12 abril 2018

Flávio Luiz: um lutador apaixonado pelo que faz


Ele canta sua aldeia e mostra ao mundo. Flávio Luiz é muito conhecido pelas tirinhas em quadrinhos de Jab, um lutador, , um cão dálmata, atrapalhado com seus próprios limites;  Rotta 66, um cacto e uma caveira de bisão em algum lugar da estrada mais americana: a cativante e musculosa Jayne Mastodonte; Au da Bahia, o capoeirista; o cangaço futurista do Cabra, e muito mais. De 1993 a 1995 foi chargista e ilustrador do Jornal Bahia Hoje. Participou de diversos salões de humor nacionais e internacionais, recebendo vários prêmios. De 2000 a 2008 foi ilustrador do Correio da Bahia, depois chargista da revista Metrópole e do site www.oaranha.com.br. Seus trabalhos fazem parte dos acervos de diversos museus nacional e internacional. Ele está sempre batalhando e aprimorando seu traço. O objetivo é conquistar um público leitor de histórias em quadrinhos carente de personagens tipicamente brasileiros. O Blog do Gutemberg conversou com o artista sobre o projeto, lançamento, mercado editorial, suas leituras entre outros assuntos que você confere na entrevista abaixo.


Como começou sua paixão pelos quadrinhos e qual é a primeira revista que você lembra-se de ter lido?

FL - Desde pequeno. Na verdade, não lembro qual foi exatamente a primeira revista que leram pra mim, mas lembro que com 5 anos, no colo de meu irmão mais velho, fui com ele comprar acarajés e preferi uma SUPER X de maio de 1970 da EBAL  com aventuras do Namor e do Hulk do que o Acarajé! kkkkk. Lia muito Disney, Hanna Barbera, Herois da tv ...

Você já desenhava ou descobriu que poderia desenhar depois que começou a ler quadrinhos?

FL - Já desenhava. E o engraçado é  que já desenhava cartoons. O Sol tinha olhos e sorriso, as arvores, casas etc...Isso com 3 anos !

Quais são as suas principais influências desde desenhistas, filmes, músicas, o que o Flávio Luiz trouxe do mundo para o seu traço?

FL - Will Eisner mais no storytelling do que no traço 9 aprendi a fazer HQ graças ao seu livro Quadrinhos e Arte Sequencial, Jack Davis, a turma antiga da Revista Mad, Ibanez de Mortadelo e Salaminho, Luke Lucky do Morris, Diversões Juvenis, Pererê do Ziraldo, Gabola do Perotti, Kid Farofa  do T K Ryan (amo  tanto que releio varias vezes ao ano e rio sempre - tenho até  tatuado no calcanhar) , Arca de Noé (do mesmo desenhista do Recruta Zero assinando como Adisson ), Snoopy, desenhos animados Hanna Barbera, seriados de humor como agente 86,os Monstros...E a revista Gibi Semanal de 1974 que me mostrou muitas dessas influencias citadas acima! Filmes: Superman, o primeiro, Os do Monty Phyton, " A festa do Monstro Maluco” - baseado nos desenhos de Jack Davis, Jackson Five, o desenho animado  com ele desenhando,  Vila Sésamo, Enio e Beto, seriado do Batman anos 70. Musicas vão de Bach a trilhas sonoras de filmes e seriados. Homem de 6 milhões de dólares e mulher bionica  !

Qual é o seu tipo de quadrinhos preferido? Europeu, japonês, estadunidense ou consegue tirar de todos eles algo proveitoso?

FL - Gosto um pouco de quase todos os tipos. BDs, principalmente, e comic americano (principalmente Jonh Byrne). Na grande totalidade, coisa antiga. Tirinhas, fiquei no Calvin e Haroldo e Mutts .. De lá  pra cá, não tenho nem conheço mais nenhum favorito em termos de tiras ... De  Mangá, só gostei do Lobo Solitario e Samurai Executor  até hoje! O Maisntream  atual americano, teimo em querer gostar de algo  mas pouca coisa nova me encanta. Geralmente compro, leio e vendo kkkk ...Já dos Europeus, sempre adquiro alguma coisa e a lista nunca se esgota..rsrs!!Tanto classicos como novidades   

Você faz charges, cartuns, caricaturas e quadrinhos. Dessas artes gráficas o que mais lhe apaixona?

FL - A que estiver fazendo no momento. Adoraria continuar a Rota 66, e manter uma constância maior no Au, no Cabra...Charges, acho que fiquei pra atras .. Meu humor de charge é muito politicamente incorreto para esses tempos emponderados/milenials ...Pra esse ano vou lançar o Agente Sommos ( um titulo de  Humor que é   o que faço melhor segundo quem acompanha meu trabalho). Minhas caricaturas são mais no corpo a corpo ...Não são tanto para ganhar prêmios...rsrs

Vamos falar das suas viagens. Para onde os quadrinhos lhe levaram e o que aprendeu com isso?

FL - Angouleme em 96, 2006, 2012 e 2016 , com direito a convite, stand  no Marche des Droits et Merchandising  em 2016, da primeira editora brazuca no Festival, a minha PAPEL A2, palestra sobre HQ Brasileira ( levei mais de 30 títulos de autores diferentes -inclusive a Tudo com Farinha, produções da Quadro a Quadro do Lucas Pimenta, Hector, Cedraz etc ), entrevista pra tv francesa, pra radio france internacional . ..Nada relevante por aqui,né? Fazer o quê ...rsrsrs ! Ano passado estive em  Beja Portugal , aa convite também com exposicão de originais Aú, O Cabra, roda de capoeira, palestra, livros esgotados etc  ...San Diego em 96, eu não tinha sequer um comic publicado mas fui tratado como profissional por conta do portifa, Barcelona (onde morei por um ano e trabalhei com caricaturas, tive exposicão também...). O maior aprendizado e que, lamentavelmente, não vejo por aqui, como se deve é que a união faz a força. 

Quantos prêmios já recebeu, algum tem um sabor mais especial?

FL - Acho que uns  40 de 1989 pra cá... Os mais importantes, os 2 Piracicaba em Cartoon e Charge (1994-2000) respectivamente, Os  3 HQMIX pelo meus quadrinhos Jayne Mastodonte  ( 99 -Independente) ,O Cabra ( 2011 -Independente)  e o  Aú#2  ( 2015 -Infanto Juvenil) o  Berimbau de Ouro pelo Aú em 2015  em Reconhecimento e Valorização da Capoeira e um em Malmo na Suecia,  mas que "comeram" 25 por cento do valor  em imposto para depositar aqui...rsrsrs.

Fale um pouco de cada personagem que criou: Rota 66, Jab, Au, Jayne, o Cabra...

FL - Rota 66-Minha tentativa de ingressar no mercado americano de tirinhas...rsrsrs! Pretencioooso... Publiquei  durante 4 anos pro Correio da Bahia. O Jab, minha outra tirinha, ficou nos 3 meses iniciais apenas ...o livro de tiras esgotou ...Foram 5 mil exemplares.
Rota e do Jab. Jack e Nat, uma caveira de bisão e um Kactus vivem àa margem da estrada convivendo e esculhambando com os diversos tipos que surgem ! Jack é uma caveira "sem cabeça" e Nat (em homenagem ao Nat King Cole) um Kactus canastrão. Muito sarcasmo e ironia, muito humor... Será que hoje tem espaço no universo de tirinhas pretenciosamente serias e cínicas que agradam a moçada atualmente? Tenho minhas dúvidas...

O Jab é um cachorrinho que sonha em ser campeão de boxe...Tirinha de humor despretencioso.. Jeff Smith questionou se o mundo de tiras precisaria de mais um cachorrinho engraçado, quando mostrei pra ele as que tinha na época...Ficou só nos 3 meses iniciais mesmo...Já a Rota 66,ele ficou curioso... Na época só tinha esboços...1996.Só consegui publicar no Correio 3 anos depois. Para os jornais do sul  que mandei, não tive um retorno sequer...Faltava-me contatos...rsrsrs

Jayne - Uma "emponderada " antes disso ser moda. rsrsrs!Humor , Aventura e critica à retratação das heroínas femininas na época (anos 90)  -Bélicas, solitarias ...A Jayne não é nada disso! Rsrs Uma mistura de Arnold Schwaznegger e Jayne Mansfiled !!!kkkk! Humor totalmente influenciado pela Revista Mad...Vivem pedindo outros números mas, hoje o humor mudou ..Acho que seria um risco resgatá-la...rsrsrs.Talvez, morando fora do Brasil..rsrsrs!

Aú. Minha BD Baiana...Totalmente Sotero-Franco-Belga...Foi recomendada pela Sec de Educação do Estado de São Paulo. Os dois números venderam uns 10 mil exemplares até agora... O primeiro teve 3 tiragens esgotadas. Em Salvador vendi uns 200 exemplares no total ! Queria poder vender mais !rsrsrs
O Cabra - Um cangaço futurista, feito para adultos. Uma proposta nova de abordar a cultura do cangaço. Ao lado do Aú e do Historias Paulistanas, um dos trabalhos de maior sucesso comercial dos meus titulos  .

Como foi o processo de criação do Aú? O que levou a criar um capoeirista?

FL - Sempre acreditei que ser universal é  falar de sua aldeia. Meu xará  e Mestre, Flavio Colin, já defendia a valorização da nossa cultura, nossos tipos. Eu fiz uns dois anos de capoeira nos anos noventa. Enfim. Acreditando nisso tudo, achei que daria certo um personagem afro brasileiro que não precisasse ser rico e jogador de futebol para virar personagem de HQ !rsrsrs Ainda espero lançar novos álbuns do Aú .Historias não faltam .!

Que material você usa para desenhar e arte finalizar?

FL - Sou jurassico!Rsrsrsrs!! Ainda faço todos os desenhos à mão livre, com pincel, brush pens e rotuladores descartáveis  e nanquim sobre papel. Para pintar, uso um Cintiq de 18 polegadas. O programa é o Photoshop e/ou ClipStudio Paint.

Qual a sua opinião sobre os quadrinhos na internet?

Acho que vieram para ficar, são totalmente válidos pois os tempos que vivemos são  de "dar scrool" em tudo ....rsrs, ajuda muito na divulgação mas não tenho a menor paciência e habilidade para ler, até o fim, uma pagina que seja.rsrsrs!!Não consegui me acostumar... Ainda prefiro as versões impressas. Tenho todos meus títulos disponibilizados para plataformas online, mas, sempre vou preferir o Gibi impresso, o cheiro de papel e tinta, o gibi debaixo do braço...

O que você anda lendo ultimamente?

FL - Muita coisa europeia, alguns independentes brasileiros e americanos e relendo muita coisa antiga. Kirby, Byrne, Kubert, Aparo ...
Não é tudo que toh lendo/relendo, mas olha só. Recomendo todas! Les Spectaculaires, Ar -Men de Lapagge. Le Bourreau, Qualquer coisa de Pierre Alary desenhando. O novo Lobo Solitário, Lobster Jonhson e Rocketeer (encadernados da Dark Horse e IDW). O Ominbus do Torpedo. As antigas Batman do Jim Aparo ,Le Spirou com diversos autores, Luke Lucky do Matthieu Bonhomme, Tirinhas do Rodrigo Brumm, qualquer coisa do Gustavo Duarte, dos gêmeos Magno e Marcelo Costa, Eduardo Ferigato, Rafael Dantas, os títulos que a Quadro a Quadro tem publicado, Future Quest, essa releitura dos personagens Hanna Barbera pela DC...

Fale  um pouco sobre o Messias, criação sua com o Gonçalo Junior.

FL - É um trabalho que lamentavelmente teve pouca divulgação. Gonçalo Foi o primeiro a propor uma linguagem sem texto para historias, totalmente nacional na narrativa, nos personagens ... .Coisa que depois se popularizou. Levou mais de um ano para eu dar conta das paginas, pois tive sérios problemas de saúde aliados a morte de meu pai  na época, mas acabou que depois de quase um ano pronto, na mão da editora,  com a questão do PCC em São Paulo, foi a obra certa para o momento certo. Não sei se Gonçalo teria interesse em republicar pela Noir. Eu sou muito centralizador com meu trabalho, mas aceitei desenhar o roteiro de Gonçalo, pela confiança no caráter como pessoa e profissional e saber do domínio técnico deste em relação ao roteiro e ética. Goncalo inclusive  a quem reputo muito da responsabilidade pela valorização do Quadrinho Brasileiro depois do obrigatório Guerra dos Gibis que seja dito!...Agora com a Noir , é outra "voadora" que ele dá  nos peitos do mercado !!hehehehe!!

E qual a sensação de ter seus trabalhos como parte dos acervos do Museu of Cartoon Art – Boca Raton – Flórida, Gibiteca do Henfil – SP, Word & Pictures Museum – Massachussets.

FL - Fico feliz, tenho todos os títulos também no Museu de la BD em Angouleme...Acho fundamental para quem respeita os quadrinhos como eu e é uma forma de eternizar um trabalho feito com tanto sacrifício...Além de ser um baita reconhecimento por parte de quem vive a nona arte por tantos anos como os caras de fora ...

Como você analisa o atual cenário dos quadrinhos independentes? O mercado de quadrinhos no Brasil vive uma fase, isso está refletindo na produção independente também?

FL - Nunca se publicou tanto no pais. Hoje está bem mais fácil do que quando comecei,  existe bem mais  profissionais, escolas, publico consumidor, editoras interessadas, blogs, pesquisadores, fãs, linhas de HQ para todos os gostos...Inclusive pros que não tem gosto nenhum..kkkkkkk!!Tá bacana. Olha a força e o tamanho de uma CCXP. Acho que a existência de um evento como esse, resume tudo!

Você lançou o Aú 2 em forma de financiamento coletivo. Foi a primeira vez que você fez dessa forma? Valeu a pena?

FL - Foi muito desgastante...Consegui à duras penas, tive que trocar parte do valor adquirido em  serviços publicitários por menos da metade que costumo cobrar para poder fechar o valor buscado ....Mas conseguí. A Plataforma Kickante me deu o melhor suporte possível e recomendo ! Acho que tentando mais uma vez, farei muito diferente... Tentarei explicar melhor como funciona para a infinidade de pessoas que colaboraram com pouco e que até hoje jogam na cara, como se não tivessem tido sua recompensa...Saca? Mas é algo que tem funcionado para a maioria  e que veio pra ficar.

É fácil ser um profissional de HQ no Brasil? Quais são as maiores dificuldades?

FL - Hoje está mais fácil do que antes. Pelo menos, as pessoas não me pedem mais para ler a mão quando me apresento como Cartunista!!kkk! Existe uma curiosidade e um conhecimento maior do que se trata, o que é um profissional e /ou um trabalho de HQ. Deixamos de ser apenas "coisa pra criança". Como dificuldade maior, mesmo em tempos de e-comerce , a  Distribuição por sermos um país tão grande .O convívio  com certas praticas tão típicas da nossa cultura,  continuam prejudicando o mercado mas repito: Está bem melhor atualmente .

Festivais como o Guia dos Quadrinhos, FIQ, GibiCon, etc, propiciam um número maior nas vendas, não é mesmo? Como fazer pra que os quadrinhos tenham visibilidade e vendam mais, sem esses eventos?

FL - Sem esses eventos ,confesso que ainda não acertei...Sei que tendo contatos tudo fica mais fácil mas acho que o talento ainda conta na manutenção da visibilidade e reconhecimento do nosso trabalho.

Seu projeto Histórias Paulistanas aprovado no ProAC (Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Cultura de São Paulo) em 2015. O foco é nas relações humanas, em que diferentes personagens se cruzam tendo como ponto de partida um edifício, e em um final de semana que pode mudar o destino deles. Fale desse trabalho.

FL - Eu , falei acima, sou muito centralizador em matéria de criação, mas minha esposa e editora, Lica de Souza veio com um roteiro de sua autoria, irrecusável para mostrar uma vertente que eu  não tinha trabalhado ainda. Uma HQ mais focada no Roteiro do que nos personagens, como eu costumo trabalhar. A repercussão tem sido a melhor possível e as vendas também. Mesmo sem tanta visibilidade junto à mídia especializada. Quem lê curte e o boca a boca tem funcionado. Já são mais de mil exemplares vendidos dos 2 mil feitos graças ao ProAC!


Quais seus projetos para o futuro?
FL - No momento, o Agente Sommos, meu novo titulo /personagem de Humor que, à principio, será disponibilizado Online e quem sabe, um Cabra 2, um livro com o melhor da Rota. 66... Deixa ver se o país melhora...rsrs Qualquer duvida ou mais perguntas, pode entrar em contato!Abração e obrigado, querido!

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