumárias (graças ao verão o ano inteiro como professa a propaganda), nossa despreocupada habilidade de pontuar as frases com palavrões.... O estrangeiro vem triste, buscando algo perdido e, aí no caso, o que está perdido é a sua sexualidade espontânea. Em luto, tem que rir do efeito cômico do gesto obsceno e esquece sua dor. Ensinamos ao estrangeiro triste a nossa técnica de apaziguamento da dor. Terminamos por acreditar que não temos dor, nós mesmo e, como bons fingidores, fazemos o nosso ouvido acreditar que nós não sofremos repressão e que estamos acima do bem e do mal (haja melhoral).
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Quando Salvador foi fundada em 1549 a idéia principal do projeto português era torná-la não apenas uma cidade fortaleza, mas o mais importante símbolo do império português nas Américas. Por conta da sua história sociopolítica, a Bahia se transformou num território multifacetado.
A combinação de lentidão, tranquilidade e a sensação de acolhimento e segurança provocada pela natureza local foi um dos principais motivos da escolha deste sítio como sede da capital colonial. Assim Salvador passou a ser porta de passagem, local de troca, de efetivação de contatos e relações, ponto para onde convergia boa parte da produção regional, que daí escoava para outras cidades, estados e países.
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Para muitos o sincretismo foi um recurso que os negros encontraram para salvaguardar suas tradições. A beleza da cidade, do imenso mar azul, das igrejas e sobrados reduziram o estrangeiro. O povo com seus costumes e festas foi outro fator decisivo para eles se estabeleceram aqui. “O tesouro perdido foi encontrado” e “se o mundo é dos que sonham, toda lenda é pura verdade”.
Os hábitos alimentares afro-baianos, o modo de celebrar, a habilidade para a dança e a festa como construtora de identidade, conquistando uma participação expressiva seduziu a todos. Se a motivação é fundamentalmente religiosa pouco importa, basta seguir o cortejo de Santa Bárbara, atravessar a de Nossa Senhora da Conceição da Praia, Boa Viagem, Bom Jesus dos Navegantes, Lapinha, Bonfim, Ribeira, Rio Vermelho, Itapuã, Pituba até cair no som contagiante do trio elétrico ou no afoxé do Carnaval. É Festa que não acaba mais.
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E as práticas lúdicas continuam a movimentar a população numa esquina e ruelas da cidade, seja Pelourinho (Olodum), Candeal (Timbalada) ou Curuzu (Ilê Aiyê). O bom humor, disposição para celebrar com entusiasmo a vida, é uma forma de pensar e encarar os problemas da vida, o jeito baiano de ser. Mas falta ainda a este povo (faixa pobre que é formada pela maior parte da população) acesso à educação, ao mercado formal de trabalho, a condições mínimas de moradia e assistência em saúde. Talvez o maior ensinamento dos baianos é encarar a vida, na capacidade de não ter pressa, de não se aborrecer à toa e de conseguir ser alegre apesar de pobreza.
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