11 setembro 2007

Linguagem sexual (3)

Hoje vamos falar da linguagem dos sexos, ou seja, linguística sexual. O caráter chulo desta ou daquela palavra ou acepção prende-se aos tabus fisiológicos (especialmente sexuais) que envolvem o corpo humano no contexto social, ou seja, a revelação entre o comportamento público e privado. Transgredir o limite entre o privado e o público (quer no ato, quer no dito) significa “ofender” conveniências/convenções ética, religiosa ou jurídica – donde a “ofensa” ser usada como “insulto”. Sendo o palavrão ofensa/insulto, e consequentemente policiado na linguagem escrita mais que na falada (já que esta segue menos regras que aquela), fica restrito/rebaixado, respectivamente, à pornografia e à vulgaridade, apenas tolerado sob a camuflagem do eufemismo.

A obscenidade é imoral, mas, para sê-lo, precisa ser dita. O “escondido” deve mostrar-se de alguma forma. E para exibir-se como “escondido” deve utilizar-se de um código próprio: um código que simultaneamente anuncie e oculte sua própria fala. A linguagem é um campo privilegiado que oferece amplas possibilidades para esse jogo, pois as palavras se prestam a duplos sentidos, permitindo a ambigüidade necessária. Fica o dito, pelo não dito – essa parece ser a fórmula ideal da linguagem erótica. Essa é a ordem da linguagem proibida, instaurando uma linguagem da ordem, ainda que pelo avesso. Pois, nem o obsceno pode fugir à uma ordenação cultural, e a colocação da sexualidade em discurso obedece a uma normatização.

Através das definições do dicionário pode-se perceber a dupla moral de uma época em que o comportamento burguês de “bons costumes” procura mascarar a latente ideologia machista. O processo metafórico se organiza sempre a partir do ponto de vista masculino, e ao desmontá-lo Dino Preti deflagra algumas das formas de opressão da mulher na nossa sociedade. A obra é “A Linguagem Proibida: um estudo sobre a linguagem erótica”. O termo porrada, por exemplo – literalmente, uma pancada ou surra –, é também usado para designar o próprio ato sexual. Está intimamente ligado ao termo porra, o termo popular mais freqüentemente usado para sêmen ou esperma. Porra, por sua vez, está ligada aos termos esporrar e esporro, usados para descrever a ejaculação do esperma e também uma agressão verbal. Esta ênfase na potência liga-se ao papel representado não apenas pelo pênis, mas por toda a região genital, a virilha, como o lugar de força e vontade masculinas. Na linguagem do dia-a-dia, pirocuro, ovudo, sacudo adquirem conotações tanto de virilidade como de coragem. A idéia de ter “ovos grandes” ou “saco grande” significa ter “coragem”, ser “homem”, no português do Brasil. É nessas estruturas simbólicas que um entendimento de masculinidade é construída na vida brasileira.

O processo metafórico da linguagem erótica está ligado às características básicas da linguagem popular, em particular do vocabulário gírio, ou seja, ao sentimento de ridículo, produto de uma visão cômica do mundo. E nada mais fácil de ridicularizar do que o ato sexual. As metáforas humorísticas insistem em seus aspectos deformados: contar as tábuas do teto, afinar a flauta, tocar trombone de vara, enforcar o gato, virar macaco referem-se, entre outras, à masturbação masculina; tocar rebeca, à feminina; falar ao telefone, tocar clarineta, à felação; filé, padaria, rosca, quiosque, às de copas, às partes anais; reboque, à prostituta; berimbau, minhoca, lombriga, ao pênis; tomates, aos testículos; engenhoca, casa da barbada, países baixos, ao órgão sexual feminino; Zé Pereira, à gravidez; navio cruento, greve, à menstruação, etc.

Como os costumes, submetidos a um processo competitivo de forças sociais opostas, em que se alternam e se equilibram leis de continuidade e da renovação, controladas pelo grau de aceitabilidade do povo, em diferentes épocas, assim também o estoque lexical sofre a influência das pressões sociais que ora o prendem a tradição de uma hipotética “boa linguagem”, ora o libertam para a aceitação de novos vocábulos, novos conceitos, surgidos da necessidade de expressar idéias e atividades mais recentes. Sob a perspectiva moral, por exemplo, as frágeis linhas que marcam os limites dos “bons costumes”, cujos conceitos continuamente se renovam dentro da comunidade, são transpostas para o campo do léxico. Formas vulgares se incorporam à fala culta ou vice-versa. A vida das palavras torna-se um reflexo da vida social e, em nome de uma ética vigente, proíbem-se ou liberam-se palavras, processam-se julgamentos de “bons” ou “maus” termos, apropriados ou inadequados aos mais.

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