Ele teve papel fundamental em um dos movimentos mais marcantes da música brasileira, a Tropicália. Compositor, cantor, músico, intelectual, político, místico, enfim Gilberto Gil é uma figura complexa e, por vezes, paradoxal. Nos quarenta anos de carreira sempre esteve sob o holofotes da opinião pública para discutir a música popular brasileira, a indústria cultural, o tropicalismo, a problemática da negritude, a meditação e a ciência, a macrobiótica e a tecnologia, o sincretismo religioso e a política, o desenvolvimento de um pensamento ecológico espiritualizado. Assim, ele foi uma figura pública que permaneceu nu, aberto, exposto e disposto ao diálogo.

Quem desejar conhece-lo mais de perto precisa ler seu pensamento de quarenta anos condensado na coletânea de entrevistas que vai de 1967 a 2007. São registros precisos das transformações culturais e políticas acontecidas no Brasil e no mundo. A obra Gilberto Gil organizada por Sérgio Cohn e com apresentação da pesquisadora Ana de Oliveira faz parte da Coleção Encontros da Azougue Editorial. A coleção reúne entrevistas concedidas por intelectuais que contribuíram para a formação da alma brasileira. São depoimentos relevantes nos quais o leitor pode acompanhar opiniões, mudanças de comportamento e pensamento, transformações culturais e evoluções seletivas a períodos distintos. A série foi inaugurada com o lançamento de coletâneas de entrevistas de Vinícius de Moraes, Milton Santos, Rogério Sganzerla, Darcy Ribeiro e Jorge Mautner.
A partir das entrevistas com Gil, é possível entender os motivos que levaram à criação da Tropicália, as transformações ocorridas durante seu exílio em Londres e sua volta ao Brasil em 1972, a evolução da discussão acerca da discriminação das drogas – desde o episódio da prisão do compositor em 1976 até os dias de hoje, o contato com a música africana, a inscrição na política tradicional, a preocupação com a diversidade cultural e as novas tecnologias, antes e após o cargo ministerial, além de uma vasta reflexão sobre sua trajetória artística.
Sempre disposto a descobrir e a percorrer novos rumos, Gil mostra sua origem interiorana na Bahia, seu encantamento juvenil por Luiz Gonzaga, o impacto da descoberta dos Beatles e de Jimi Hendrix no final dos anos 60, seus medos e arrebatamentos nas batalhas tropicalistas, sua guinada espiritual e a reinvenção pessoal durante o exílio em Londres, o retorno e o mergulho na cultura africana, sua fase pop e atuação na esfera política.
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Recusando-se a obedecer a lógicas pré-estabelecidas, em 1979 ele já dizia “não sinto nem o dever de estar correto, porque não acho que seja possível todo mundo estar correto a respeito de tudo o tempo todo, nessa diversificação absurda que é o mundo de hoje”. E, em 2004, reafirmou: “não queremos estar sempre certos, queremos estar certos e errados, queremos estar completos”.
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