06 abril 2018

VALTÉRIO: Desenha, esculpe, pinta e borda


Ele é um homem de riscos e de traços. Desenha desde criança, quando copiava os heróis de quadrinhos da época. Em 1973 sofreu um acidente automobilístico que lhe deixou imobilizado por longos períodos. Sobrava tempo. Daí começou a ler muito e desenhar. No Rio de Janeiro, onde se encontrava em tratamento, publicou n´O Pasquim e em alguns jornais e revistas por aí a fora. No início de 1989, com Lage e Setúbal, começou a fazer caricaturas ao vivo pelas praias de Salvador, incentivados por Cárcamo. Foram muitas caricaturas nessas quatro décadas, exercícios, esforços mentais e físicos, caricaturando no traço e em cerâmica inúmeras caras conhecidas ou desconhecidas. As esculturas em barro são feitas com toques de muito bom humor. O vendedor ambulante, o gari, o garoto, a moça, a amiga, o pintor, o escritor, o bêbado e todos os personagens da vida transmitem o olhar atento e humaníssimo desse caricaturista e cartunista, simbolizando “a apreensão do instante”  como escreveu o poeta Antonio Bandeira. Em sua galeria desfila tipos cheios de vida e de intenções. Em 2006 ele lançou pela sua Galeria do Humor o livro Caricaturas ao Vivo com 132 páginas da mais fina elegância do fazer artístico, quando criador e criaturas parecem que estão olho no olho, em troca das mais sinceras. Valtério foi um dos criadores da revista Pau de Sebo. Nessa entrevista ele revela que além de desenhar, esculpir em barro, cuida de uma reserva de mata atlântica onde conserta diversos objetos, pinta e borda.


Com quantos anos você começou a trabalhar com cartum e caricatura?

VS - Comecei a trabalhar com cartum e caricatura aos 23 anos de idade. Quando era menino desenhava os heróis de quadrinhos, Mandrake, Zorro, Capitão Marvel, Super Homem, Fantasma... Na adolescência trabalhava em Banco e farreava, não tinha tempo pra mais nada.

Como você realiza seu trabalho na caricatura no papel?

VS - Realizo meu trabalho à mão, sem auxílio de computador, coisa que não consigo dominar, nem quero mais.


E na caricatura no barro? É verdade que você é o único na Bahia que faz esse tipo de trabalho?

VS - A caricatura no barro está meio de lado; ocupa muito espaço e a galeria está repleta. Não sou o único a fazer esse tipo de trabalho na Bahia. Existem outros. Em Lençóis tem o Dinho Sales, mas como não há mercado, ele vende quase a preço de banana. Mas é um bom ceramista.


Fale sobre sua relação com a arte, seu trajeto acadêmico ou sua carreira profissional

VS - Sempre fui voltado para a arte da caricatura, embora aprecie e acompanhe praticamente toda forma de arte, claro. Sou autodidata. Aprendi técnicas num curso de desenho publicitário, no Rio, com Guidacci.


Você morou, por um tempo, fora da Bahia, depois, fora do Brasil. Fale sobre essa experiência

VS - Nunca saí do Brasil, nem pretendo. Morei 3 anos no Rio de Janeiro, de 1973 a 1976, mais ou menos, foi quando tive oportunidade de publicar  os primeiros trabalhos.

Quais os desenhistas que você considera os mais importantes de sua geração?

VS - São muitos os desenhistas que considero importantes. Vou citar só três para não ser injusto com os outros que também admiro: Ziraldo,  Henfil e Laerte.


Você acha que uma composição ser considerada caricatura tem que ser exagerada e grotesca?

VS - Caricatura, pra mim, é exagero: se o cabra tem o narigão, passa por cima da boca; se tem a orelha pequena, arranca-se a orelha.. A caricatura não precisa ser grotesca ( a menos que se trata de um político grotesco, desses aí...)

Qual foi o seu primeiro trabalho publicado?

VS - Meu primeiro trabalho foi publicado n’O PASQUIM, em 17-12-74. Trata do péssimo atendimento médico nos hospitais públicos: “Os pais chegam com o bebê doente, desmaiado, nos braços e o médico friamente pergunta:  -Trouxe  as guias?”


É possível para um artista sobreviver trabalhando apenas com artes graficas?

VS - Estou fora do mercado, mas acho que é possível, sim, sobreviver trabalhando apenas com artes gráficas. Pra comer queijo tem que ser bom. Eu como meu feijão com arroz graças à aposentadoria do Banco do Brasil, onde trabalhei.

Fale um pouco da origem da Galeria do Humor e suas atividades

VS - A Galeria de Humor foi criada em 1987  com a parceria do saudoso Lage. O  objetivo principal era reagrupar os desenhistas de humo da Bahia. Realizamos cursos de cerâmica e de desenho, várias exposições e havia sempre mostra de trabalhos dos baianos. Agora a Galeria funciona com hora marcada pra visita, mas ninguém visita. O povo perdeu a graça...


Quais são suas principais influências?

VS - Minha principal influência foi de Ziraldo. Cheguei a copiar o livro “Jeremias o Bom” (de cabo a rabo) para começar a fazer cartuns.
Qual a sua opinião sobre o mercado das artes gráficas hoje? Há realmente uma crise?

Você utiliza a Internet como ferramenta de trabalho?

VS - Utilizo a internet somente pra ver as bobagens do face-book e pra postar umas coisinhas...


Quais os projetos que você está trabalhando atualmente e quais são seus planos para o futuro?

VS - No momento faço caricaturas ao vivo pelos bares e em eventos como: aniversários, casamentos, congressos... Além disso, cuido de uma reserva de mata atlântica pros lados de Itacimirim, conserto cadeira, assento porta,  janela, conserto torneira, pinto e bordo.  Meu plano para o futuro é não morrer, mas Deus é que sabe...

1 Comentários:

At 1:09 PM, Anonymous Antonio Raimundo said...

O meu plano também é esse. Espero lograr êxito e, quem sabe, um dia visitar a Doce Vida.

 

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