13 abril 2018

Um cartunista refinado no jogo de ideias: Caó


Cartunista, animador e músico Caó Cruz Alves iniciou profissionalmente como cartunista nos anos 70. Começa a publicar em 1977 a tira O Porco com Cauda de Pavão. No ano seguinte reúne em coletânea. Realizou exposições individuais e coletivas, publicou na revista Pau de Sebo e editou durante muito tempo o fanzine La Tanajura. Seus desenhos têm participado de exposições e festivais pelo Brasil e exterior. Começou a carreira de animação com o filme Coisinha, que venceu o prêmio do Juri Popular no Festival 5 Minutos em 97, no ano seguinte venceu o primeiro prêmio do festival com a animação “Ouviram Alonzanfan” e ainda produziu “Voto Roberfino”  e “Dançando na Europa”.

Formou-se através de oficinas de cinema e animação no Brasil. Durante oito na os morou em Paris onde aprimorou seus conhecimentos no campo da animação e quadrinhos na escola vinculada ao National Board of Canadá. Como cartunista seus trabalhos têm sido publicados em livros, jornais, revistas de circulação regional, nacional e internacional e em exposições individuais e coletivas. Ganhou vários prêmios com seus filmes de animações em diversos festivais no Brasil, em como tidas exibições de seus filmes no exterior. Em seu trabalho, Caó explora os efeitos estéticos do social. Seu humor é refinado, usando e abusando da sutileza de jogos de ideias. Vamos conhecer a sua trajetoria e o que pensa a respeito das artes gráficas:


Para começar, conte como entrou no mundo dos quadrinhos, como leitor e profissional? Quais os sentimentos pessoais e decisões profissionais que te levaram a essa escolha?

CAÓ - Desenho desde pequeno influenciado por minha mãe que era costureira e prendada nas artes. Ajudava a fazer os moldes em papel de embrulho, então adquiri habilidades em usar o lápis, a régua e a tesoura. Nas sobras do papel pintava e bordava, ou seja desenhava. Na escola continuava desenhando, mas nunca me considerei um bom desenhista apesar das professoras e colegas elogiarem bastante. Algo era diferente, apesar dos elogios as pessoas riam. Eu desconfiava que o motivo era por ser mal feito. No final dos anos 1960 meus irmãos me apresentaram o jornal o Pasquim, nesse momento caiu a ficha e a partir daí comecei a considerar que meu desenho era de cartunista. A pergunta era: como me tornar um profissional? No ginásio meus desenhos chamou atenção do professor de francês que me contratou para reproduzir as ilustrações das páginas do livro em cartaz/painel para ilustrar as aulas de francês. Através desses desenhos, comecei a ser conhecido em outras turmas do colégio e ganhar dinheiro. Desde cedo aprendi a gostar de ler e devorar tudo que aparecia em casa, desde os quadrinhos, às revistas de fotonovela, Manchete, Cruzeiro, Fatos e Fotos, os cordéis e  os Almanaques anuais distribuídos nas farmácias. Na adolescência, entedi que para ser desenhista e criador era uma obrigação ler todos os livros publicados no planeta. Como isso era impossível optei pelos clássicos, então ia para as bibliotecas e devorava Tostoy, Dostoiévski, Proust, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, entre outros da literatura nacional e universal. A prática da leitura é um fator importante para a formação de cartunista.

Há algum desenhista, roteirista ou qualquer outro artista que lhe inspira ou inspirou?

CC - Sim vários: Luis Sá, Millor Fernandes, Jaguar, Ziraldo, Lage, Siné, Wolinski, Spielberg, Walt Disney,  Claire Bretecher, Avoine, Sampé, Reiser, B. KLIBAN, Quino, Charles Schuz, entre outros.


 Qual a conduta que um profissional de quadrinhos deva seguir?

CC - Após as influências, respeitar o seu próprio estilo.

Uma das qualidades que mais chama a atenção no seu trabalho é o seu traço cartunistico, humor e lirismo poético. Como você desenvolveu sua técnica de desenho? Você cursou alguma escola de desenho ou é autodidata mesmo?


CC - Autodidata mesmo.

Um de seus primeiros trabalhos foi o Porco com cauda de pavão. Fale um pouco dele

CC - O Porco com Cauda de Pavão foi criado em 1977, em forma de tiras de quadrinho nas páginas do jornal A Tarde. Dois anos depois saiu em forma de livro apresentado pelo jornalista e critico de quadrinhos Gutemberg Cruz. O personagem com seu universo de personagens fantásticos “grosseiros e elegantes” foi um sucesso na época. O livro é considerado pioneiro em publicação no gênero quadrinhos na Bahia. Atualmente, O Porco com Cauda de Pavão e os personagens que convivem com ele foram adaptados para o mundo do circo e serão apresentados ao publico em forma de série animada e musical. Não posso falar mais detalhes sobre isso.


Você ficou conhecido por produzir desenhos animados. Como começou essa atividade?

CC - Assistir seus próprios desenhos se movimentando é um sonho de todos desenhistas. Desde pequeno venho fazendo experiências em caixa de papelão e papel celofane, lâmpada e lente. Era uma tentativa de fazer um projetor de cinema. Os resultados nunca foram satisfatórios, mas serviram para quando adquiri uma câmera e projetor super-8 nos meados da década 1970. Inspirado também nas experiências do animador escocês radicado no Canadá, Mac Laren, aproveitava os filmes mal revelados para desenhar na própria película. Os resultados eram cheios de surpresas e psicodélicos. Alguns anos depois fui trabalhar na equipe de Chico Liberato no filme Eram Opostos. Nos anos 1980, morando em Paris, fiz alguns cursos de animação onde pude realizar várias experiências. Em 1997 fiz meu primeiro filme de animação chamado Coisinha. Em 1998 fiz Ouviram Alonzanfan que acabou ganhando o primeiro lugar no festival A Imagem em Cinco Minutos. A partir daí comecei a montar meu estúdio de animação, ampliando meus conhecimentos nessa área e investindo em equipamentos. Já fiz cerca de 40 filmes curtas e muitos prêmios nos festivais e mostras pelo Brasil. Recentemente concluí uma serie de 26 episódios em animação chamada Natureza do Homem. Essa série é patrocinada pela Ancine e TVE.


Na sua opinião, qual a razão de os quadrinhos nacionais, fora os infantis e alguns outros não conseguirem vingar comercialmente no nosso mercado?

CC - Acho que isso se deve a falta de investimentos das editoras e distribuidoras nacionais em quadrinhos nacionais.

Para o artista nacional, qual o caminho para arranjar trabalho nas editoras estrangeiras?

CC - Primeiramente ter uma boa ideia. Transformar a ideia em projeto, em seguida apresentar nos eventos, festivais, salões e mostras internacionais do gênero. É necessário fazer um investimento, desde ao conteúdo apresentado, ao deslocamento, hospedagem, falar outra língua, etc. A internet pode facilitar bastante alguns passos preliminares para chegar ao conhecimento nas editoras.


Como você vê o mercado nacional hoje? Tem futuro?

CC -  Ainda caminhando em passos lentos, mas tem futuro, sim.

Como foi a experiência de morar por um período de tempo na Europa (durante oito anos morou em Paris). Teve contato com os artistas de lá?

CC - Foi uma experiência muito enriquecedora, apesar do frio, deu para aprimorar meu estilo de desenhar sem tremer. Participei de varias exposições, festivais, mostras de quadrinhos e animações a exemplo de Angouleme, Epinal, Saint Just-Le-Martel, Annecy, Lilly, etc. Isso me permitiu conhecer muitos artistas consagrados.


Seus trabalhos foram publicados em diversos países...

CC - Tenho trabalhos espalhados por aí...


Já ganhou vários prêmios...quantos?

CC - Vários prêmios... quantos? Perdi a conta. O mais importante para mim foi o de Tókyo (Japão) organizado pelo jornal YiomiuryShimbun, em 1983.


O que você tem lido nos últimos tempos?

CC - Tenho lido muitos livros, principalmente bibiografias... A História de Vincent Van, de Barbara Stok,  as Cartas de Van Gogh a Seu irmão Théo, Lampião o Mata Sete, de Pedro Morais, Diário de um Louco, de Salvador Dali, Felini par Felini, de Federico Felini, entre outros.

Tem algum título ou personagem favorito?

CC - Charles Chaplin


Quais seus desenhistas prediletos (cartunistas, chargistas, caricaturistas e quadrinistas) ?

CC - Jaguar, Sampé, David levine, Steinberg, Millor Fernandes, Ziraldo, Copy, Juarez Machado, André Fraçois, TomiUngerer, Charles schulz, Desclozeaux, Quino, entre outros.

Como está seu trabalho em animação com o avanço da tecnologia computadorizada?

CC - Sem nenhuma dúvidas, a tecnologia digital de informática tem facilitado imensamente a produção de meu trabalho em animacão. O grande desafio é ficar atento para não se deixar cair nas "armadilhas" dos recursos que o programa oferece  e descaracterizar seu trabalho de forma pasteurizada.


Que conselhos você dá pra quem quer trabalhar com cartuns ou HQs?

CC - Ler e desenhar bastante

Quais os projetos em que você está trabalhando atualmente e quais seus planos para o futuro?

CC - Além da série de animação, Natureza do Homem, tenho ilustradoe criado projeto gráfico para muitos livros infantis e para adulto. Acabei de fazer um livro de cartuns intitulado Almofadas com Pelos de Gatos, com 64 páginas de desenhos inéditos. O livro é dirigido a um publico de todas as idades e cidadão do mundo, será lançado em breve de forma alternativa como sempre caracterizou meu trabalho.




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