10 abril 2007

Perdemos o delator da simulação midiática (2)

A idéia que desenvolve em Simulacros e Simulação é a de que o que nós vemos como realidade não passa de sinais e símbolos (simulacros) que apenas simulam a realidade. Vivemos, de certa forma, um mundo de relações artificiais, sem real conteúdo por baixo. Daí para imaginar um mundo dominado por computadores que injetam na cabeça das pessoas uma “realidade falsa” – a idéia central de Matrix – foi o passo dos irmãos Wachowski. “Bem vindo ao deserto do real”, frase que Morfeu diz a Neo em certa cena do filme, é também frase dos livros do próprio Baudrillard. E nos primeiros minutos do primeiro filme Matrix, em que o hacker Neo é acordado em seu apartamento por amigos que lhe pedem um disco, o personagem de Keanu Reeves recebe seu pagamento e vai buscar seus programas de paraísos artificiais no fundo falso do livro “Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard. O filósofo diz ter assistido ao filme dos irmos Wachowski mas não gostou. “Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade. Os diretores se basearam em meu livro mas não o entenderam”, disse certa vez.

No livro A Transparência do Mal (1970) ele não hesitou em exumar o pensamento reacionário do filósofo francês Joseph de Maistre: “É preciso viver inteligentemente com o sistema, mas revoltar-se com suas conseqüências. É preciso viver com a idéia de que sobrevivemos ao pior”, assegurou. Já no provocativo livro A Guerra do Golfo não Aconteceu (1991) ele afirmou que, no confronto entre os aliados e o governo de Saddam Hussein, o perdedor não havia sido derrotado (pois o ditador iraquiano continuou no poder) e os vencedores não haviam sido vitoriosos.

Na obra O Crime Perfeito (1995), Baudrillard descreve o “assassinato da realidade” pelas teorias intelectuais, pelo mundo virtual e pelas conquistas tecnológicas. “Todos os nossos valores não passam de simulacros”, afirmava ele. A superpotência EUA era, para ele, uma utopia tornada realidade, mas – por outro lado – uma “simulação do poder” que não serviria como ideal de democracia. “O que significa liberdade? Ter a opção de comprar um carro ou outro? Essa é uma liberdade ilusória”.

Sua provocante tese gerou controvérsia como a da “nulidade” da arte moderna. Em Madonna Deconnection (1996) ele analisa a imagem da cantora Madonna para discutir sexo na mídia e luta de gêneros. Em meados dos anos 80 uma viagem aos Estados Unidos o impressionou. “Os Estados Unidos são a utopia realizada”, disse. Anos depois, seu interesse pela atualidade resultou em Réquiem pelas Torres Gêmeas, escrito um ano depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque. Por sua análise da lógica do terrorismo, Baudrillard chegou a ser acusado de simpatia pelos terroristas. “Sou terroristas no sentido de que tento ler o terrorismo lá onde ele está”, replicou ele. Para Baudrillard, o terrorismo está “em toda parte, em forma de vírus ou na forma de evento”, sendo que os terroristas teriam feito “o que queríamos”. Segundo sua apresentação, o Ocidente substituiu Deus pelas máximas da globalização e declarou guerra contra si mesmo de uma forma suicida. “O inimigo está no cerne da cultura que o combate”, conclui ele.

Em seu ensaio O Espírito do Terrorismo (2002) ao descrever os ataques de 11 de Setembro como “o acontecimento absoluto” voltou a causar polêmica. Para ele, não se tratava de um choque de civilizações ou religiões, e sim da reação “simbólica” à contínua expansão de um mundo baseado unicamente no intercâmbio comercial. O que faz do 11 de Setembro o “acontecimento absoluto”, segundo ele, é o fato de ser o cenário onde a triunfante globalização combate a si mesma, e “as torres caem por seu próprio peso”.

Niilista por uns, moralistas por outros, Baudrillard foi muito criticado. O físico Sokal atacou seu estilo “difícil e vazio”. “No fim das contas, pergunte o que restará do pensamento de Baudrillard se retirarmos todo o esmalte que o recobre”, escrevera, em 1997, os pensadores Alan Sokal e Jean Bricmont. “A covardia intelectual é a verdadeira disciplina olímpica dos nossos dias” dizia Baudrillard que não esperava muito de seus contemporâneos.

Mas a importância de Baudrillhard como destruidor de fetiches contemporâneos permanece inatacável. “Jean Baudrillard foi o maior iconoclasta de nossa época, o supremo especialista em rasgar máscaras e desmascarar fetiches. Fez um trabalho absolutamente necessário em um mundo obcecado pelas imagens, em que a condição preliminar para qualquer tentativa de melhorar a situação é resistir ao poder sedutor das imagens e escapar de seu encantamento. Realizar à perfeição em tarefa de limpar o terreno. Mas parou nesse ponto. Ao levar as iniciativas iconoclastas além de seus limites anteriores, aproximou-se perigosamente do niilismo”, defendeu o sociólogo polonês radicado na Inglaterra, Zygmunt Bauman, autor de “Vida Líquida”.

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