25 abril 2018

Lirismo irreverente na poética cartunística de Nildão (02)


O que você acha do “politicamente correto” para o humor, no Brasil?

N - O limite do humor é o respeito às diferenças. Piadas politicamente incorretas são frutos do deboche e humilhação de determinado segmento da sociedade. Ao fazer humor sobre determinado grupo, o humorista agrava o preconceito, dissemina o ódio e a intolerância. Prefiro o humor de reflexão, que valoriza a inteligência do leitor e procura denunciar e ironizar as relações autoritárias do poder sobre a maioria da população. 


Nos anos 70, 80 e 90 havia em Salvador um fervilhar de publicações como Coisa, Coisa Nostra, Pau de Sebo, Vilões, Esfera, Nego, DesHQue, Tudo com Farinha, diversas exposições de artistas gráficos baianos, debates, seminários. Hoje tudo isso ficou no passado. O que aconteceu com nossos artistas?

N - Acredito que nesse período vivemos o “boom” do cartum e dos quadrinhos aqui na Bahia e no Brasil, também. Com o passar dos anos, esse tipo de expressão foi minguando, os jornais, cada vez mais comprometidos com o departamento financeiro foram se desinteressando por esse tipo de arte. Sem ter onde publicar e tendo que bancar as próprias iniciativas, os artistas migraram para outros tipos de linguagens, como o design gráfico, a pintura, a direção de arte em agências publicitária e outras modalidades.

A criatividade, como qualquer expressão, precisa de estímulos para se manter. Se você não encontra retorno financeiro e de público no que faz, dificilmente você vai continuar fazendo.

No meu caso, como abri mão de todas as facilidades para abraçar esse tipo de expressão, fui em frente, exercitando permanentemente a criatividade, bancando meus projetos, buscando financiamento através de editais do governo e desenvolvendo conteúdo próprio nas mais variadas linguagens do humor.


Da Primeira República até os dias atuais o pesquisador e cartunista Alvarus afirmou que o período de Médici foi o mais sombrio, “a pior para a caricatura”. De todos os presidentes qual o que você acha que prejudicou mais os artistas gráficos?

N - Nos anos de chumbo pairava o medo na sociedade brasileira. Os cartunistas, por estarem bastante expostos, publicando em jornais que combatiam a ditadura, também sentiam e captavam a paranóia que estava no ar. Concordo com Alvarus: o período Médici foi o mais tóxico para os profissionais de humor e, no entanto, os cartunistas, apesar de todas as ameaças, continuaram criando com brio e competência.


Nos anos 70 o cartunista Henfil dizia “nois sofre, mas nois goza” e completada por outro, lembrada pelo Fortuna, “só dói quando ri”. Você também atravessou essa geração...
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N - Participei de vários Salões de Humor e sempre fazia questão de me aproximar de Henfil, que eu considerava uma referência. Quando participei do V Salão de Humor de Piracicaba pela primeira vez em 1978 e fui premiado, encontrei com ele, que me parabenizou e fez questão de dar um autógrafo especial, para a ocasião. Já o Fortuna, todos os cartunistas que conviveram com ele são unânimes em considerá-lo “o cartunista dos cartunistas.”

Tanto a frase do Henfil como a do Fortuna revelam um dado interessante dos humoristas: eles são sensíveis, verdadeiros radares que apontam as mazelas da humanidade de forma bem humorada, buscando a ironia e o ridículo para desmontar as relações de poder.

A filósofa Márcia Tilburi diz uma coisa interessante sobre o riso: “quando extrapolamos a possibilidade de chorar, quando já não têm mais lágrimas, quando não se pode fazer mais nada, quando a dor nos secou de tal maneira que só sobra mesmo um riso. E este riso não é do gozo, cômico, mas um riso que ultrapassa até mesmo o escárnio, e atinge a condição de sabedoria em relação à nossa miséria.” E Freud já dizia: o humor é raro, precioso, rebelde e teimoso.



Existe um traço nacional, de personalidade e desenho, do humorismo brasileiro?

N - Não consigo perceber um traço geral, que caracterize o desenho e o humorismo brasileiro. Somos uma sociedade democrática que ainda se encontra em formação, buscando sua identidade e, portanto, aberta à críticas e ironias. 

Como artista visual e sempre muito gráfico, mesmo quando seus trabalhos se dirigem a um público adulto, conserva o romantismo e grande dose de pureza infantil. Esta identificação com as crianças fez com que realizasse em (1983 com a individual Pernas pra que te quero)    e agora em 2017 com exposição dedicada às crianças?

N - Como cartunista, desde cedo que busquei desenvolver trabalhos que fossem atemporais e universais e que se destacassem dos demais cartunistas através do lúdico, onírico e poético. Numa linguagem simples, tensionada e com poucos elementos visuais fui, ao longo dos anos, desenvolvendo minha “poética humorística”, com o objetivo de instigar o universo infantil através da fantasia e do nonsense. No ser humano, o humor é nato, começa com a atividade lúdica da criança e vira brincadeira de adulto, fruto de sua imaginação criadora. Estimular o humor nas crianças é a garantia de que no futuro, teremos adultos mais leves, mais sadios e mais centrados. Para ser bem humorado, o ser humano precisa desenvolver a “razão lúdica” que é um misto de lucidez com ludicidade.



O que lhe impulsiona nas artes gráficas (cartum, charge, caricatura e HQ) ?

N - O que me impulsiona como artista é a necessidade de mostrar o quanto a nossa sociedade é hipócrita, racista, machista e intolerante. Também procuro desenvolver novos mecanismos de humor. Acredito que ainda existam novas formas de fazer humor, fora dos padrões que nós cartunistas dominamos. Busco permanentemente explorar novos processos associativos, através do texto e da imagem, na busca incessante do novo.

Você acha que o humor impresso está em baixa?

N - Hoje, são poucos os jornais que ainda possuem cartunistas contratados. A maioria não dispõe desse tipo de profissional e creio que os leitores não reclamam ou não sentem falta. Com o advento e a massificação da internet os jornais impressos perderam uma parcela considerável de público e de publicidade. As tiragens foram gradativamente sendo reduzidas e a publicidade, a cada ano que passa, vai minguando e vai migrando para a internet. Reduzir custos é a palavra de ordem e se você reduz custos e se livra de um profissional como o cartunista, que costuma ter idéias próprias, isso é o ideal para a mídia impressa. Vale salientar que o bom jornalismo, da maneira como ele se desenvolveu, está fadado a desaparecer. A maioria dos jornais está preocupada em garantir a sobrevivência e evita a todo custo desagradar quem esteja no poder, que possui as verbas publicitárias mais polpudas e suculentas do mercado. Joseph Pulitzer, o pai do jornalismo como o conhecíamos, costumava dizer: “com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.


No passado você tinha um projeto com Renato da Silveira de uma HQ passada na Bahia do futuro. Não aconteceu por que?

N - Além de criar o nome “Chiclete com Banana”, fiz, em parceria com Renato da Silveira, 15 capas para a banda de Bell Marques. Numa delas, “Tambores Urbanos”, decidimos bolar uma ponte que ligasse Salvador a Itaparica vista da ilha para a cidade. Adicionamos prédios futuristas ao perfil da cidade alta e o resultado ficou inusitado e expressivo, na página central da capa dupla do LP. Daí, cogitamos a possibilidade de criar uma HQ sobre Salvador que casasse o passado colonial com uma cidade pós moderna. Como outros projetos foram mais urgentes, deixamos essa boa idéia de lado.


Você popularizou o desenho de humor à comunidade através de out door, fez grafites, cartuns e, cada vez mais minimalista. Essa descoberta veio com uma exposição para crianças em 1983. Agora essa mostra volta em 2017 onde o universo das artes gráficas renasce. Fale desse momento.

N - Sempre busquei explorar novas linguagens para o cartum. Através de um edital pude espalhar alguns cartuns em out-doors aqui em Salvador. Quando percebi que existia uma certa censura nos jornais locais, decidi partir para o grafite, que era uma linguagem que estava em franca expansão no Brasil, que já vivia o fim da ditadura. A liberdade que essa nova forma de expressão propiciava era ilimitada, ideal para quem tinha coisas instigantes e provocativas a dizer. O aprendizado do cartum sintético, sem palavras e atemporal foi útil para o meu crescimento nessa nova linguagem. O grafite exige agilidade e pede uma linguagem telegráfica, afim de que seja mais rapidamente assimilada. Percebi a potencialidade e a liberdade que essa nova forma de expressão me oferecia. O que era colocado em muros aqui em Salvador, repercutia na Folha de São Paulo, através da coluna de Joyce Pascowitch, a sucursal daqui, enviava pra ela as novidades estampadas nos muros locais. Foi um período rico que aproveitei e reuni em “Quem não risca não petisca”, uma compilação do material grafitado por mim, nos anos 70.


Quem são hoje os bons chargistas e caricaturistas?

N - Acho que não sou a pessoa mais indicada para falar dos bons cartunistas que estão no mercado. Estou cada vez mais ligado em literatura. Tenho um prazer enorme em descobrir novos escritores e me debruçar sobre os cânones da literatura universal. Sei que temos uma quantidade enorme de novos artistas do traço espalhados por esse país continente. Destaco a qualidade do trabalho do cartunista Laerte Coutinho e do caricaturista mineiro/baiano Cau Gomez.

A nova geração de humoristas não batalha ou as portas se fecharam mesmo?

N - As portas da grande imprensa, daqui pra frente estarão sempre fechadas, e as portas da Internet estão completamente escancaradas. Culpar a falta de espaço só alimenta a cultura da reclamação. Prefiro que cada um busque o seu caminho, invente o seu mundo e vá à luta.


Você tem um livro pra sair agora sobre o cartunista Lage. Fale sobre essa obra.

N - Hélio Roberto Lage foi um cartunista baiano que trabalhou durante 37 anos no mesmo jornal, a Tribuna da Bahia. Foi uma referência pra muitos artistas e me influenciou de forma decisiva. Morreu em 2006, aos 60 anos de idade, e deixou uma enorme quantidade de trabalhos que precisava ser mostrado para as novas gerações. Decidi, em parceria com a minha filha Alice Lacerda, fazer uma exposição sobre ele na Caixa Cultural em 2010 e em seguida, achamos que ele merecia uma publicação à altura do seu talento. Com o material que foi gentilmente cedido por Marta Lage, Tribuna da Bahia, Bahiatursa, Irderb e a Fundação Pedro Calmon começamos a tratar as imagens, selecionar os trabalhos e editar o livro “Lage – 40 anos de humor” que foi lançado em dezembro de 2017 com mais de 200 obras desse genial artista.


Além do livro, há uma mostra sobre os cartuns do irreverente Lage.

N - A mostra que foi apresentada na Caixa Cultural foi integralmente doada à Fundação Pedro Calmon para ser montada nas bibliotecas públicas de todo o estado da Bahia. Vale ressaltar que 200 exemplares do livro “Lage – 40 anos de humor” foram entregues à mesma Fundação, para serem distribuídos nas bibliotecas públicas do estado.


E agora, quais são seus projetos para o futuro?

N - Estamos em fase de coleta de imagens e textos sobre a livraria Literarte, que existiu aqui em Salvador nos anos 70/80, e que foi muito importante para a formação intelectual de uma geração inteira. Através de depoimentos, entrevistas e de muitas imagens, pretendemos organizar um livro sobre a livraria, visando preservar a memória da vida cultural baiana.

Além desse projeto, pretendo continuar lançando meus livrinhos com as nanodelicadezas, poéticas doces e bem humoradas, tão necessária para os amargos dias atuais.

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