05 fevereiro 2013

Bahia é um estado barroco a céu aberto

“O todo sem a parte não é todo; a parte sem o todo não é a parte; mas se a parte o faz todo sendo parte, não se diga que é parte, sendo todo”. Nada mais apropriado para começar nosso passeio pelo estilo barroco do que interpretar os versos de Gregório de Matos, o artista barroco mais crítico da Bahia. O barroco chegou ao Brasil no século XVII, mais precisamente em 1601, daí ser chamado de cultura e movimento seiscentista. Essa cultura já existia há um século na Europa, tendo origem na Itália e na Espanha. A arte barroca marcou um momento de crise espiritual da sociedade europeia.

O barroco, consequência direta da Contra-Reforma, nasceu para enaltecer Deus de forma grandiosa e apaixonada, utilizando traços exagerados, redundantes, que prendem o espectador pela emoção. Atribui-se aos mestres da Renascença a criação do novo estilo, para se opor ao equilíbrio, linearidade e harmonia do classicismo. O barroco é a linguagem da abundância, do transbordamento, da prodigalidade, do lúdico. Para alguns críticos e historiadores, o barroco era o extremo do ridículo e do absurdo. Para outros, era uma coisa desorganizada, exibicionista, o mau gosto. Era o sinônimo de tudo que se considerava anti-artístico, que não era estético.

CURVA, DELÍRIO & VERTIGEM - Mas, apesar de todas as críticas acirradas, no século XIX, o barroco é resgatado como uma expressão artística e estética válida e poderosa. De acordo com o escritor e poeta Ferreira Gullar, em sua obra O Olhar – Barroco Olhar e Vertigem, o Brasil é um país barroco, sobretudo em suas paisagens. Os montes recortados brasileiros, que tanto influenciaram o arquiteto Oscar Niemeyer, são uma das características mais fortes do barroco: a linha curva, suplantando a linha reta. “O barroco é uma arte essencialmente retórica, que explora a ilusão de ótica, que conduz ao delírio e à vertigem e consequentemente à ilusão”, afirma Gullar em seu livro.

Movimento artístico que simboliza a ruptura, no campo das ideias, entre o Brasil colônia e Portugal, o barroco floresceu a partir da descoberta do ouro, em Minas Gerais. Mas, foi na Bahia que atingiu todo o seu esplendor. A Bahia, ainda no ciclo do açúcar, produziu notável arte barroca. A riqueza da capital da Colônia permitiu a renovação artística deflagrada pela reconquista das terras pelos portugueses. A arquitetura sofreu influência de Portugal e Itália. As fabulosas obras de arte no interior das igrejas demonstram pompa e riqueza, e atraiam multidões da Europa para o Brasil.

ESTILO A OURO - Foram as ordens religiosas - jesuítas, beneditinos, carmelitas e franciscanos - que trouxeram o barroco para o Brasil. Na Bahia, imperou o barroco das igrejas douradas, como se fossem cavernas de puro ouro. O melhor exemplo do movimento está na Igreja e Convento de São Francisco, em Salvador, que tem seu interior completamente forrado com folhas de outro e carrega a marca de ser uma das igrejas mais ricas do país. Deixando a capital baiana de lado, os municípios do Recôncavo constituem-se num extraordinário parque barroco ao ar livre.

A maior expressão do barroco na região é a cidade de Cachoeira, mas quase todos os municípios da região guardam verdadeiros tesouros da época de ouro, como Santo Amaro, São Félix, Maragogipe, Jaguaripe, Itaparica e Nazaré. Cachoeira, depois de Salvador, é a cidade baiana que reúne o mais importante acervo arquitetônico no estilo barroco. Seu casario, suas igrejas, seus prédios históricos preservam a imagem do Brasil Império.

A imponência do seu casario barroco levou a cidade a alcançar o status de “Cidade Monumento Nacional”. Estando em Cachoeira, não deixe de visitar o Convento e Igreja Nossa Senhora do Carmo, imóvel do século XVIII, a Ordem Terceira do Carmo, construído por volta de 1702, a Casa da Câmara e Cadeia, datado de 1700, o Chafariz Público, do século XVIII, a Igreja da Matriz de Nossa Senhora do Rosário, do século XVII e a Capela de Nossa Senhora da Ajuda, erguida em 1606.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

04 fevereiro 2013

A santa preguiça

Ao longo dos séculos, a preguiça foi carregada de significações contraditórias e impressionantes variações. Foi tema de obras de arte, poesia, romance, pinturas, reflexões filosóficas. O preguiçoso é indolente, improdutivo, nostálgico, melancólico, indiferente, distraído, voluptuoso, incompetente, ineficaz, lento, sonolento, silencioso. 
 
Para o preguiçoso, “é preciso ser distraído para viver” (Paul Valéry), afastar-se do mundo sem se perder dele. Exatamente por isso, o preguiçoso é acusado de não contribuir para o progresso. Além de praticar crime contra a sociedade do trabalho, a preguiça comete pecado capital. Pela lógica do mundo do trabalho e da Igreja, ele deve sentir-se culpado. Pagar pelo que não faz.

Mas o trabalho sequestrou o tempo. Se no século XIX, o controle do tempo, ou seja, integração da vida operária ao processo de produção, hoje o controle é aceito naturalmente. O tempo passou e a reivindicação do tempo livre tornou-se quase que palavra de ordem subversiva: “Preciso tanto de nada fazer que não me resta tempo de trabalho”, conclama Pierre Reverdy no livro “A Difícil Arte de Quase Nada Fazer”.

Lançado em 1928, o Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade (1893-1045) só começou a ser discutido e lido nos anos 1960, e mais tarde sua obra foi montada no teatro e transportada para o cinema. Mário apresentou a preguiça com um outro significado, a síndrome da preguiça, de boa vida, da boemia.

Se o nosso Macunaíma murmurou “ai, que preguiça…” ao nascer, o filósofo Albert Camus comentou que “são os ociosos que transformam o mundo, porque os outros não têm tempo”. Outras milhares de citações seriam possíveis porque a indolência frequentou a imaginação humana desde tempos imemoriais – e nem sempre com a conotação negativa que hoje a acompanha. Houve um manifesto do socialista francês Paul Lafargue, O Direito à Preguiça, e outro clássico do tema, O Direito ao Ócio, de Bertrand Russel.

O herói nacional sem caráter, Macunaíma, retratado pelo modernista Mario de Andrade, vivia a falar de sua própria preguiça. São também parte desse patrimônio simbólico a ideia da indolência e a crença na inferioridade da mestiçagem e nos efeitos negativos da clima tropical sobre o trabalho. Teorias foram escritas a esse respeito e, por mais que tenham sido repelidas, sobrevivem num substrato ideológico que ajuda a moldar a imagem do brasileiro. Afinal, a preguiça é dos pecados capitais. E, como estigma, abre a porta para uma série de preconceitos: o nordestino tido como preguiçoso, a criança de rua vadia, e o desempregado como pária social.

Os portugueses, no final do séc ulo passado e nas primeiras décadas do século XX, tinha uma imagem da preguiça da ex-colônia. Afinal, o Brasil figurava no imaginário português como um lugar de oportunidades, um país imenso, com muitas riquezas naturais e fantástico potencial. Como essa terra mítica na cabeça de muitos vieram para cá e acabaram prosperando. Disso derivaria a ideia de que os brasileiros não seriam capazes de explorar as potencialidades de seu próprio país. De que tinham, ao contrário dos portugueses, tudo para enriquecer, mas não o faziam por pouca dedicação ao trabalho.

TECNOLOGIA - Um dos grandes impasses contemporâneos, na era da técnica, se dá na questão do uso do tempo, daí o tema da preguiça, do ócio criativo, da pausa para pensar e refletir. A técnica é uma criação humana que, por paradoxo, volta-se contra o seu criador. Havia a crença de que com as novas tecnologias, teríamos mais tempo livre para nos dedicarmos ao nosso aprimoramento não só como profissionais, mas como seres humanos. Deu-se o contrário: nunca se trabalhou tanto como hoje.

O trabalho na era da informática tende a ser full time, sem interrupções, sequer nos fins de semana. As corporações dão aos seus executivos celulares, IPhones ou laptops, verdadeiros presentes de grego, pois essa parafernália permite que os funcionários sejam contatados a qualquer hora do dia, inclusive nos momentos de lazer.

O que houve foi uma apropriação total do tempo dos indivíduos pelo capitalismo contemporâneo. Fato de muitas consequências, como o sentimento de urgência permanente, o estresse, a desconstrução de si. Mais grave ainda: esse novo ethos capitalista se opõe frontalmente à experiência do pensamento e da reflexão.

As estratégias para administração do tempo alheio são uma forma de dominação. Em um texto de Michel Foucault, ele estuda como o tempo é disciplinado pela Igreja, pelo capitalismo e pelos presídios. Trata-se de não deixar qualquer tempo livre aos indivíduos, pois seria por ele que as tentações, desordens e queda de produtividade poderiam vir a perturbar o bom andamento das coisas.

Por outro lado, uma das formas de controle seria estigmatizar a palavra. O preguiçoso torna-se um pária. Mas, essa noção é historicamente construída. Na Grécia e Roma antigas, o ócio era nobre e o trabalho, vil. Transformar a ociosidade em pecado, ou estigma social, é uma forma de culpabilizar os que ousam dispor do seu tempo livre. Ou seja, não passa de uma estratégia de dominação.

Essa desapropriação do tempo individual pode ter se exacerbado neste estágio do capitalismo, mas é algo que já preocupava pensadores do passado. Paul Lafargue, genro de Marx, escreveu um panfleto famoso, O Direito à Preguiça, no século 19. Mais recentemente, Paulo Valéry, no prefácio às Cartas Persas, de Montesquieu, lembrava que nenhuma civilização podia se organizar sem atenção “às coisas vagas”. Ou seja, ao pensamento reflexivo, crítico, à produção de obras de arte e inteligência, que dependem do tempo livre e da falta de necessidade de um objetivo ou prazo a cumprir. Hoje ninguém mais se detém para pensar.

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01 fevereiro 2013

Iemanjá, rainha das águas, mãe da Bahia

Há 90 anos, no dia 2 de fevereiro, a rainha do mar, mãe de todos os orixás no candomblé, é homenageada com a segunda maior festa religiosa do estado.

Durante todo dia, cerca de 500 mil baianos e turistas depositam nos mais de 300 balaios instalado na Casa de Pesos do Rio Vermelho milhares de rosas e presentes à divindade vaidosa.

Para os fiéis, ela é a única que o sincretismo não pegou. Com ela aconteceu o inverso. A igreja católica construiu uma igreja para tentar atrair os fiéis do candomblé.

A água é um elemento de enorme carga simbólica que as religiões de matriz africana. No caso da Bahia, onde toda essa influencia se evidencia, tudo está mais que sacralizado na obra do mais marítimo dos poetas brasileiros. “Em Salvador, vê-se o mar por todos os lados. Tenho paixão por sua beleza plástica, pelo tanto de histórias que me deu e de onde nasceram grande parte de minhas canções. Gosto, sobretudo, da vista ao longe, do horizonte, de ondas quebrando forte”, comentou certa vez o mestre de voz grave e doce, Dorival Caymmi.

OXUM - Dona das águas. Na África, mora no rio Oxum. Senhora da fertilidade, da gestação e do parto, cuida dos recém-nascidos, lavando-os com suas águas e folhas refrescantes. Jovem e bela mãe, mantém suas características de adolescente. Cheia de paixão, busca ardorosamente o prazer. Coquete e vaidosa, é a mais bela das divindades e a própria malícia da mulher-menina. É sensual e exibicionista, consciente de sua rara beleza, e se utiliza desses atributos com jeito e carinho para seduzir as pessoas e conseguir seus objetivos.

Quando Orumilá estava criando o mundo, escolheu Oxum para ser a protetora das crianças. Ela deveria zelar pelos pequeninos desde o momento da concepção, ainda no ventre materno, ate que pudessem usar o raciocínio e se expressar em algum idioma. Por isso, Oxum é considerada o orixá da fertilidade e da maternidade. Por sua beleza, Oxum também é tida como a deusa da vaidade, sendo vista como uma orixá jovem e bonita, mirando-se em seus espelhos e abanando-se com seu leque (abebê ).

Em um belo dia, Sàngó que passava pelas propriedades de Èsù, avistou aquela linda donzela que penteava seus lindos cabelos a margem de um rio e de pronto agrado, foi declarar sua grande admiração para com Òsùn. Foi-se a tal ponto que Sàngó, viu-se completamente apaixonado por aquela linda mulher, e perguntou se não gostaria de morar em sua companhia em seu lindo castelo na cidade de Oyó. Òsùn rejeitou o convite, pois lhe fazia muito bem a companhia de Èsù. Sàngó então irado e contradito, sequestrou Òsùn e levou-a em sua companhia, aprisionando-a na masmorra de seu castelo.

Èsù, logo de imediato sentiu a falta de sua companheira e saiu a procurar, por todas as regiões, pelos quatro cantos do mundo sua doce pupila de anos de convivência. Chegando nas terras de Sàngó, Èsù foi surpreendido por um canto triste e melancólico que vinha da direção do palácio do Rei de Oyó, da mais alta torre. Lá estava Òsùn, triste e a chorar por sua prisão e permanência na cidade do Rei.Èsù, esperto e matreiro, procurou a ajuda de Òrùnmílá, que de pronto agrado lhe cedeu uma poção de transformação para Òsùn desvencilhar-se dos domínios de Sàngó.

Èsù, através da magia pode fazer chegar as mãos de sua companheira a tal poção. Òsùn tomou de um só gole a poção mágica e transformou-se em uma linda pomba dourada, que voou e pode então retornar a casa de Esù.

Diz-se na Bahia que há sete Iemanjás: Iemowô, que na África é a mulher de Oxalá; Iamassê, mãe de Xangô; Euá (Yewa), rio que na África corre paralelo ao rio Ògùn e que frequentemente é confundido com Iemanjá em certas lendas; Olossá, a lagoa africana na qual deságuam os rios. Iemanjá Ogunté, casada com Ogum Alagbedé. Iemanjá Assabá, ela é manca e está sempre fiando algodão. Iemanjá Assessu, muito voluntariosa e respeitável, mensageira de olokun. Em Cuba, Lydia Cabrera dá sete nomes igualmente, especificando bem que apenas uma Iemanjá existe, à qual se chega por sete caminhos. Seu nome indica o lugar onde ela se encontra.
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31 janeiro 2013

Para desconstruir O Inescrito

Formada pela linguagem verbal e visual, os quadrinhos revelam uma cultura, uma identidade não só para crianças como também para os adultos. A linguagem verbal se utiliza da estrutura e do vocabulário da linguagem escrita. E a visual, constituída por elementos plásticos, em suas diversas categorias como cor, forma, linha, disposição espacial, proporcionalidade, figuração, materialidade, cujas combinações criam as ilustrações, o projeto gráfico e toda a estruturação do encadeamento visual.

E nesse processo comunicativo, o verbal e o não verbal se encontram, se distanciam, criam uma experiência diferenciada em relação às obras apenas verbais, e muitas vezes, extrapolam a palavra e o desenho.

A obra de Mike Carey e Peter Gross intitulada O Inescrito (Panini Comics) propicia estímulos e articuladores de leitura, tanto no campo verbal quanto no visual, apresentando um discurso de boa qualidade artística. Página a página vai ganhando forma, crescendo em conceitos, sinalizando no momento e ritmo da leitura.

A ponte entre o real, as experiencias vivenciadas, e a ficção é o foco da narrativa. A obra abre um leque de possibilidades de exploração. Nessa primeira parte há uma apresentação dos personagens e o fio condutor da trama, que envolve um escritor desaparecido e o fenômeno literário que é sua obra (na qual realidade e fantasia se misturam).

Para muitos, trata-se de uma desconstrução de Harry Potter, assim que chegou às lojas americanas, em 2009. Os autores discutem a questão da celebridade e a maneira como a sociedade responde ao ardor da fama.

A trama tem como protagonista Tom Taylor, filho do autor de livros infanto juvenis mais famoso do planeta. O sucesso de seu pai, sumido há tempos, vem dos livros sobre um herói bruxo, também chamado Tom Taylor. Em meio a convenções de quadrinhos pelo mundo, Taylor passa a ser perseguido por fãs do feiticeiro, defensores da tese de que ele não é gente, e sim um personagem ficcional. Taylor percebe que estranhas circunstâncias mágicas começam a acontecer ao seu redor, pondo sua sanidade em risco.

Em todo o momento a dupla faz critica ao sistema e também é uma declaração de amor à literatura. Vale a pena conferir.

É bom lembrar que houve muitas mudanças no universo das histórias em quadrinhos. Na sua fase inicial eram totalmente voltadas para a garotada com as aventuras de crianças levadas criticando a forma de educar dos adultos (Yellow Kid, Pequeno Nemo, Sobrinhos do Capitão etc). Em seguida vieram as aventuras de Flash Gordon, Tarzan, Jim das Selvas, Fantasma e muitos outros cujo objetivo principal é sair da fase humorística para ações no espaço, na selva, no mar, afinal a queda na Bolsa de Valores dos EUA (1929) não permitia risos fáceis, era preciso fugir a essa realidade.

Com a chegada da guerra mundial, surgiram os super herois para mostrar ao mundo que o planeta estava seguro. A fase dos super herois dura até hoje para o agrado de milhares de fans. Mas surgiram também narrativas sofisticadas, utilizando metalinguagem, trabalhando o ser interior, as fases de angustia, solidão e tristeza. Os momentos da fraqueza humana em outra perspectiva.

A história de Inescrito cativa facilmente o leitor por mostrar segredos do universo da fantasia. E os dois autores possuem um bom domínio narrativo, tanto na construção do enredo e concepção dos personagens como das próprias técnicas da narrativa em quadrinhos. Há o uso de elementos bem contemporâneos como noticiários sensacionalistas, sites de teorias da conspiração, e até fóruns de internet permeando as suas páginas. Vale dar uma checada.
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30 janeiro 2013

O que há para ler nas HQs

Biografia em quadrinhos de Luiz Gonzaga


O ano de 2012 marcou o centenário de Luiz Gonzaga. Se ele ainda estivesse vivo no dia 13 de dezembro completaria 100 anos de idade. Comemorando a data, o estúdio Retina78 publicou a excelente HQ: Luiz Gonzaga: Asa Branca – O Menino Cantador, com arte de Wesley Rodrigues e roteiro de Maurício Barros de Castro. A obra conta a história de Gonzaga desde sua infância em Exu, interior pernambucano, a descoberta do xote, do baião, do forró, a saga dos retirantes nordestinos até seu sucesso como cantor popular.

Maurício é jornalista e historiador, vencedor do Prêmio Abril de Jornalismo 2011, na categoria Cultura, pela reportagem “O Verde que Virou História”, sobre o sociólogo Gilberto Freyre, publicada na Revista National Geographic-Brasil. Já Wesley é quadrinista e ilustrador, diretor de animação do premiado O Ogro (2011) e de Pinga com Sakê (2009).

Suburbia invade os quadrinhos


A série Suburbia sai das telas e agora invade os quadrinhos. A adaptação é do quadrinista Pedro Franz. A periferia do Rio de Janeiro é vista pelo olhar de Conceição, que divide com o leitor suas lágrimas e seu encanto pela cidade e sua gente. Suburbia se passa no início dos anos 1990 e conta a história da menina pobre que fugiu da extrema miséria em uma carvoeira em Minas Gerais e se tornou rainha do funk em um subúrbio do Rio de Janeiro. Nos quadrinhos, a história é contada por ela, Conceição, que narra seu cotidiano à sua “santinha”, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que recebeu de sua mãe, antes de partir.

Como escreveu o antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares, “em Suburbia, a poesia dos criadores captura a vitalidade da zona norte e flagra a urgência de uma sociedade que ferve no fogo do medo e do desejo, no alvoroço das possibilidades, na fricção das contradições, longe do olhar bovino da Casa Grande, que acha feio o que não é clichê, que decalca o futuro nos moldes do passado idealizado, que discrimina e não se crê racista, que ainda sonha o velho sonho americano da prosperidade ilimitada, cujo prazo de validade esgotou-se até mesmo na matriz” (http://www.luizeduardosoares.com/?p=1040)



Povos indígenas em quadrinhos

Sérgio Macedo levou para o papel a experiência que acumulou, ao conviver, diariamente, com os índios."Minha afinidade com o mundo indígena vem da primeira infância, assim como minha afinidade com histórias em quadrinhos. HQ sempre foi minha linguagem, é um meio agradável e eficaz para se comunicar. Isso me permitiu compreender o mundo indígena, suas aspirações e seus problemas. A sociedade nacional ignora a realidade desses povos, que são os verdadeiros brasileiros, vivendo nessa terra muitos milênios antes que nela chegassem os português”, informou.

Desta forma, a preservação da natureza no país e no mundo é a preocupação do desenhista mineiro Sérgio Macedo, que lança o livro Povos indígenas em quadrinhos, com selo da Zarabatana Books.
Prefaciado pelo sertanista Sydney Possuelo, considerado a maior autoridade com relação aos povos indígenas isolados do Brasil, o livro traz a história de Yanomamis, Xavantes, Kayapós, Suruís e Panarás em 88 páginas coloridas.

É bom lembrar que a mídia apresenta um silencio constrangedor em relação aos índigenas. O índio brasileiro é visto como um entrave ao progresso, ou ainda algo engraçado, pitoresco, entre outras sutilezas. Nesse álbum de Sergio Macedo conhecemos um pouco do universo rico e verdadeiro dos povos indígenas brasileiros, fazendo um contraponto com as histórias de destruição e horror que acompanham os Kayapó, Yanomami, Xavante, Suruí, Panará... Vale a pena conferir!  Essas publicações podem ser encontradas no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)


Atrações variadas movimentam Dia do Quadrinho na UFBA




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28 janeiro 2013

Viagem musical pela Bahia (2)

O cantor e compositor Moraes Moreira canta em alto e bom som “eu gosto de ser baiano/ai, ai Bahia/ando perguntando/quem é que não poderia...”. E das músicas que compôs, ele informa que “Chame Gente” é a que melhor retrata o Estado, fala da mistura de raça e da forma que o baiano encara a vida, apesar das dificuldades:

“Ah! imagina só que loucura/essa mistura/alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia/de todos os santos, encontros e axé/sagrado e profano/o baiano é Carnaval//No corredor da história/Vitória, Lapinha, Caminho de Areia/pelas ruas, pelas veias, escorre/o sangue e o vinho, pelo mangue, Pelourinho/a pé ou de caminhão não pode faltar a fé, o Carnaval vai passar/da Sé ao Campo Grande/somos os Filhos de Gandhy,/de Dodô e Osmar”.

Um dos locais mais conhecidos de Salvador e famoso no Carnaval das décadas de 70 e 80 foi cantado pelo santo amarense Caetano Veloso: “A praça Castro Alves é do povo/como o céu é do avião/um frevo novo/eu quero um frevo novo/todo mundo na praça/muita gente sem graça no salão”.

Outro local popular, sede do bloco afro Ilê Ayê, foi saudado pelo compositor Gerônimo: “Eu sou negão/meu coração é Liberdade/sou do Curuzu, Ilê”. Já Gilberto Gil cantou o misticismo do povo baiano em “Eu Vim da Bahia”: “Onde a gente não tem pra comer, mas de fome não morre/porque a Bahia tem mãe Yemanjá/do outro lado o Senhor do Bonfim/que ajuda o baiano a viver”. E até Ivete Sangalo concluiu: “Falar o quê/quando pisa nessa terra/alegria toma conta de você”. E assim, dos antigos aos atuais compositores, a Bahia continua na boca do povo.

Um dos poucos que ousaram cantar o outro lado da Bahia foi o poeta Gregório de Mattos (1636-1696) que compôs o soneto Triste Bahia. O poema adquiriu popularidade quando foi gravado por Caetano Veloso em 1972: “Triste Bahia! Oh quão dessemelhante/estás e estou do nosso antigo Estado/pobre de ti vejo a ti/tu a me empenhado...”, dizia os primeiros versos do poeta que ficou conhecido como Boca do Inferno.
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

Viagem musical pela Bahia (1)

Berço da brasilidade, a Bahia se tornou uma imagem idílica para os brasileiros. Estereótipos como o da preguiça, do tempero ou do suingue baiano rondam o imaginário popular e são usados pelos próprios baianos como forma de autopromoção. “Baiano não nasce, estreia” é uma das frases utilizadas para mostrar a artisticidade inata do povo local. A Bahia, terra de filhos ilustres em todas as áreas da cultura, é cantada por seus admiradores, baianos ou não.

Quando se apresentava na rádio Sociedade da Bahia, na década de 1940 o sambista Riachão ficou conhecido como o cronista musical da cidade. Isso porque, além de compor músicas que tem Salvador como cenário, Riachão costuma falar de fatos que aconteceram nesses lugares, como o de uma baleia que foi exposta na Praça da Sé. Seu primeiro CD lançado em 2000, canta Salvador num estilo que ele chama de samba cartão postal. As imagens dos bairros e das ruas da cidade são cantadas de um modo que faz o ouvinte ter a sensação de percorrer os lugares citados: “Quem chega na Praça Cayru/olha pra frente o que é que vê/vê o elevador Lacerda/que vive a subir e a descer/É o retrato fiel da Bahia/baiana vendendo alegria/coisinha gostosa de dendê/acarajé ôô
ôô”.

O bairro de Itapuã cantada em música de Dorival Caymmi como uma bucólica vila de pescadores já não é mais a mesma, mesmo assim o local ainda é uma referência. “Saudade de Itapuã” (Caymmi) e “Tarde em Itapuã” (Vinícius de Moraes e Toquinho) são músicas emblemáticas. O bairro perdeu a tranquilidade de outrora, mas os compositores cantaram o local da época deles. O local era de veraneio para os soteropolitanos na época de Caymmi, anos 30 e 40. Nos anos 60 e 70, quando Vinícius morou lá, já havia uma avenida que ligava a cidade à antiga vila, mas o local ainda era vasto como um recanto.

Na letra do samba "Você já foi à Bahia?" é iniciada com uma pergunta: "Você já foi a Bahia, nega?" e em seguida são listados vários argumentos para convencer a "nega" - e a todos os seus ouvintes - a irem à Bahia. Aspectos diferentes do estado são salientados na letra: motivos de ordem religiosa, ao mencionar a Igreja do Senhor do Bonfim e das graças que alcançará quem visitá-la; a típica culinária baiana como vatapá, caruru, mungunzá; a diversão através do samba; e por fim motivos históricos são alegados como a memória do tempo do Império, com suas donzelas, através da arquitetura da "cidade velha". Tudo é motivo para se visitar a Boa Terra. Ao fim do samba o afeto do compositor transparece quando revela que não há terra como a Bahia.

Os autores de algumas das mais famosas (e apaixonadas) músicas sobre a Bahia não nasceram lá. Trata-se do mineiro Ary Barroso, que passou apenas alguns dias na capital baiana, e do paulista Denis Brian. Compositor de “Bahia com H”. Na música, Brian pede licença para se declarar ao Estado: “Dá licença de gostar um pouquinho só/a Bahia eu não vou roubar tem dó/e já disse o poeta/que terra mais linda não há/isso é velho e do tempo em que já se escrevia Bahia com H”. Ele também canta as paisagens soteropolitanas: “Deixa ver, Baixa dos Sapateiros, Charriot, Barroquinha, Calçada, Taboão..../deixa ver, teus sobrados, igrejas/teus sambas, ladeiras/e montes tal qual um postal”.

Já as canções de Barroso, tais como “No Tabuleiro da Baiana”, “Quando em Penso na Bahia” e “Baixa dos Sapateiros”, fazem o ouvinte percorrer um itinerário geográfico musical pela Bahia, mais precisamente por Salvador, o que faz com que muitos turistas já cheguem à cidade cantarolando as músicas. “Na Baixa do Sapateiro encontrei um dia/a morena mais frajola da Bahia/pedi-lhe um beijo, não deu/pedi-lhe um abraço, não quis,/pedi-lhe a mão, não quis dar, fugiu://Bahia, terra da felicidade”.

E quem não se lembra de Gordurinha cantando “o pau que nasce torto/não tem jeito, morre torto/baiano burro, garanto que nasce morto/sou da Bahia e comigo não tem horário/não sou otário ninguém pode me zombar/sou cabra macho, sou baiano toda hora/meio dia, duas horas, quatro e meia, o que é que há/cabeça grande é sinal de inteligência/eu agradeço a providência, ter nascido lá/salve a Bahia Ioiô/Salve a Bahia Iaià”.
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

25 janeiro 2013

Humor armado de Henfil (5)

No dia 04 de janeiro de 1988 – há 25 anos - morria o cartunista Henfil (1944-1988). Ele teve uma atuação marcante nos movimentos políticos e sociais do país, lutando contra a ditadura, pela democratização do país, pela anistia aos presos políticos e pelas Diretas Já. Com humor mordaz e desenho caligráfico, Henfil destaca-se como um dos militantes mais ativos na resistência ao regime militar. De suas mãos saem personagens antológicos como os fradinhos Baixim e Cumprido, a ave Graúna, o bode Orellana, Capitão Zeferino e Ubaldo, o paranoico, que provocam mudanças na história dos quadrinhos brasileiros não tanto pela inovação formal - apesar de ser marcante o seu traço nervoso e espontâneo -, mas pelo uso dessa linguagem gráfica específica como o melhor suporte para crítica e comprometimento social.

Num congresso de fisioterapia, realizado em 1981 em Salvador, Henfil compareceu para falar de suas experiências com a hemofilia ao longo de sua vida e para cá também levou as lições de autoconfiança que assimilou, conjugadas com a fisioterapia. “A determinação de um hemofílico pode permitir um tratamento com a fisioterapia dispensando o plasma e os remédios químicos. Se o hemofílico sair da redoma em que normalmente é colocado pela mãe, pode levar uma vida normal. A metade dos hemofílicos permanece nessa redoma, superprotegidos. Esses são os corruptos da classe. A outra metade entre a qual me coloco são os marginais”, brincava ele, citando os exemplos do ator Richard Burton que não aceitava extras em cenas perigosas, e do próprio irmão Herbert de Souza, o Betinho, o exilado político da música “O Bêbado e a Equilibrista”.

Henfil: o Humor Subversivo é o título do livro de Márcio Malta, formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), doutorando em Ciência Política (PGCP/UFF) e cartunista profissional, assinando seus desenhos com o pseudônimo de Nico. A obra aborda a contribuição política do cartunista Henfil, percorre seu trabalho artístico e a luta contra os desmandos do regime militar. Publicado pela editora Expressão Popular, o livro faz parte da coleção Viva o Povo Brasileiro, que visa resgatar a memória de personalidades que lutaram para transformar o Brasil.

“Em seu campo de atuação profissional, Henfil foi ímpar. Dono de um traço leve, ágil e despojado de preocupações estéticas, acadêmicas e tradicionais, seu estilo se caracterizava pela síntese. Seu estilo era tão pessoal, que é impossível imitá-lo. Em certa feita, Jaguar comparou Henfil com Garrincha, ou seja, único” (p.37). “Por meio de seu traço limpo e ágil, conseguia dar vazão a tudo aquilo que não poderia ser verbalizado nos tempos sombrios da ditadura” (p. 39)

“Nas histórias em quadrinhos de Henfil pode-se afirmar que o ciclo não se encerra no momento da reflexão do receptor. O humorista compunha uma espécie de parceria com o leitor. Os personagens chegam a dialogar com o público, estimulando a tomada de consciência. Charges como as que figuram os quadrinhos eram recortadas e mostradas, contadas e recontadas, construídas e reconstruídas no imaginário popular, conscientizando e dando asas as formas de resistência. Exemplo clássico da interação com o público é o quadrinho em que o trio de personagem da caatinga tenta localizar a esperança olhando para os lados. A proposta por si já é fantástica, se constituindo como um convite para a imaginação, posta que o sentimento não é algo visível” (p. 40/41)

A lista de criações de Henfil constam a feminista Zilda-Lib, a onça Glorinha, anarquista, líder do comando de Libertação do Quadrinho Nacional. A missão da Onça Glorinha era caçar o “agente imperialista” Mickey. Certa vez ela comeu a Graúna, achando se tratar do camundongo de Walt Disney. Henfil admite que fez uma provocação ao tipo de intervenção que grupos da luta armada faziam. A importância conferida por Henfil ao elemento feminino das personagens, como a onça Glorinha e a Graúna, que se comportam como as mais valentes e combativas. Era essa a percepção que Henfil detinha do poder feminino. Trabalhando com a reversão de expectativas fazia ainda o riso rolar solto.

Henfil criou outros personagens. Continuava apontando as desgraças do homem médio brasileiro, mas de maneira mais simples. Havia fome, falta de liberdades civis, desemprego, e injustiças sociais, e era preciso denunciar isso. Graúna, Zeferino, Bode Orelana, Ubaldo, Orelhão, cada tipo sublinhava, com humor amargo, aquilo que se lia nos jornais e se via nas ruas. Era um trabalho mais direto, mas nenhum personagem mostrava as vísceras do povo como o Fradim. O personagem mostrou de maneira completa os horrores da condição humana e, ao que se sabe, o país de Sarney (presidente na época) tem quase nenhuma diferença daquele governado por militares.

No final dos anos 70, ele lançou uma revista com histórias mensais dos monges loucos. Não durou muito, a revista era cara e o País começava a enfrentar mais uma de suas crises econômicas. Henfil colaborou com diversos jornais revistas: Status, Isto É, Pasquim, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil, O Globo, O Estado de S.Paulo. Escreveu vários livros: Henfil na China, Cartas da Mãe, Fradim da Libertação, Diário de um Cucaracha. Fez um filme, Tanga, Deu no New York Times.

A obra do cineasta baiano Glauber Rocha foi um dos fatores que influenciou a criação de Henfil. Desde a realização de cenários que assimilavam a técnica do Cinema Novo e suas tomadas; assim como a influência na escolha de temas ao criar seus personagens. Em paralelo ao cinema novo, outra grande influência de Henfil ao rabiscar a caatinga foi o livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. A inspiração veio a partir do momento em que ganhou o livro de Betinho. O cartunista soube traduzir para os quadrinhos duas contribuições essenciais para compreender o Brasil.

Henfil foi um homem de denúncias. Foi ele quem calibrou a expressão Diretas Já e sofreu depois por ser contra o Colégio Eleitoral e, consequentemente, contra o governo de Tancredo Neves e seu vice, eleitos indiretamente. Um guerrilheiro do cartum, assim Henfil foi definido pelo cartunista Miguel Paiva. “A produção de Henfil, em sua quase totalidade (conta Nico em seu Henfil, o humor subversivo), foi pautada em termos críticos. Adotou o lápis como arma para denunciar e questionar tradições e comportamentos sociais. Tocava em pontos-chave, desenvolvendo um inconformismo contagiante. Valores, que até então eram vistos como naturais, eram espezinhados na mão do cartunista”. Segundo o caricaturista Cássio Loredano: “Henfil tirou de debaixo do tapete o que para lá tinham varrido zelosamente a nossa História inteira”.

As tiras, o texto e os cartuns de Henfil, significaram, em quase todo o período militar, um sopro de esperança. Em 1970, com a ida de grande parte dos militantes para a guerrilha, Henfil criou o Zeferino. Sua intenção era chamar as pessoas a enfrentar a ditadura. “Quem era ele? Um cangaceiro... Você tem de ser o cangaceiro! Tem de se transformar no cangaceiro!”, explicou Henfil em entrevista ao jornalista e amigo Tárik de Souza. A história se passava no sertão, usando a fome e a seca para se contrapor à propaganda do “milagre econômico” e dialogar com a classe média do “Sul Maravilha”. Zeferino foi criado como personagem principal. Discutia com o bode Francisco Orelana (uma crítica ao intelectual de esquerda, que ``comia” livros e pouco agia), e formava um casal com a Graúna. Esta ganhou vida própria (como a maioria de seus personagens) e tornou-se a protagonista. Hemofílico, acabou numa das muitas transfusões de sangue contaminado pelo vírus HIV. Henfil estava com Aids quando pouco se sabia dessa doença; Morreu em 1988, debilitado mentalmente. Henfil é sempre atual. E profundo em seu humor cáustico.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

24 janeiro 2013

Humor armado de Henfil (4)

No dia 04 de janeiro de 1988 – há 25 anos - morria o cartunista Henfil (1944-1988). Ele teve uma atuação marcante nos movimentos políticos e sociais do país, lutando contra a ditadura, pela democratização do país, pela anistia aos presos políticos e pelas Diretas Já. Com humor mordaz e desenho caligráfico, Henfil destaca-se como um dos militantes mais ativos na resistência ao regime militar. De suas mãos saem personagens antológicos como os fradinhos Baixim e Cumprido, a ave Graúna, o bode Orellana, Capitão Zeferino e Ubaldo, o paranoico, que provocam mudanças na história dos quadrinhos brasileiros não tanto pela inovação formal - apesar de ser marcante o seu traço nervoso e espontâneo -, mas pelo uso dessa linguagem gráfica específica como o melhor suporte para crítica e comprometimento social.


Procurando fugir às esquematizações, Henfil não se conformou em ficar apenas como desenhista. Em 1980, criou a TV Homem, um quadro satírico dentro da TV Mulher, levado ao ar pela Rede Globo todas as manhãs. Colocou seu talento também a serviço do teatro e do cinema. Junto com o jornalista Oswaldo Mendes, escreveu o roteiro de A Revista do Henfil, que fez sucesso no teatro Ruth Escobar, em São Paulo, a partir de setembro de 1978. Em 1979 concluiu o filme Tanga – Deu no New York Times, feito em parceria com Jofre Rodrigues, filho do dramaturgo Nélson Rodrigues.

A linguagem coloquial, cheia de sua poderosa lucidez, funcionou como uma bomba, idêntica ao estouro dos Fradinhos, Essa experiência, o incentivou a continuar. Em Henfil na China ele revelou o fechado país de Mao Zhe Dong, depois de uma viagem a convite do governo. Cartas da Mão é uma antologia de sua colaboração semanal na revista Isto É, onde trabalhou de 1977 a 1984. Outra obra, Diretas Já, mostrou plenamente seu engajamento político em artigos e cartuns. Em Fradim da Libertação, Henfil retomou sua mais contundente personagem, nascida no seu livro de estreia, Hiroxima Meu Humor, publicado em Belo Horizonte, em 1967, antes de sua mudança para o Rio.

“Não existe nada mais perigoso do que uma mulher quando vê em perigo a preservação da espécie. Por isso elas estão na frente de todos os movimentos revolucionários do mundo” (Suplemento Mulher, Folha de S.Paulo, 1983)

Antes de viajar para Natal, Rio Grande do Norte, para se aproximar ainda mais do sertão, Henfil esteve em Salvador e travou contatos com alguns desenhistas. Mais tarde, quando José Wilson Lopes Pereira tornou-se coordenador da Rádio Educadora da Bahia fizemos experiência com quadrinhos e cartuns no radiojornalismo com experiência dos trabalhos de Lage e Henfil. “Sou contra a sofisticação do sorriso”, definiu-se, faz algum tempo. Simples, direto, apaixonado, lúcido. Henfil deixou Graúna,. Zeferino, Bode Orelana, Ubaldo, Baixim, Cumprido, muita saudade. Seu traço era tão refinadamente estilizado que até hoje vários profissionais brasileiros o têm como referência

“Fui educado na religião do terror. Essa formação, mistura de puritanismo, tradicionalismo, patriarcalismo e matriarcalismo, aliada a uma terrível fobia por qualquer espécie de pecados, originais, veniais, e mortais, me inoculou magníficas neuroses, responsáveis por toda essa graça...” (Revista Domingo, Jornal do Brasil, 1978)

“Os Fradinhos foram aceitos pelo Sindicato, eu assinei um contrato de 15 anos com os americanos, mas...depois de algum tempo veio a constatação: eram sick. A tradução literal de sick é doente, mas pode ser muito mais. É pornográfico, imoral, escatológico, sádico, neurótico, desajustado. Eles davam opinião e faziam humor com os fatos, de maneira desrespeitosa e sick, contra os padres assépticos e puritanos da grande massa norte-americana” (Sobre sua experiência para produzir cartuns nos EUA, Jornal do Brasil, 1975)

O escritor Dênis de Morais conta a trajetória do cartunista da perigosa expedição pelos porões da ditadura ao mergulho no calvário da Aids, passando pela desilusão precoce com o modelo social – democrata do então principe Fernando Henrique Cardoso e da amizade com o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. O livro O Rebelde do Traço – A Vida de Henfil, com 580 páginas foi lançado pela José Olympio em 1996. “Henfil, seu herói, era rebelde que trabalhava com a indignação, a revolta e a fúria, matérias-primas do panfleto, mas que nele eram fonte de graça. A convivência com a hemofilia lhe deu defesas imunológicas contra a piedade – a alter-piedade e a autopiedade -, fazendo-o tão impiedoso com os outros quanto era consigo mesmo. Nele conviviam, politicamente, o correto e o incorreto. O seu humor era, como dizia, ´pé na cara`. Ao mesmo tempo radical e amoroso, intolerante e generoso, doce e caustico, Henfil foi o humorista do senso incomum, da grossura, da inconveniência, dos gestos escatológicos e do mergulho nas zonas de sombra: do medo, do sadismo, da perversão e da paranoia”, escreveu Zeunir Ventura na orelha do livro de Dênis de Moraes.

Avesso à luta armada, que considerava uma armadilha dos militares para derrotar mais facilmente uma esquerda em frangalhos. Embora estivesse convicto de sua opção pelo humor armado, Henfil ajudou os militantes da Ação Popular e do PC do B de todas as maneiras. Liderava as cotizações para contratar advogados para os presos políticos, escondia militantes em sua casa e servia como motorista, guiando seu próprio carro nas ações dos grupos. Dênis retrata a vida cultural brasileira dos anos 30 e 40 com a biografia de Graciliano Ramos. Em Oduvaldo Vianna, os anos 50 e 60. E rastreando a vida de Henfil conseguiu com fecundidade os anos 60, 70 e 80.

O escritor observa que a vida do barulhento cartunista, “homem multimídia já naquela época”, pode ser resumida em três palavras: comédia, drama e angústia. Comédia quando se pensa nos Fradinhos, Cabôclo Mamadô e seu Cemitério dos Mortos-Vivos e no trio da caatinga – Zeferino, Graúna e Bode Orelana. O drama seria tanto a hemofilia que nunca lhe deu sossego (não podia sequer dar uma topada com medo de hematomas e derrames), quanto o exílio de Betinho, seu irmão mais velho e modelo de vida. Por fim, uma angústia permanente varou-lhe a vida. Angústia por viver em um Brasil que “não era o que ele queria”. “Foi um diabo de humorista e (tudo nele era assim tão contraditório) um anjo muito puro que passou por aqui feito um vendaval escaldante, mas deixando tudo arejado, ventilado. Foi muito rápido”, comentou o desenhista Cássio Loredano.
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23 janeiro 2013

Humor armado de Henfil (3)

No dia 04 de janeiro de 1988 – há 25 anos - morria o cartunista Henfil (1944-1988). Ele teve uma atuação marcante nos movimentos políticos e sociais do país, lutando contra a ditadura, pela democratização do país, pela anistia aos presos políticos e pelas Diretas Já. Com humor mordaz e desenho caligráfico, Henfil destaca-se como um dos militantes mais ativos na resistência ao regime militar. De suas mãos saem personagens antológicos como os fradinhos Baixim e Cumprido, a ave Graúna, o bode Orellana, Capitão Zeferino e Ubaldo, o paranoico, que provocam mudanças na história dos quadrinhos brasileiros não tanto pela inovação formal - apesar de ser marcante o seu traço nervoso e espontâneo -, mas pelo uso dessa linguagem gráfica específica como o melhor suporte para crítica e comprometimento social.

Na sua revista Fradim, lançada em 1978, desenvolveu ao máximo sua arte de quadrinização, conquistando mais leitores com sua série sobre a caatinga, onde Bode Orelana, Zeferino e Graúna ridicularizavam o desenvolvimento do sul maravilha. Ao inundar o país com milhares de cartuns e quadrinhos, o profissional que saiu da província balizou uma trajetória digna da admiração dos seus pares.

Em 1973 partiu para os Estados Unidos, depois de uma longa e desgastante fase de censura no Pasquim. Foi cuidar da hemofilia e “fazer a América”. Chegou a registrar os Fradinhos nos Estados Unidos (os Fradins lá eram conhecidos como The Mad Monks) e a publicar algumas tiras que saíram de circulação por pressão de leitores e editores, que o consideravam sick (doentio) demais. Nesse exílio voluntário, ele descobriu outra faceta do seu múltiplo talento: o de escritor. As cartas que escreveu a familiares e amigos transformaram-se no livro Diário de um Cucaracha, onde contava suas desventuras em terras americanas.

Henfil passou dois anos nos Estados Unidos, sendo duramente criticado por isso. Segundo seus críticos, ele ia em busca de reconhecimento mundial quando na verdade ia apenas tratar de um problema no joelho. Lá, além dos seus próprios problemas de adaptação, teve que enfrentar também o problema de adaptação de seus personagens, tendo preferido não mexer neles e criar um outro para um jornal underground de Nova Iorque, além de colaborar como chargista em um jornal do Canadá.

Foi o único brasileiro a ser aceito pelo mais poderoso sindicato norte americano de cartunistas, UPS (Universal Press Syndicate), que controla a publicação de tiras nos jornais dos EUA. A moral americana rejeitou os fradinhos. Eram sádicos, escatológicos, desajustados, diziam. Mas no Brasil eles seduziram milhares de leitores. Era com eles que Henfil exorcizava as neuroses de sua educação rígida e mostrava a cara de seu País. Cruelmente engraçado. No final dos anos 70 montou um apartamento em São Paulo, levando para morar com ele Angeli, Laerte e Glauco. Morou durante sete anos. Seu trabalho voltou-se exclusivamente para a crítica política.

Nesta época, também interrompeu as publicações da revista Fradim. Embora muitos acreditassem ser obra da Censura, a interrupção, na verdade, foi espontânea e deveu-se a uma decisão particular de Henfil. Foi também neste período que surgiu a oportunidade de Henfil vir a trabalhar como chargista da revista Playboy americana, mas foi rejeitado. O motivo? Suas charges foram consideradas inteligentes demais para o público da revista para o qual, segundo a direção da publicação, só servia entretenimento, coisas que não fizessem pensar muito.

Mas as andanças de Henfil não param por aí. Teve também a época que ele passou morando no Nordeste onde, segundo ele, foi por uma questão de sobrevivência humana, egoística e individual, para resolver problemas de saúde mental e refletir, ficar mais próximo do habitat natural de seus personagens

“Em matéria de humor, sou pela gargalhada pé na cara, franca, espontânea, brasileira;Não admito a sofisticação do sorriso” (Revista de Domingo, Jornal do Brasil, 1978)

Henfil só pôde traduzir os diferentes momentos da época porque os viveu. Ele aproximou-se da militância com o irmão Betinho, militante da Ação Popular. Com o irmão exilado, Henfil visitava presos, participava de reuniões, da reorganização dos sindicatos, das greves, da luta pela Anistia, do surgimento do PT e das Diretas Já. Para ele, “a chave para você fazer humor engajado é estar engajado. Não há chance de você ficar na sua casa vendo os engajamentos lá fora e conseguir fazer algo. Esse talvez seja o humor panfletário. O que você faz de fora”.

Henfil não conseguia fazer um humor panfletário também por causa de sua extrema sensibilidade. Sem “comprar a briga” de uma categoria ou pessoa, ele não se achava em condições de desenhar. Só se vivesse a luta. “Eu ia lá, assistia as reuniões, se eu começasse a me emocionar com a coisa, saía”.

Os traços de Henfil são curtos, rápidos, transmitem força e expressividade. Talvez o maior exemplo de síntese seja mesmo a Graúna, que chegou a ser comparada com um ponto de exclamação. O leve deslocamento de um de seus traços altera seu humor.

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22 janeiro 2013

Humor armado de Henfil (2)

No dia 04 de janeiro de 1988 – há 25 anos - morria o cartunista Henfil (1944-1988). Ele teve uma atuação marcante nos movimentos políticos e sociais do país, lutando contra a ditadura, pela democratização do país, pela anistia aos presos políticos e pelas Diretas Já. Com humor mordaz e desenho caligráfico, Henfil destaca-se como um dos militantes mais ativos na resistência ao regime militar. De suas mãos saem personagens antológicos como os fradinhos Baixim e Cumprido, a ave Graúna, o bode Orellana, Capitão Zeferino e Ubaldo, o paranoico, que provocam mudanças na história dos quadrinhos brasileiros não tanto pela inovação formal - apesar de ser marcante o seu traço nervoso e espontâneo -, mas pelo uso dessa linguagem gráfica específica como o melhor suporte para crítica e comprometimento social.

Seus personagens, habitantes da caatinga seca e árida, passaram a apresentar a contradição do sul maravilha e o mundo bravo do sertão, principalmente mostrando nos personagens Zeferino e Graúna, sendo que esta última ganhou cada vez mais espaço dentro do contexto das tiras inicialmente dedicadas a Zeferino. Além destes há ainda o bode e a onça que são resultado de histórias que ouviu do cantador que também cria bodes, Elomar, conforme contou Henfil: “Ele me falava da sua afeição por alguns deles, principalmente o Francisco de Orelana e enquanto ele falava, fui me lembrando do meu pai, todo o meu passado foi voltando. Quando tive de criar a história eu não sabia bem o que fazer, sabia apenas que os meus símbolos deveriam ser bem brasileiros. Surgiu assim, tudo de repente, e depois eu pesquisei, li Os Sertões, literatura de cordel...”.

Na galeria de personagens criados pela genialidade de Henfil, os Fradins têm um lugar especial. Eles nasceram por imposição de Roberto Drummond, editor da Alterosa, e foram inspirados em dois freis dominicanos mineiros. O Cumprido é o religioso carola e careta, covarde, mas também lírico, romântico e sonhador. Já Baixim é o Henfil pós-freis dominicanos, com uma nova visão de Igreja, que conhece a hipocrisia do mundo e a combate através da ironia e da agressão. Os Fradins têm ainda o mérito de introduzir em páginas impressas expressões como putsgrilla, tutaméia, cacilda, além do gesto simbólico e sua onomatopeia, o top top, que caíram no gosto dos leitores.

Numa entrevista a revista Veja (1971) Henfil revelou: “O Baixinho sou eu. Hoje. O Cumprido também sou eu, numa versão antiga. Vamos dizer que eu andei e o Cumprido ficou para trás. É isso. O Cumprido é como eu era: um cara carola, infantil, ingênuo, aquele mineiro com aquela formação religiosa antiga, mórbida. A religião do terror, na qual tudo é pecado (o raio que está caindo é castigo de Deus). Do pecado mortal, venial e original. O Cumprido ficou nessa fase. Agora eu me identifico com o Baixinho, que é totalmente como eu sou hoje: toda uma negação desse meu passado. E de uma maneira muito agressiva, porque esse meu passado me incomoda bastante (…) O Baixinho procura, através da agressão, do ridículo, me checar e ao meio em que vivo. Já vi: não era anarquizar, agredir essa gente, como o Baixinho agride”.

Acompanhado os dois Fradins, o Preto que Ri, um frei negro, que ri de sua própria desgraça, e o Tamanduá que Chupa Cérebros. O Cabôco estreou no Pasquim em 1972 e de todos os personagens de Henfil foi o que causou mais polêmica e inimizades ao autor. Dono de um cemitério atípico, Cabôco só enterrava pessoas que estavam vivas. Para personalidades públicas que, no entendimento de Henfil, haviam colaborado de alguma forma com a ditadura, caia no cemitério dos mortos-vivas. E o Cabôco tinha como cúmplice o Tamanduá, que sugava cérebros de suas vítimas para conhecer os pensamentos mais escondidos.

FRADIM

Quando decidiu lançar o Fradim em revistas, Henfil criou um elenco de personagens mais leves para acompanhar a publicação. Surgiu Zeferino, um nordestino da caatinga, esfomeado e sedento, acompanhado de uma minuscula graúna, seu único personagem feminino, que após morrer e ressuscitar em três dias, pôs um ovo e gerou a Grauninha, um personagem delicado que morreu de inanição pouco depois. E ainda um bode devorador de livros, Francisco Orelana, vestindo seu constante chapéu coco, e que foi inspirado num bode real, da criação do cantador Elomar Figueira de Mello. Como antagonistas, o onça Glorinha, e Lati, um coronel do interior.

Com o negro Orelhão, criado nas páginas de O Dia, Henfil desenha a crítica social, com um humor direto, falando claramente aos pobres da cidade, sobre seus problemas mais imediatos. Também para esse público surgiram no Jornal dos Spots seus personagens de futebol: Urubu (torcida do Flamengo, composta em sua maioria de negros), Bacalhau (torcida do Vasco, portugueses), Pó de Arroz (torcida do Fluminense, de pessoas ricas), Cri-Cri (torcida do Botafogo, por conta de sua chatice), Gato Pingado (torcida do América, muito pequena). E para os mais intelectualizados Ubaldo, o Paranoico, um personagem criado com a anistia de 1070, e que sempre se recusou a admitir que os tempos estariam mudando. Segundo Márcio Malta, a chave de Henfil para o sucesso popular foi abordar o futebol não só por seu cunho esportivo, mas também pelo mundo real – partindo da esfera econômica – em que chamou atenção para as contradições sociais entre as torcidas.

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