09 abril 2007

Perdemos o delator da simulação midiática (1)

O filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard morreu no dia 06 de março em Paris aos 77 anos de idade deixando uma crítica extremamente atual contra a sociedade de consumo e a manipulação da mídia. Para ele, o gesto humanitário era de causar aversão; a democracia, um jogo virtual de sombras; o mundo do consumo, um jogo ilusório. Escritor de mais de 50 livros, Baudrillard era conhecido por sua crítica ferrenha da sociedade contemporânea – da publicidade, do jornalismo, da política, dos EUA e, basicamente, de tudo mais. Ele foi um dos intelectuais mais midiáticos das últimas décadas. Sua escrita irônica, e suas idéias sobre a substituição do real por simulacros fizeram com que sua influência ultrapassasse a academia, a ponto de seu pensamento ter inspirado obras como o filme “Matrix”.

O francês sempre negou que fosse inspiração para o filme, dizendo que tinha sido mal interpretado. Disse que preferia outros filmes que representavam melhor a relação entre o real e os simulacros como “O Show de Truman”, com Jim Carrey, “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch e “Minority Report”, de Steven Spielberg

Baudrillard nasceu em 1929, na zona rural de Reims, França. Estudou alemão na Sorbonne e trabalhou como crítico e tradutor, tendo vertido para o francês, obras de Karl Marx e Beltolt Brecht. O movimento estudantil e as discussões sobre marxismo e psicanálise marcaram o sociólogo. Posteriormente, sob influência do mentor da Pop Art, Andy Warhol, viria a refletir sobre a sociedade de consumo e seus símbolos, formulando uma crítica veemente em seu primeiro ensaio, Sistema dos Objetos (1968). Para Baudrillard, a liberdade do consumidor era uma ilusão, pois o mundo hiper-real seduz e manipula o comprador.

Ele se voltava contra a compatibilidade mercadológica dos meios de comunicação. Em sua aguda crítica à mídia, Baudrillard denuncia que as imagens por ela esboçadas são mais poderosas que a realidade. Constatando que o abismo entre verdade e símbolo implica a perda de liberdade, a ambição do filósofo era reaproximar esses dois pólos.

Seus dois livros seguintes, A Sociedade de Consumo (1970) e Por Uma Crítica da Política Econômica do Signo (1972) era voltada para um estudo simbólico do consumo. Ele afirmava que os objetos não possuem apenas um valor de uso (sua finalidade) e um valor de troca (seu preço), como queria a teoria econômica clássica, mas também um valor de signo, por meio do qual eles atribuem um determinado status aos seus proprietários. Esse valor, de signo, para Baudrillard, era o impulso determinante das práticas de consumo da sociedade contemporânea, que ele considerava danosas e associava a rituais de destruição de riquezas observados em sociedade primitivas.

A noção de simulacro proposta por Baudrillard para explicar a paisagem pós-industrial, se dirige contra o apagamento dos limites entre o real e suas representações. Para ele, lidamos em nosso cotidiano apenas com um código (e não com realidades palpáveis). A era de reprodução técnica do mundo se intensificou a ponto de assimilar o existente a um sistema de signos que cancela a própria idéia de original dos objetos naturais que a linguagem representaria.

As posições do sociólogo francês sempre o colocaram na linha de frente do debate público. Nos anos 70 previu que a Guerra do Vietnã seria um “álibi” para os EUA incorporarem a China e a Rússia. Já na Guerra do Golfo (1991) ele afirmou “não existir” diagnosticando o caráter “cirúrgico” de uma guerra “virtual”, em que “o inimigo não é mais do que um número no computador”. Após o 11 de Setembro, previu o fim das mitologias do futuro” – “o progresso, a tecno-ciência e a história”.

Na década de 80 Baudrillard se aprofundou nos estudos dos meios de comunicação e sua influência na construção das relações sociais. Na obra Simulacro e Simulação (1981) ele afirmava que o excesso de informações transmitidas pelos meios de comunicação havia produzido uma erosão do sentido e um apagamento do mundo real. E descreveu esse estado como “hiper-realidade”, situação em que o mundo real era substituído pelo dos simulacros.

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