21 maio 2007

Tem jegue na pista (1)

Ainda é possível, com um certo custo, se ver em ruas e avenidas da terceira maior cidade do país, Salvador, um certo animal que todos reconhecem pela alcunha de jegue. Hoje desprezados, os jegues estão entre os primeiros animais valorizados e domesticados pelo homem. Originalmente do deserto, que credenciou sua fácil adaptação a circunstâncias que exijam a capacidade de se manter vivo com uma alimentação grosseira e escassa, o jegue tira de letra qualquer situação que um cavalo dificilmente suportaria. Quem dirá os de “puro sangue”. Por esta e outras características, o jegue que lhe atravessa o carro em plena pista bem que poderia ser, em nosso imaginário, o animal símbolo do povo baiano. Povo que apesar de todas as adversidades nutricionais, educacionais, políticas e econômicas, não desiste de sobreviver. E o faz com toda graça, gargalhando feito um jegue.

A ingrata reputação de lentidão e teimosia do baiano, perdão, do jegue, contraditoriamente se dá em virtude de sua inteligência e senso de sobrevivência bastante apurado. Obriga-lo a uma obediência "cega" a um comando geralmente é perda de tempo. Ele o faz se assim concordar. Tal qual os baianos, os jegues são bastante criativos e se adaptam muito bem ao serviço pesado, sendo usado em todo mundo com meio de transporte de cargas. Mas apesar de seu rincho poder ser ouvido até três ou quatro quilômetros de distância, o jegue, hoje, agoniza nas filas dos desempregados, sem qualquer amparo, transformado em charque para abastecer de carne os mercados de cidades da Europa e Ásia. Tal qual seis milhões de baianos que agonizam de fome, contabilizados pelo programa do governo federal: Fome Zero. Mas não devemos baixar nossa auto-estima.

Foi sua força de tração que moveu o primeiro sistema de transporte de massa de Salvador, naquela época, o mais eficiente do país. Foi nas costas do jumento que o Recôncavo baiano se fez poderoso, carregando em seu lombo sagrado toneladas de cacaus e canas. Todo baiano sabe que o jegue é o animal preferido do menino Jesus. O jumento esteve ao Seu lado na manjedoura, durante o nascimento; foi montaria para fugir da perseguição de Herodes, quando lhe marcou as costas com Seu mijo sagrado; e também montaria em Sua entrada triunfal em Jerusalém, no Domingo de Ramos. Por fim, segundo a lenda popular, o jumento assistiu ao calvário de Cristo, se oferecendo para carregar a cruz na qual Ele foi crucificado. Se Deus é brasileiro, com certeza Jesus é baiano.

Gradualmente substituída por jipes e motocicletas, a força motriz do jegue vem perdendo importância como meio de transporte nos grandes centros urbanos. Mas, no grande sertão baiano, em cidades como Macururé, Euclides da Cunha ou Canudos, o jegue ainda é artigo de primeira necessidade, carregando cargas para onde nenhum outro meio jamais conseguiria chegar. É especialmente nas localidades de vida mais difícil, sem abastecimento de água ou rede de esgoto, que o jegue mostra seu valor, carregando a baixíssimo custo o precioso líquido em seus cassuás. Assim lembra Maria da Glória Almeida Gonçalves, que já andou muito de jegue pelo sertão de Macururé.

“Lá em casa somos oito homens e quatro mulheres. Os meninos sempre estudaram em Salvador, mas, quando retornavam pro sertão, meu pai os colocava para trabalhar pesado, fazendo serviço de carrego com os jegues”, conta Maria da Glória, que presta serviço à Prefeitura de Macururé. Ela lembra dos parentes que o criticavam por obrigar os meninos, “quase doutores”, a trabalharem como verdadeiros jumentos. “Foi por causa do trabalho desses jegues que eu consegui sustentar estes meninos estudando lá em Salvador. E vai ser trabalhando com esses jegues que eles vão aprender a dar valor a isso”, dizia o pai de Maria da Glória que, segundo ela, lançou as bases da “pedajeguia” na criação dos filhos. “Lá em casa ninguém tem medo de trabalho e todos respeitam muito quem vem de baixo”.
Não é de hoje que isto acontece na Bahia, mas tem muita gente que “vem de cima” só para montar naqueles que “vem de baixo”. Este é o caso do jegue-tour, um pitoresco passeio ecológico, grande sucesso entre turistas estrangeiros e brasileiros em Salvador. O serviço turístico já foi tema de cartaz da Bahiatursa, afixado nas melhores agências de viagem do exterior. Foi o ex-guia de turismo Moisés Cafezeiro quem teve a idéia, levando grupos de até 40 pessoas para andar nas areias de ilha de Maré. Todos montados em jegues. “Um deles, inclusive, é jegue-bar, carregando provisão de água, refrigerante e, lógico, cerveja gelada”, explica Cafezeiro, que possui 42 animais, mas que consegue tantos quantos forem necessários.

O passeio começa com a travessia de escuna a partir da praia de Inema. Uma vez na ilha, o turista escolhe o jegue da preferência e esquece a pressa do dia a dia, apreciando os encantos da ilha de Maré, uma das mais belas da Baía de Todos os Santos. São três horas de belezas, de Mata Atlântica intocada, de produção artesanal, de azeite de dendê, rendeiras de bilro, além de conhecer uma colônia onde se fala dialeto africano. É justamente o jegue quem dá o mais puro ritmo baiano, quer mais? “Certa vez um mangangão de Salvador não resistiu a visão dos turistas alemães andando de jegue pelas areias da Ilha de Maré e queria me obrigar a alugar um jumento. Eu disse que não poderia pois o grupo já estava fechado. Em sua arrogância ele puxou o dinheiro da carteira e me disse que dava cinco mil no pau, ou seja, na hora. Eu respondi que só vendia o bicho inteiro”, brinca Cafezeiro.

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