28 março 2019

Salvador sob o signo de Áries


A cidade comemora amanhã, sexta, 29 de março, 470 anos e fundação e suas características têm muito da natureza do seu signo, que é o fogo. Pelo dia, mês e ano da fundação da cidade sabemos que vivemos num pedaço de terra relacionado com Áries, o primeiro signo do zodíaco, baseado com o nascimento. Salvador tem muito da natureza do seu signo, que é fogo. Aqui há um movimento grande de energia e as coisas têm uma tendência à instabilidade. Nada é duradouro.



No mapa astral da cidade se constata que as coisas nesse território crescem e desaparecem com a mesma rapidez. Diferente do que vemos em outras cidades, onde há uma tendência em se conservar o que foi realizado. Convivemos com um espírito de destruição. E isso, segundo os astrólogos, estaria relacionado ao planeta Marte, ligado a Áries.



A influência de Marte sobre nós habitantes é de ímpeto com muita agressividade. Isso vale também para o ritmo de Salvador. As coisas em nossa terra não acontecem por acaso. Sob o signo de Áries, a cidade está ligada à primavera, que também representa nascimento. Como as flores, as realizações em Salvador surgem, crescem, embelezam e acabam. Nesse movimento astral, que influencia todos nós seres humanos aqui na terra, os governantes e a população precisam se unir para trabalhar no sentido de conservar o que é feito em Salvador. O descompromisso das metas a serem alcançadas recai, sobretudo, sobre os governantes e o poder público.



DIZIMADOS – Doze mil anos antes da chegada dos portugueses, os povos originários, chamados de índios pelos portugueses, foram à quase dizimação num curto intervalo de cerca de um século, o XVI. Mas o espírito festivo e alegre dos índios, que gostavam de cantar e dançar em grandes rodas, é um traço característico dos soteropolitanos. A cidade surgiu e para proteger os lucros do rei de Portugal, dom João III.



A cidade do Salvador nasceu mais fortaleza do que cidade protegida pelos baluartes de São Jorge, São Tomé e São Tiago, em direção ao mar, parte vulnerável a invasões.



Salvador figurava, no final do século XVII, como importante sede da América. Com o declínio do açúcar, o poder muda de cidade. Salvador é substituída pelo Rio de Janeiro no posto de capital da mais importante colônia lusitana. Durante o período colonial, Salvador passou por vários acontecimentos alegres, mas também trágicos acometeram sua população – a falta de higiene e saneamento foram as principais causas das epidemias frequentes até o século XVIII. O saneamento é um dos problemas em muitas localidades e a invasão da dengue mostra como a cidade hoje continua frágil.



Distorções sociais que marcaram as relações entre indígenas, europeus e africanos desde o século XVI, estão presentes até hoje na cidade e são traço de sua identidade. Em Salvador há bairros com a qualidade de vida de países desenvolvidos e outros iguais aos piores índices da África. Mesmo com todas as dificuldades, desigualdades e injustiças sociais, a geografia da cidade, com altos e baixos deixam ver ângulos cheios de novidades e encantos. Esse povo de ascendência indígena, africana e europeia é alegre, cordial e com vontade de viver. Uma alta estima que o faz viver mesmo com todas as contradições. O futuro da cidade depende de projeto e ações de todos. (Texto escrito originalmente em 2016)


26 março 2019

Viagem musical pela Bahia (2)


O cantor e compositor Moraes Moreira canta em alto e bom som “eu gosto de ser baiano/ai, ai Bahia/andoperguntando/quem é que não poderia...”. E das músicas que compôs, ele informa que “Chame Gente” é a que melhor retrata o Estado, fala da mistura de raça e da forma que o baiano encara a vida, apesar das dificuldades:

 


 “Ah! imagina só que loucura/essa mistura/alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia/de todos os santos, encontros e axé/sagrado e profano/o baiano é Carnaval//No corredor da história/Vitória, Lapinha, Caminho de Areia/pelas ruas, pelas veias, escorre/o sangue e o vinho, pelo mangue, Pelourinho/a pé ou de caminhão não pode faltar a fé, o Carnaval vai passar/da Sé ao Campo Grande/somos os Filhos de Gandhy,/de Dodô e Osmar”.



Um dos locais mais conhecidos de Salvador e famoso no Carnaval das décadas de 70 e 80 foi cantado pelo santo amarense Caetano Veloso: “A praça Castro Alves é do povo/como o céu é do avião/um frevo novo/eu quero um frevo novo/todo mundo na praça/muita gente sem graça no salão”.

 


Outro local popular, sede do bloco afro Ilê Ayê, foi saudado pelo compositor Gerônimo: “Eu sou negão/meu coração é Liberdade/sou do Curuzu, Ilê”. Já Gilberto Gil cantou o misticismo do povo baiano em “Eu Vim da Bahia”:



“Onde a gente não tem pra comer, mas de fome não morre/porque a Bahia tem mãe Yemanjá/do outro lado o Senhor do Bonfim/que ajuda o baiano a viver”.



E até Ivete Sangalo  concluiu: “Falar o quê/quando pisa nessa terra/alegria toma conta de você”. E assim, dos antigos aos atuais compositores, a Bahia continua na boca do povo.

 


Um dos poucos que ousaram cantar o outro lado da Bahia foi o poeta Gregório de Mattos (1636-1696) que compôs o soneto Triste Bahia. O poema adquiriu popularidade quando foi gravado por Caetano Veloso em 1972: 



“Triste Bahia! Oh quão dessemelhante/estás e estou do nosso antigo Estado/pobre de ti vejo a ti/tu a me empenhado...”, dizia os primeiros versos do poeta que ficou conhecido como Boca do Inferno.





Apesar das belezas e inspirações, a Bahia ainda é um dos estados mais violentos do Brasil:



Viagem musical pela Bahia (1)


Berço da brasilidade, a Bahia se tornou uma imagem idílica para os brasileiros. Estereótipos como o da preguiça, do tempero ou do suingue baiano rondam o imaginário popular e são usados pelos próprios baianos como forma de autopromoção. “Baiano não nasce, estreia” é uma das frases utilizadas para mostrar a artisticidade inata do povo local. A Bahia, terra de filhos ilustres em todas as áreas da cultura, é cantada por seus admiradores, baianos ou não.



Quando se apresentava na rádio Sociedade da Bahia, na década de 1940 o sambista Riachão ficou conhecido como o cronista musical da cidade. Isso porque, além de compor músicas que tem Salvador como cenário, Riachão costuma falar de fatos que aconteceram nesses lugares, como o de uma baleia que foi exposta na Praça da Sé. Seu primeiro CD lançado em 2000, canta Salvador num estilo que ele chama de samba cartão postal. As imagens dos bairros e das ruas da cidade são cantadas de um modo que faz o ouvinte ter a sensação de percorrer os lugares citados: “Quem chega na Praça Cayru/olha pra frente o que é que vê/vê o elevador Lacerda/que vive a subir e a descer/É o retrato fiel da Bahia/baiana vendendo alegria/coisinha gostosa de dendê/acarajé ôô

ôô”.

 


O bairro de Itapuã cantada em música de Dorival Caymmi como uma bucólica vila de pescadores já não é mais a mesma, mesmo assim o local ainda é uma referência. “Saudade de Itapuã” (Caymmi) e “Tarde em Itapuã” (Vinícius de Moraes e Toquinho) são músicas emblemáticas. O bairro perdeu a tranquilidade de outrora, mas os compositores cantaram o local da época deles. O local era de veraneio para os soteropolitanos na época de Caymmi, anos 30 e 40. Nos anos 60 e 70, quando Vinícius morou lá, já havia uma avenida que ligava a cidade à antiga vila, mas o local ainda era vasto como um recanto.



Na letra do samba "Você já foi à Bahia?" é iniciada com uma pergunta: "Você já foi a Bahia, nega?" e em seguida são listados vários argumentos para convencer a "nega" - e a todos os seus ouvintes - a irem à Bahia. Aspectos diferentes do estado são salientados na letra: motivos de ordem religiosa, ao mencionar a Igreja do Senhor do Bonfim e das graças que alcançará quem visitá-la; a típica culinária baiana como vatapá, caruru, mungunzá; a diversão através do samba; e por fim motivos históricos são alegados como a memória do tempo do Império, com suas donzelas, através da arquitetura da "cidade velha". Tudo é motivo para se visitar a Boa Terra. Ao fim do samba o afeto do compositor transparece quando revela que não há terra como a Bahia.

 


Os autores de algumas das mais famosas (e apaixonadas) músicas sobre a Bahia não nasceram lá. Trata-se do mineiro Ary Barroso, que passou apenas alguns dias na capital baiana, e do paulista Denis Brian. Compositor de “Bahia com H”. Na música, Brian pede licença para se declarar ao Estado: “Dá licença de gostar um pouquinho só/a Bahia eu não vou roubar tem dó/e já disse o poeta/que terra mais linda não há/isso é velho e do tempo em que já se escrevia Bahia com H”. Ele também canta as paisagens soteropolitanas: “Deixa ver, Baixa dos Sapateiros, Charriot, Barroquinha, Calçada, Taboão..../deixa ver, teus sobrados, igrejas/teus sambas, ladeiras/e montes tal qual um postal”.





Já as canções de Barroso, tais como “No Tabuleiro da Baiana”, “Quando em Penso na Bahia” e “Baixa dos Sapateiros”, fazem o ouvinte percorrer um itinerário geográfico musical pela Bahia, mais precisamente por Salvador, o que faz com que muitos turistas já cheguem à cidade cantarolando as músicas. “Na Baixa do Sapateiro encontrei um dia/a morena mais frajola da Bahia/pedi-lhe um beijo, não deu/pedi-lhe um abraço, não quis,/pedi-lhe a mão, não quis dar, fugiu://Bahia, terra da felicidade”.

 


E quem não se lembra de Gordurinha cantando “o pau que nasce torto/não tem jeito, morre torto/baiano burro, garanto que nasce morto/sou da Bahia e comigo não tem horário/não sou otário ninguém pode me zombar/sou cabra macho, sou baiano toda hora/meio dia, duas horas, quatro e meia, o que é que há/cabeça grande é sinal de inteligência/eu agradeço a providência, ter nascido lá/salve a Bahia Ioiô/Salve a Bahia Iaià”.






25 março 2019

Viagem musical pela Bahia (1)


Berço da brasilidade, a Bahia se tornou uma imagem idílica para os brasileiros. Estereótipos como o da preguiça, do tempero ou do suingue baiano rondam o imaginário popular e são usados pelos próprios baianos como forma de autopromoção. “Baiano não nasce, estreia” é uma das frases utilizadas para mostrar a artisticidade inata do povo local. A Bahia, terra de filhos ilustres em todas as áreas da cultura, é cantada por seus admiradores, baianos ou não.

 


Quando se apresentava na rádio Sociedade da Bahia, na década de 1940 o sambista Riachão ficou conhecido como o cronista musical da cidade. Isso porque, além de compor músicas que tem Salvador como cenário, Riachão costuma falar de fatos que aconteceram nesses lugares, como o de uma baleia que foi exposta na Praça da Sé. Seu primeiro CD lançado em 2000, canta Salvador num estilo que ele chama de samba cartão postal. As imagens dos bairros e das ruas da cidade são cantadas de um modo que faz o ouvinte ter a sensação de percorrer os lugares citados: “Quem chega na Praça Cayru/olha pra frente o que é que vê/vê o elevador Lacerda/que vive a subir e a descer/É o retrato fiel da Bahia/baiana vendendo alegria/coisinha gostosa de dendê/acarajé ôô

ôô”.

 


O bairro de Itapuã cantada em música de Dorival Caymmi como uma bucólica vila de pescadores já não é mais a mesma, mesmo assim o local ainda é uma referência. “Saudade de Itapuã” (Caymmi) e “Tarde em Itapuã” (Vinícius de Moraes e Toquinho) são músicas emblemáticas. O bairro perdeu a tranquilidade de outrora, mas os compositores cantaram o local da época deles. O local era de veraneio para os soteropolitanos na época de Caymmi, anos 30 e 40. Nos anos 60 e 70, quando Vinícius morou lá, já havia uma avenida que ligava a cidade à antiga vila, mas o local ainda era vasto como um recanto.

 


Na letra do samba "Você já foi à Bahia?" é iniciada com uma pergunta: "Você já foi a Bahia, nega?" e em seguida são listados vários argumentos para convencer a "nega" - e a todos os seus ouvintes - a irem à Bahia. Aspectos diferentes do estado são salientados na letra: motivos de ordem religiosa, ao mencionar a Igreja do Senhor do Bonfim e das graças que alcançará quem visitá-la; a típica culinária baiana como vatapá, caruru, mungunzá; a diversão através do samba; e por fim motivos históricos são alegados como a memória do tempo do Império, com suas donzelas, através da arquitetura da "cidade velha". Tudo é motivo para se visitar a Boa Terra. Ao fim do samba o afeto do compositor transparece quando revela que não há terra como a Bahia.



Os autores de algumas das mais famosas (e apaixonadas) músicas sobre a Bahia não nasceram lá. Trata-se do mineiro Ary Barroso, que passou apenas alguns dias na capital baiana, e do paulista Denis Brian. Compositor de “Bahia com H”. Na música, Brian pede licença para se declarar ao Estado: “Dá licença de gostar um pouquinho só/a Bahia eu não vou roubar tem dó/e já disse o poeta/que terra mais linda não há/isso é velho e do tempo em que já se escrevia Bahia com H”. Ele também canta as paisagens soteropolitanas: “Deixa ver, Baixa dos Sapateiros, Charriot, Barroquinha, Calçada, Taboão..../deixa ver, teus sobrados, igrejas/teus sambas, ladeiras/e montes tal qual um postal”.





Já as canções de Barroso, tais como “No Tabuleiro da Baiana”, “Quando em Penso na Bahia” e “Baixa dos Sapateiros”, fazem o ouvinte percorrer um itinerário geográfico musical pela Bahia, mais precisamente por Salvador, o que faz com que muitos turistas já cheguem à cidade cantarolando as músicas. “Na Baixa do Sapateiro encontrei um dia/a morena mais frajola da Bahia/pedi-lhe um beijo, não deu/pedi-lhe um abraço, não quis,/pedi-lhe a mão, não quis dar, fugiu://Bahia, terra da felicidade”.

 


E quem não se lembra de Gordurinha cantando “o pau que nasce torto/não tem jeito, morre torto/baiano burro, garanto que nasce morto/sou da Bahia e comigo não tem horário/não sou otário ninguém pode me zombar/sou cabra macho, sou baiano toda hora/meio dia, duas horas, quatro e meia, o que é que há/cabeça grande é sinal de inteligência/eu agradeço a providência, ter nascido lá/salve a Bahia Ioiô/Salve a Bahia Iaià”.


20 março 2019

Outono: estação da nostalgia


No outono (começa hoje, dia 20 de março e termina dia 20 de junho) os dias ficam mais curtos e mais frios, anoitece mais cedo. Depois de tanto calor nada como uma brisa fresca. Sinal que o outono está chegando. As folhas de muitas árvores, arbustos e outras plantas começam a pintar-se de muitas cores: amarelo, castanho e vermelho. Todas vão cair ao longo dos meses de março, abril, maio e junho e cobrir o chão dos parques e das ruas, formando tapetes coloridos. As frutas, já amadurecidas, também começam a cair no chão.



Esta é a época das grandes colheitas. Isto por que os países do hemisfério sul precisam se preparar para o inverno que vem chegando. É necessário armazenar bastante comida para que nada possa faltar. O outono é a natureza a envelhecer. Diz-se que uma pessoa está no “outono da vida” quando a sua idade se aproxima da velhice. É tempo de hortência, azaleia, flor de maio e margarida.



Quando o verão passa para o outono, a energia da terra se transforma em metal. Nessa fase a energia começa novamente a se condensar, se contrair, voltar-se para dentro para acumular e se armazenar, assim como armazenamos nossos alimentos no outono, para sobreviver no inverno. É a fase de liberar tudo que está gasto como as folhas das árvores que caem para poupar a essência, que é então armazenada para suportar a fase não produtiva da água, do inverno. Se nesta fase não houver bastante energia para contrair, não haverá força suficiente para passar o inverno e o próximo ciclo da madeira primavera será fraco. A energia do metal controla o pulmão, que extrai a energia essencial e expele as toxinas do sangue e do intestino grosso, que elimina a sujeira pesada enquanto retêm e recicla toda a água do organismo.



A cor da fase metal é o branco, que dá origem a todas as cores, cor da pureza e da essência, relacionada com a espiritualidade. O outono é a estação da introspecção e da meditação, de reciclar sentimentos antigos, apegos externos e o excesso de emoções adquiridas durante o verão, assim como as árvores se livram das folhas secas e buscam os nutrientes de suas raízes. Se resistirmos a esta energia e ficarmos aprisionados no passado podemos criar estados de melancolia, de tristeza e de depressão que se manifestam em dificuldades respiratórias, dores nas costas, problemas de pele e baixa resistência a doenças. Assim como o metal é a energia refinada extraída da terra e lapidada pelo fogo, o outono é a estação onde devemos extrair aprendizagens das atividades e experiências do verão, transformando-as na quietude e sabedoria do inverno.



O outono chega e, com ele a brisa que nos percorre o corpo ainda quente, vamos aos poucos começar a acalmar depois de tanta energia consumida no verão. As primeiras folhas caem no chão, sabemos que agora começa a época de acalmar de novo, de voltar a pôr os pés no chão ao mesmo tempo que vamos saboreando e recordando as emoções que acabamos de sentir no pico do verão. Procuramos o melhor aconchego, descansando um pouco pra que as forças regressem para um novo ciclo. Estamos no momento de reflexão e relaxamento após o êxtase, estamos a saborear tudo o que vivemos e a incorporar em nós o que aprendemos. É o fim de um ciclo e o preparar um novo ciclo. Um ciclo se encerra e outro vai começar.



No outono, as folhas de muitas plantas caem, porque aqui se completa seu ciclo de vida. Como esta estação antecede ao inverno, alguns animais já se previnem hibernando, enquanto outros constroem esconderijos. A temperatura começa a cair, e a paisagem adquire um tom ocre. É a estação da nostalgia. Os resíduos do verão ainda passeiam por entre as cores e os comportamentos, mas o aconchego do inverno já espreita e, timidamente vai se tomando o seu espaço.



O amor no outono se reveste de sinais: sorrisos repentinos, olhar de devaneio, suspiros de veludo, taquicardia, calafrios no estômago, sonhos acordados e uma sensação de estar em outra galáxia. O sentimento nessa estação da vida possui os mesmos idênticos sintomas de qualquer outra época porque ele não tem idade. Quando o amor acontece, desperta o melhor de cada ser, sublima o que estava encerrado a sete chaves, abre janelas, areja todos os cantos da alma, sacode poeiras e dá sentido a todas as coisas. Ele é soberano e sábio. Escolhe seus parceiros e lhes oferece a chance da felicidade. O amor outonal é conquista, é direito adquirido, é superação, é serenidade. (Texto escrito em 2006)
















19 março 2019

Faz 30 anos que Leminski se foi. Vamos lembrá-los através de seus poemas








Tarde de vento.

Até as árvores

querem vir para dentro.




Ameixas


ame-as

ou deixe-as 




Tudo o que eu faço

alguém em min que eu desprezo

sempre acha o máximo





Vai ver o dia

quando tudo o que eu diga

seja poesia





SE



se

nem

for

terra

se

trans

for

mar





 








Amor bastante



quando eu vi você

tive uma idéia brilhante

foi como se eu olhasse

de dentro de um diamante

e meu olho ganhasse

mil faces num só instante





basta um instante

e você tem amor bastante







um bom poema

leva anos

cinco jogando bola,

mais cinco estudando sânscrito,

seis carregando pedra,


nove namorando a vizinha,

sete levando porrada,

quatro andando sozinho,

três mudando de cidade,

dez trocando de assunto,

uma eternidade, eu e você,

caminhando junto







DESENCONTRÁRIOS




Mandei a palavra rimar,

ela não me obedeceu.

Falou em mar, em céu, em rosa,

em grego, em silêncio, em prosa.

Parecia fora de si,

a sílaba silenciosa.





Mandei a frase sonhar,

e ela se foi num labirinto.

Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.

Dar ordens a um exército,

para conquistar um império extinto.





RAZÃO DE SER



Escrevo. E pronto.

Escrevo porque preciso,

preciso porque estou tonto.

Ninguém tem nada com isso.

Escrevo porque amanhece,

E as estrelas lá no céu

Lembram letras no papel,

Quando o poema me anoitece.

A aranha tece teias.

O peixe beija e morde o que vê.

Eu escrevo apenas.



Tem que ter por quê?




14 março 2019


Há 80 anos nascia Glauber Rocha



Ele era capaz das mais apaixonadas adesões e das mais enfáticas críticas a amigos e inimigos. Fazia filmes ao mesmo tempo reflexivos, políticos e formalmente inovadores. Dava declarações sinceras sobre tudo, sem a preocupação de agradar a ninguém, a não ser à sua integridade intelectual. Era um sujeito anacrônico. Para ele, era preciso, urgente, desenvolver o conhecimento da cultura brasileira, vasculhar as raízes, revolver o passado, por mais trabalho que desse. Ele nasceu no dia 14 de março de 1939, há 80 anos.

 


Ideias na cabeça nunca lhe faltaram: o que tinha faltado, muitas vezes, era a câmara na mão. E as mão, desocupadas, pareciam embaralhar-lhe, muitas vezes, as ideias na cabeça. O remédio, portanto, era botar sempre uma câmara nas mãos desse que foi, no mínimo, a figura mais instigante do cinema brasileiro: Glauber Rocha.



O inventor do Cinema Nova, de Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e de Cabeças Cortadas morreu aos 42 anos. Em seu último filme, A Idade da Terra, numa narração lida por ele mesmo, Glauber diz: “O homem é mais forte que a morte”. Enfant terrible do cinema brasileiro, gênio segundo muitos. Indiscutivelmente, o maior mito do cinema novo.

 


Glauber era um artista, radical, livre e longe das ponderações e conciliações dos políticos. Escreveu sobre o cinema brasileiro com suas dores e contorções. Nas ruas aprendeu o diabo e Deus naqueles chãos de febre, necessidade e sonho, entre livre atiradores, pedintes, passantes, tiros a êsmo e desempregados crônicos – era o cinema nacional.



Considerado o mais amado e odiado cineasta brasileiro, era visto pela ditadura militar, que se instalou no país em 1964, como um elemento subversivo. Ao longo de sua carreira, fez 11 longas e seis curtas, tendo a luta pela liberdade como tema recorrente. Liderou o movimento do Cinema Novo, que buscava quebrar radicalmente com o estilo cinematográfico norte-americano, notadamente a narrativa clássica hollywoodiana.

 


Glauber de Andrade Rocha nasceu no dia 14 de março de 1939, em Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia. Na época, a fazenda de seu avô em Cafarnaum não existia mais. Ela havia servido de esconderijo a jagunços e pistoleiros, o que deu origem a histórias fantásticas que povoaram a infância do menino. Estudante em Salvador, ele fundou e presidiu o cineclube Clube Western. Foi o primeiro contato com o cinema.

 


Antes de estrear na realização de uma longa-metragem (Barravento, 1961), Glauber Rocha realizou vários curtas-metragens, ao mesmo tempo que se dedicava ao cineclubismo e fundava uma produtora cinematográfica. Em 1958, filma seu primeiro curta, “Pátio”, com Solon Barreto e Helena Ignez. Esse curta metragem prenunciava o seu compromisso com uma nova linguagem e o introduzia no mundo mítico do cinema mítico até ´para ele: “Cinema para mim é algo sagrado. Eu sei que nem todo mundo pensa assim, mas, para mim, cinema é realmente algo sagrado. Mas é preciso entender que cinema é pintura em movimento com som. O cinema baseado na estrutura do diálogo é o anticinema”. Em O Pátio ele revelava sua preocupação com a pesquisa da linguagem.