03 agosto 2018

A invenção do Nordeste (3)


Durval Muniz de Albuquerque Jr informa ainda que no Sul, a partir da década de 20, pensa-se a identidade nacional dividida em pólos antagônicos. São Paulo, Pernambuco e Bahia são tomados como células iniciais do tecido nacional. O discurso histórico centra-se na história dessas três áreas, para construir a história do Brasil. “O Brasil seria um país cindido entre a inteligência do Sul, mais bem aparelhada em seus conceitos de realidade; e, de outro lado, o ´nortista´, fantasioso, imaginoso e sensitivo, delirante e compadecido. Razão e sentimento, dilema em que se cindia a identidade nacional, representada pela divisão entre suas duas regiões”. E assim ele apresenta o pensamento de Menotti del Picchia, Mario e Oswald de Andrade, Amadeu Amaral, entre outros. Para o estudioso, o Nordeste, espaço da saudade, da tradição, foi também inventado pelo romance, pela música, pela poesia, pela pintura, pelo teatro etc.

O Nordeste como o lugar da tradição é sempre tematizado como uma região rural, onde as cidades aparecem, como símbolo da decadência, do pecado, do desvirtuamento da pureza e d inocência camponesa. Embora muito antigo, o fenômeno urbano e metropolitano no Nordeste é praticamente ignorado por sua produção artística e literária. Sendo o local de uma das primeiras manifestações industriais no país, a indústria é vista com desconfiança, como um corpo estranho numa “região agrícola”. “Olhar o Nordeste da cidade grande é como olhar do lado averso de um binóculo. Tudo longe, muito embaraçado”. Em algumas formulações, o Nordeste aparece como o mundo “primitivo”, em oposição à degenerescência do mundo “civilizado”.



Para o doutorado em História na Unicamp, e professor das universidades federais do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, os romances der Graciliano Ramos e Jorge Amado. Da década de 30, a poesia de João Cabral de Melo etc, a pintura de caráter social, da década de 40, e o Cinema Novo, do final dos anos 50 e início dos anos 60, tomarão o Nordeste como o exemplo privilegiado da miséria, da fome, do atraso, do subdesenvolvimento, da alienação do país. “Tomando acriticamente o recorte espacial Nordeste, esta produção artística ´de esquerda´ termina por reforçar uma série de imagens e enunciados ligados à região que emergiram com o discurso da seca, já no final do século passado. Vindo ao encontro, em grande parte, da imagem de espaço-vítima, espoliado; espaço da carência, construído pelo discurso de suas oligarquias. Eles lançam mão de uma verdadeira mitologia do Nordeste, já fabricada pelos discursos anteriores, e a submete a uma leitura ´marxista´que a inverte de sentido, mantendo-a, no entanto, presa à mesma lógica e questões. Do Nordeste pelo direito, passamos a vê-lo pelo avesso, em que as mesmas linhas compõem o tecido, só quer, no avesso, aparecem seus nós, seus cortes, suas emendas, seu rosto menos arrumado, embora constituinte também da própria malha imagético-discursiva chamada Nordeste”.

Ele aborda a questão das contradições de uma literatura presa a um dispositivo de poder e às sua lógica vivido pelo povo brasileiro. “Na literatura realista, o significado e o significante ficam unidos por ligações inseparáveis. Nesta, a linguagem denotativa impõe um sentido como verdadeiro, enquanto o autor impõe um sentido ao leitor, que tende a participar pouco da construção do sentido da obra. Ela não é uma prosa dialógica, mas monológica, em que as identidades dos personagens são sempre fichadas, em que não se permite a afirmação da negação, que é excluída numa síntese dialética ou conciliada por um trabalho de harmonização pelo uso da linguagem simbólica”.


O Nordeste destes romances é o Nordeste artesanal, no qual o industrial é visto como dramático e feio. Um Nordeste mais dos marginais, dos malandros, dos trabalhadores informais e autônomos. Um Nordeste da fuga do trabalho rotineiro e da disciplina industrial.

Em sua conclusão, Durval Muniz escreveu que o Nordeste é uma invenção recente na história brasileira, se gestou no cruzamento de uma série de práticas regionalizantes, motivadas pelas condições particulares com que se defrontam, as províncias do Norte, no momento em que o dispositivo da nacionalidade, que passa a funcionar entre nós, após a Independência, coloca como tarefa, para os grupos dirigentes do país, a necessidade de se construir a nação. “O Nordeste é, portanto, filho da modernidade, mas é filho reacionário, maquinaria imagético-discursiva gestada para conter o processo de desterritorialização por que passavam os grupos sociais desta área, provocada pela subordinação a outra área do país que se modernizava rapidamente: o Sul”.

“O Nordeste, na verdade, está em toda parte desta região, do pais, e em lugar nenhum, porque ele é uma cristalização de estereótipos que são subjetivados como característicos do ser nordestino e do Nordeste. Estereótipos que são operativos, positivos, que instituem uma verdade que se impõem de tal forma, que oblitera a multiplicidade das imagens e das falas regionais, em nome de um feixe limitado de imagens e falas-clichês, que são repetidas ad nausem, seja pelos meios de comunicação, pelas artes, seja pelos próprios habitantes de outras áreas do país e da própria região”.

Assim a obra de Muniz questiona esta representação regional e a prisão dos discursos a este dispositivo de força que a sustentou e a sustenta. “É preciso fugir do discurso da súplica ou da denúncia da miséria; é preciso novas vozes e novos olhares que compliquem esta região, que mostrem suas segmentações, as cumplicidades sociais dos vencedores com a situação presente deste espaço. Se o Nordeste foi inventado para ser este espaço de barragem da mudança, da modernidade, é preciso destruí-lo para poder dar lugar a novas espacialidades de poder e de saber”.

02 agosto 2018

A invenção do Nordeste (2)


Para Durval Muniz de Albuquerque, a região Nordeste surge na “paisagem imaginária” do país, no final da primeira década do século XX, substituindo a antiga diversão regional do país entre Norte e Sul, e foi fundada na saudade e na tradição. Surgiu da construção de uma totalidade político-cultural como reação à sensação de perda de espaços econômicos e políticos por parte de produtores tradicionais de açúcar e algodão, dos comerciantes e intelectuais a eles ligados. Assim, lança-se mão de topos, símbolos, de tipos, de feitos para construir um todo que reagisse à ameaça de dissolução, numa totalidade maior, agora não dominada por eles: a nação.

A questão da influência do meio era a grande arma política do discurso regionalista nortista, desde que a seca foi descoberta em 1877, como um tema que mobilizava, que emocionava, que podia servir de argumento para exigir recursos financeiros, construção de obras, cargos no Estado etc. O discurso da seca e sua “indústria” passam a ser a “atividade” mais constante e lucrativa nas províncias e depois nos Estados do Norte, diante da decadência de suas atividades econômicas principais: a produção de açúcar e algodão.

Assim, o Nordeste surge como a parte do Norte sujeita às estiagem e, por essa razão, merecedora de especial atenção do poder público federal. O Nordeste é, em grande medida, filho das secas; produto imagético-discursivo de toda uma série de imagens e textos, produzidos a respeito deste fenômeno, desde que a grande seca de 1877. Veio colocá-la como o problema mais importante desta área.

A seca de 1877/79, a primeira a ter grande repercussão nacional pela imprensa e a atingir setores médios dos proprietários de terra, trouxe um volume considerável de recursos para as “últimas do flagelo” e fez com que as bancadas “nortistas” no Parlamento descobrissem a poderosa arma que tinha nas mãos, para reclamar tratamento igual ao dado ao “Sul”. A seca tornou-se a partir daí o problema de todas as províncias e, depois, dos Estados do Norte.

Para o estudioso Durval, que possui pós-doutorado pela Universidade de Barcelona, a produção sociológica de Gilberto Freyre, bem como a dos chamados “romancistas de trinta”, têm no trabalho com a memória a principal matéria. Eles vão tentar construir o Nordeste pela rememoração de suas infâncias, em que predominavam formas de relações sociais agora ameaçadas. Eles resgatam a própria narrativa como manifestação cultural tradicional e popular, ameaçada pelo mundo moderno, e a tomam como expressão regional. Enquanto em São Paulos os modernistas procuravam romper com a narrativa tradicional, assumindo a própria crise do romance no mundo moderno, no Nordeste o movimento regionalista e tradicionalista volta-se para resgatar as narrativas populares, a memória como único lugar de vida para este homem moderno dilacerado entre máquinas, a narrativa como o lugar de reencontro do homem consigo mesmo, de um espaço com sua identidade ameaçada. 


Em seus estudos ele mostra que até nas músicas de Luiz Gonzaga, no trabalho teatral e literário de Ariano Suassuna o Nordeste parece estar sempre no passado, na memória. Para ele, “este Nordeste é uma máquina imagético-discursiva que combate a autonomia,m a inventividade e apóia a rotina e a submissão, mesmo que esta rotina não seja o objetivo explícito, consciente de seus autores, ela é uma maquinaria discursiva que tenta evitar que os homens se apropriem de sua história, que a façam, mas sim que vivam uma história pronta, já feita pelos outros, pelos antigos; que se ache ´natural´ viver da mesma forma as mesmas injustiças, misérias e discriminações. Se o passado é melhor que o presente e ele é a melhor promessa do futuro, caberia a todos se baterem pela voltados antigos territórios esfacelados pela história”.

Para Gilberto Freyre, o ponto de vista regional devia nortear os estudos de sociologia e história, porque a noção de região é aproximada à do meio ou local, habitat, um espaço da natureza sem o qual era impossível pensar a sociedade. A região é vista como a unidade última do espaço. Um espaço genético fundante de qualquer atividade humana. Freyre é também um dos fundadores do discurso que tenta modificar a negatividade das condições ecológicas do Brasil e, principalmente, do Nordeste. Sua visão é oposta à de Paulo Prado, por exemplo, para quem o meio era responsável pela tendência de o brasileiro ser teimoso, taciturno, triste, desconfiado, anulado. Para Prado, a tropicalidade nos condenava ao fracasso como nação, para Freyre ela nos singularizava como civilização, nos dava identidade, nos dava caráter próprio.


01 agosto 2018

A invenção do Nordeste (1)


Vivemos um momento de desidentificação com a memória nacional e regional. O livro de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, “A Invenção do Nordeste e outras artes” (Cortez Editora, 2006) é uma boa prova disso. O trabalho de pesquisa para a realização do doutorado em História na Unicamp, defendido em 1994 apresenta o surgimento de um recorte espacial, de um lugar imaginário e real no mapa do Brasil, que todos nós conhecemos profundamente, não importa de que maneira, mas que nunca pudemos imaginar com uma existência tão recente. E falar do Nordeste é inventariar os muitos estereótipos e mitos que emergiram com o próprio espaço físico reconhecido no mapa composto por alguns estados e cidades. É mobilizar todo o universo de imagens negativas e positivas, socialmente reconhecidas e consagradas, que criaram a própria idéia de Nordeste.


Um trabalho de pesquisa aprofundado que desconstrói foucaltianamente os discursos que deram visibilidade e que tornaram dizível a região nordestina. O que o livro interroga não é apenas por que o Nordeste e o nordestino são discriminados, marginalizados e estereotipados pela produção cultural do país e pelos habitantes de outras áreas, mas ele investiga por que há quase 90 anos dizemos que somos discriminados com tanta seriedade e indignação. Como, por meio de nossas práticas discursivas, reproduzimos um dispositivo de poder que nos reserva o lugar de pedintes lamurientos. “Nós, os nordestinos, costumamos nos colocar como os constantemente derrotados, como o outro lado do poder do Sul, que nos oprime, discrimina e explora. Ora, não existe esta exterioridade às relações de poder que circulam no país, porque nós também estamos no poder, por isso devemos suspeitar que somos agentes de nossa própria discriminação, opressão ou exploração. Elas não são impostas de fora, elas passam por nós. Longe de sermos seu outro lado, ponto de barragem, somos ponto de apoio, de flexão. A resistência que podemos exercer é dentro desta própria rede de poder, não fora dela, com seu desabamento completo”, escreveu no prefácio.

“O Nordeste é tomado, neste texto, como invenção, pela repetição regular de determinados enunciados, que são tidos como definidores de caráter da região e de seu povo, que falam de sua verdade mais interior”. As fontes utilizadas foram desde o discurso acadêmicos, passando pela publicação em jornais de artigos ligados ao campo cultural, à produção literária e poética de romanistas e poetas nordestinos ou não, até músicas, filmes, peças teatrais, que tomaram o Nordeste por tema e o constituíram como objeto de conhecimento e de arte.


Divididos em três capítulos, o primeiro, Geografia em Ruínas acompanha as transformações históricas que possibilitaram a emergência da idéia de Nordeste, desde a emergência do dispositivo das nacionalidades, passando por uma mudança na sensibilidade social em relação ao espaço, à mudança da relação entre olhar e espaço trazido pela modernidade e pela sociabilidade burguesa, urbana e de massas.

O segundo capítulo, Espaços da Saudade, aborda esta invenção regional, o surgimento do Nordeste como um novo recorte espacial no país, rompendo com a antiga dualidade Norte/Sul. A seca, o cangaço. O messianismo, as lutas de parentela pelo controle dos Estados, são temas que fundarão a própria idéia de Nordeste, uma área de poder que começa a ser demarcada, com fronteiras que servirão de trincheiras para a defesa dos privilégios ameaçados.

No terceiro capítulo, Territórios da Revolta, é abordado uma série de reelaboração da idéia de Nordeste, feitas por autores e artistas ligados ao discurso de esquerda. Nordeste gestado, a partir dos anos 30, por meio de uma operação de inversão das imagens e enunciados consagrados pela leitura conservadora e tradicionalista que dera origem à região. Obras como as de Jorge Amado, Graciliano Ramos, Portinari, João Cabral de Melo Neto produzem Nordestes vistos pelo avesso, Nordeste como região da miséria e da injustiça social. Estes Nordestes, construídos pelo avesso, ficam presos, no entanto, aos mesmos temas, imagens e enunciados consagrados e cristalizados pelos discursos tradicionalistas.

18 julho 2018

Um silêncio que grita: Bergman


O cineasta sueco Ingmar Bergman faria no mês de julho de 2018, 100 anos. Sua carreira foi extensa e prolífica, apesar de ter se tornado conhecido mundialmente pelo seu trabalho como diretor de cinema, ele era um homem do teatro, além de exímio escritor. Seus filmes são embebidos em imagens poderosas, violentas, de homens e mulheres lutando para encontrar um sentido em um mundo de confusão e anarquia. Infância, amor e morte sempre foram questões tratadas em sua obra, ora metafísicas ora existenciais. Ao longo dos 60 filmes que realizou, entre produções para cinema e TV (sem falar do teatro), Bergman produziu filmes que vão desde a juventude (Monika e o Desejo, 1952), a morte (O Sétimo Selo, 1957) ou mesmo a política (O Ovo da Serpente, 1979).


Seus enquadramentos trabalhados, os ângulos insólitos, as tomadas de nuvens, lagos e bosques não são jogos gratuitos da câmera. Ele integra à psicologia de seus personagens no instante preciso em que quer exprimir um sentimento preciso. Cineasta do instante, da solidão, das tensões amorosas e da incomunicabilidade, seus filmes são intimistas, profundos e autorais.

Os vigorosos filmes do cineasta sueco das décadas de 50 e 60, incluindo “O Sétimo Selo”, “Persona” e “Vergonha” eram envolvidos em temas teológicos, na luta de seres humanos em chegar a um acordo com a morte em um mundo atormentado em que a religião parecia alternadamente remota, poderosa e instável.


“Gritos e Sussurros” pareceu marcar uma passagem para Bergman, uma transição dolorosa e difícil para uma aceitação de que Deus desaparecera. “Cenas de um Casamento” marcou uma vívida mudança em sua mente, a alma humana. “Fanny e Alexandre” faz um acerto de contas com a Suécia e a tumultuada infância do diretor, criado segundo as rígidas regras de seu pai, um pastor protestante.

O que Bergman, apaixonado pelo teatro, fez foi traduzir em imagens suas inquietações acerca da vida e da morte, de Deus, do tempo e do desejo, da solidão, dos traumas de infância e da inconstância do amor materno.


Ele começou expressionista, descobriu a metalinguagem nos anos 1960 e nos 70 transferiu-se para a televisão. Quem não lembra do cavaleiro que joga xadrez com a morte em “O Sétimo Selo”, o incesto que se faz presente em “Através de um Espelho”, o professor que atravessa planos da realidade e da imaginação para se purgar de uma vida sem amor em “Morangos Silvestre”. Tormentos do sexo e o silencio de Deus são temas recorrentes em seus filmes.

No dia 30 de julho de 2007 o escritor, dramaturgo e produtor sueco Ingmar Bergman morreu calma e docemente, aos 89 anos. O travelling recua ao nascer do sol, a cidade desperta. A câmera busca um rosto em close, e vai silenciosamente se aproximando para os olhos tomados de angústia. E um grito de silêncio se espalha no ar.


15 junho 2018

Crise de identidade


Nesta sociedade tudo se desmonta rapidamente. Tudo é temporário. Nossas instituições, quadros de referências, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades auto-evidentes.

No passado tudo isso se fazia lentamente para ser novamente se enraizado. Agora as coisas todas tendem a permanecer em fluxo, voláteis. E em todos os aspectos a vida humana foi afetada quando se vive a cada momento sem que a perspectiva de longo prazo tenha mais sentido.

Jean Paul Sartre aconselhou seus discípulos a terem um projeto de vida, a decidir o que queriam ser e, a partir daí, implementar esse programa consistentemente, passo a passo, hora a hora. A ter identidade fixa. Hoje, nesse mundo fluído, tal decisão é suicídio.


Se na época da modernidade solida (o passado recente), quem entrasse como aprendiz nas fábricas da Ford iria com toda probabilidade ter ali uma longa carreira, hoje em dia, quem trabalha para grandes corporações de computadores por um salário cem vezes maior não tem ideia do que poderá lhe acontecer dali a meio ano. Antes uma das maiores ameaças da existência humana era a fome e para neutralizá-la só mesmo o alimento. Os riscos de hoje são de outra ordem como por exemplo a deterioração das condições climáticas, os níveis de radiação e poluição, a diminuição das matérias-primas e fontes de energias não renováveis, os processos de globalização sem controle político ou ético.

Se a antiga condição de emprego poderia destruir a criatividade humana (habilidades), mas construía a vida humana que podia ser planejada. O patrão dependia do empregado e vice versa. Hoje nada disso existe. A maioria das pessoas não pode planejar seu futuro por muito tempo. E é dessa forma, a sociedade líquida, que o renomado sociólogo Zygmunt Bauman compreende a complexidade e diversidade da vida humana.

Identidade nacional

A busca de uma identidade nacional aconteceu na cultura brasileira durante o século XX. Poeta e artistas encontraram nossa originalidade na ideia de um brasileirismo afetivo e gentil. Isso é recorrente no luso tropicalismo de Gilberto Freyre com homem cordial de Sérgio Buarque de Hollanda, do macunaísmo de Mário de Andrade à civilização gazosa de Darcy Ribeiro, do populismo carinhoso de Jorge Amado aos malandros e heróis de Roberto da Matta.

A ditadura militar destruiu esse mito do estilo brasileiro. E começaram a desenvolver uma cultura de dublagem. Em vez de produzir, começavam a reproduzir. E descobriram que o inferno, além dos outros, somos nós mesmos. E aí é preciso se reinventar. 

14 junho 2018

Umas & outras


Favor

“A colonização produziu três setores sociais: o latifundiário, o escravo e o “homem livre”. Entre  os dois primeiros, a relação era clara. Mas a multidão dos terceiros, nem proprietário nem proletários, dependia materialmente do favor de um poderoso. Através desse mecanismo se reproduz um amplo setor de homens livres; além disso, a favor se prolonga em outras áreas de vida social e envolve os outros dois grupos na administração e na política, no comércio e na indústria. Até as profissões liberais, como a medicina, que na acepção europeia não deviam nada a ninguém, no Brasil eram governadas por esse procedimento que se transforma “em nossa mediação quase universal”, escreveu o estudioso argentino Néstor Garcia Canclini em sua obra Culturas Hibridas (Edusp, 2013, p.76)

A institucionalização do favor já foi antes analisada por Robert Schwarz no artigo As Ideias fora do lugar (Ao Vencedor as Batatas, Duas Cidades, 1977). Enquanto na Europa havia autonomia da pessoa, universalidade da lei, cultura desinteressada, remuneração objetiva e sua ética do trabalho, o favor no Brasil pratica a dependência da pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada    e a remuneração de serviços pessoais. Ou seja, quando os governantes ajudavam a classe artística através de editais, essa mesma classe ficava subserviente a esse poderoso.

“Hoje, a arte é uma prisão”

Para que a arte possa ter autonomia absoluta é preciso estar inserida em movimentos sociais amplos. Os experimentos dos projetos pessoais, soluções estilísticas, reflexões precisam articular com a história, a cultura popular, preocupações construtivistas, utopias de massas.


“Hoje, a arte é uma prisão”, escreveu em 1976 o arquiteto e artista argentino Horacio Zabala. E ele afirma, com Foucault, que a prisão é uma “invenção”, uma técnica de identificação e enquadramento dos indivíduos, de seus gestos, sua atividade e sua energia. Como a prisão, esse mundo é “um sistema fechado, isolado e separado”, uma totalidade que limita a liberdade excluindo e negando, onde tudo sufoca, da qual não é possível subtrair-se mediante  “a própria imaginação forçada” (Horacio Zabala, “Oggi, l'Arte è una Carcere”, em 2.Russo (ed), Ogio l'Arte è una Carcere?, Bologn, II Mulino, 1982, pp.95-103). Frente à impossibilidade de construir atos, para evitar cair em ritos, a arte escolhe ser gesto.

A prisão como último laboratório. Não há outras saídas senão a submissão ao mercado, a ironia transgressora, a busca marginal de obras solitárias e a recriação do passado. Temos no Brasil mais histórias da literatura que das artes visuais. Mais sobre literatura das elites que sobre manifestações equivalentes das camadas populares.

É preciso que artistas sejam capazes de articular movimentos e códigos culturais de diferentes procedências. Mostrar que é preciso fundir as heranças culturais de uma sociedade, a reflexão crítica sobre seu sentido contemporâneo e os requisitos comunicacionais da difusão maciça.


Simulacro de democracia


Para muitos artistas e críticos, a Bahia vive hoje o simulacro de democratização. Se o artista precisa da ajuda do governo, mas não compatibiliza com seus discursos, ele precisa assinar o termo invisível da operação neutralizadora da crítica. Deve-se aceitar tudo a contragosto. Ou melhor, degustar mesmo com sabor amargo. Assim, o discurso que despolitiza os artistas dissolve sua adesão e, assim, a politica em moral e a moral em arte. Fica o dito não dito, e “tudo bem” na indústria cultural.


O autoritarismo político no mercado cultural transforma as ameaças em discurso adesivo e tudo vira um carnaval. Nesse procedimento formal e mecanismo de distinção denominado arte interage coma maioria sob as regras daquelas que costumavam ser os mais eficazes comunicadores: as industrias culturais, hoje transformada em vazio.

Os artistas e escritores como Octavio Paz e Jorge Luis Borges que mais contribuíram para a independência e profissionalização do campo cultural fizeram, da crítica ao Estado e ao mercado eixos de sua argumentação.


Culturas híbridas


“As ciências sociais contribuem para essa dificuldade com suas diferentes escalas de observação. O antropólogo chega à cidade a pé, o sociólogo de carro e pela pista principal, o comunicólogo de avião. Cada um registra o que pode, constrói uma visão diferente e, portanto, parcial. Há uma quarta perspectiva, a do historiador, que não se adquire entrando, mas saindo da cidade, partindo de seu centro antigo em direção ao seus limites contemporâneos. Mas o centro da cidade atual já está no passado”. (Nestor Garcia Canclini. Culturas Híbridas. São Paulo. Edusp, 6.reimp. ,p.21).


Modernização

No final do século XIX e início do XX houve ondas de modernização impulsionadas pela oligarquia progressista, pela alfabetização e pelos intelectuais europeizados; entre os anos 1920 e 1930, pela expansão do capitalismo e ascensão democratizadora dos setores médios e liberais, pela contribuição de migrantes, pela difusão em massa da escola, pela imprensa e pelo rádio; desde os anos 1940, pela industrialização, pelo crescimento urbano, pelo maior acesso à educação média e superior, pelas novas industrias culturais.


Mas é na segunda metade do século XX que as elites das ciências sociais, da arte e da literatura emitem sinais de modernização sócio econômica. Entre os anos 1950 e 1970 estão as mudanças estruturais: desenvolvimento econômico mais sólido e diversificado que tem sua base no crescimento de indústrias com tecnologia avançada, consolidação e expressão de crescimento urbano iniciado na década de 1940, ampliação do mercado de bens culturais; industrialização de novas tecnologias comunicacionais, especialmente a televisão.

13 junho 2018

Governadores da Bahia (08)


Antônio Imbassahy (1994-1995). ACM deixou o cargo para concorrer ao Senado, ficado Paulo Souto, seu vice, como candidato de sua confiança para sucedê-lo. No entanto, Souto também deixou o posto para se candidatar a deputado, já que na época a legislação eleitoral não permitia reeleição. Dessa forma, assumiu interinamente a liderança do Executivo Estadual o presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, desembargador Ruy Trindade.  A Assembleia Legislativa escolheu Imbassahy como governador. Imbassahy governou a Bahia até 1º de janeiro de 1995, passando o caro para o sucessor e aliado, Paulo Souto, ambos alinhados à família Magalhães.


Paulo Souto (1995-1999). Governador eleito. Sua primeira gestão à frente do Estado foi marcada por grandes programas, como o Bahia Azul, que aumentou de 25% para 80% a cobertura da rede de esgoto residencial de Salvador e foi renomeado pelo atual governo. Além do Bahia Azul, Souto implantou programas sociais como Viver Melhor, Cabra Forte e Pró Gavião.

César Borges (1999-2002). Não concluiu o mandato, para em 2002 eleger-se senador. Renunciou, assumindo o vice, Ottto Alencar.

Otto Alencar (2002-2003). Vice governador.

Paulo Souto (2003-2007). Governador eleito. Neste segundo mandato, iniciado em 1º de janeiro de 003, Souto destacou seu trabalho para o turismo econsolidou a Bahia como uma das principais economias do país com seu governo voltado ao desenvolvimento.


Jaques Wagner (2007-2011). Governador eleito. Uma das obras mais elogiadas da gestão Wagner é o Hospital do Subúrbio, primeiro hospital do país a ser construído em parceria público-privada (PPP). Em 2012, ocorreram greves da Polícia Militar e dos Professores do Estado, essa última com duração de 115 dias (a maior da história da Bahia), as quais desgastaram a imagem de Wagner.

Jaques Wagner (2010-2011). Governador reeleito. Em 2014, a Polícia Militar realizou outra greve no estado, que só durou três dias. Assim que o movimento começou, Wagner pediu a ajuda da Força Nacional, que se deslocou para a Bahia, apesar de não ter diminuído a insegurança da população. Durante o período de paralisação ocorreram 59 homicídios e 156 carros roubados. Desta vez, a imagem do governante não ficou tão arranhada, principalmente devido à prisão de Prisco, mas trouxe novamente não ficou questão da falência da Segurança Pública no estado, considerada o “calcanhar de aquiles” do governador.

Rui Costa (2015-2018). Rui Costa foi escolhido como candidato do PT ao Governo do Estado da Bahia nas eleições 2014, e eleito no 1º turno com 54,53% dos votos válidos. No seu governo houve avanço na construção das estações da linha do Metrô, noscorredores transversais como  Pinto de Aguiar, Orlando Gomes, 29 de Março e Gal Costa. Avançou também nas obras de habitação, contenção de encostas, abastecimento de água e esgotamento sanitário. Mas o estado continua com altos indices de violência, além de outros problemas graves.



12 junho 2018

Governadores da Bahia (07)



João Durval Carneiro (1983-1987). Eleição direta. Definindo-se como sertanejo, o ex-prefeito de Feira de Santana tinha prestígio no interior do estado. Seu grande desafio era enfrentar a seca. Investiu em projetos de irrigação, principalmente em Juazeiro, incentivou acultura da soja no oeste baiano e o desenvolvimento industrial no interior. Conseguiu conciliar o desenvolvimento e o progresso entre o interior e a capital. Combateu a seca com a construção de quase cinco mil poços artesianos atendendo mais de 200 municípios. Assegurou o abastecimento de água em Salvador e de outros municípios vizinhos mediante o sistema Pedra de Cavalo. No setor industrial viabilizou a implantação do polo calçadista e a consolidação do polo de Camaçari. Ao longo do seu governo, a Bahia não conseguiu identificar João Durval como liderança e sim como um liderado do ex-governador ACM.


Waldir Pires (1987-1989). “Eu quero ver um tempo novo, de crescer, de construir, a Bahia vai mudar, trabalhando com Waldir”. O jingle da campanha refletiu bem as propostas de aliança que apoiou Waldir: Mudar a Bahia. Fonte alcançada contra o ex-governador ACM, reunindo Roberto Santos, Joaci Goes, Jutahy Magalhães, Luiz Viana, Mário Kertesz, Nilo Coelho e os partidos considerados progressista. O PMDB encabeçou a aliança. Waldir venceu, derrotando o candidato do governo, professor Josaphat Marinho. A vitória significou uma derrota da arrogância e dos métodos autoritários do carlismo. Mas o Governo da Mudança não aconteceu. Ele parecia perdido administrativamente e lento nas decisões. A inercia governamental irritou milhões de baianos. Renunciou para concorrer ao cargo de vice-presidente, na chapa de Ulysses Guimarães. Em seu lugar, assume o vice, Nilo Coelho, um milionário empresário e pecuarista, sem a ideologia de Waldir e dos progressistas.


Nilo Coelho (1989-1991). Vice governador. Seu curto governo foi marcado por ações no interior do Estado, especialmente onde tinha sua base. Dentre estas, destaca-se a maior ponte do estado, a ponte Gercino Coelho, sobre o Rio São Francisco. Para os moradores de Salvador, porém, maior colégio eleitoral da Bahia, a figura do governador era envarada quase como a de um prefeito e sua administração foi tida como péssima.


Antônio Carlos Magalhães (1991-1994). ACM deixa o Ministério das Comunicações e elege-se, pela primeira vez pelo voto direto, governador da Bahia, tendo apoiado a candidatura de Fernando Collor de Mello na disputa pelo Palácio do Planalto. ACM governa a Bahia pela terceira vez, tendo como vice Paulo Souto. Retornou, agora pelo voto popular, ao governo baiano, derrotando seu arqui adversário Roberto Santos. Pela primeira vez disputando um pleito direto, já dono de vasta rede de telecomunicações, tem como seu adversário o ex-afilhado Roberto Santos. A oposição é derrotada e ACM reconquista o poder ainda no primeiro turno. O carlismo assenta-se, de forma quase definitiva, na Bahia, referendado desta vez pela legitimidade das eleições. ACM não viltou a perder mais o governo do Estado, nele colocando seus aliados, por sucessivos mandatos. Dirigiu então, cada vez mais, suas atenções para Brasília, paulatinamente promovendo a imagem de seu filho Luís Eduardo Magalhães.

Ruy Trindade (1994-1994). O desembargador Ruy Trindade era o presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, quando Paulo Souto deixou o caro, com a renúncia do então governador Antônio Carlos Magalhães, a fim de concorrer ao Senado. Governou a Bahia de abril até 02 de maio de 1994.



11 junho 2018

Governadores da Bahia (06)




Viana Filho (1967-1971). Historiador e político. Eleição indireta, indicado pelo governo militar. Dá início à construção do parque industrial da Bahia, em Aratu, girando em torno da petroquímica (CIA – Centro Industrial de Aratu). Promove algumas reformas no ensino, mas sempre voltadas à construção de salas de aula e não ao preparo efetivo do magistério, a partir de seu governo o Estado assistiu à decadência da qualidade da educação pública, um processo capitaneado pelo regime ao qual se filiara.


Antônio Carlos Magalhães (1971-1975). Eleição indireta. Início do fortalecimento do carlismo. Mão de ferro no governo e na política, seu êxito acaba por introduzir dois termos no vocabulário político estadual: carlismo, para indicar a abrangência de seu comando, e carlista, para designar seus seguidores. Ele trazia a credibilidade de uma bem sucedida gestão na Prefeitura de Salvador. ACM atuou durante a fase do milagre econômico. A Bahia entrou em um processo acelerado de industrialização, com a instalação, em Camaçari, e indústrias no Polo Petroquímico. A Petroquímica foi uma conquista do seu governo. Na Capital, Salvador, governada por um fiel aliado (Clériston Andrade), ACM realiza obras de grande impacto, abrindo as chamadas “avenidas de vale”, modernizando o tráfego da cidade e driblando sua topografia acidentada da parte velha. Também no turismo Salvador deu um importante salto: de 400 apartamentos em 1970, passou para 2400 ao fim de sua administração. Em seu governo ele centraliza em uma só área a administração pública: Centro Administrativo da Bahia (CAB) na Avenida Paralela para desafogar o então congestionamento do centro da cidade.


Roberto Santos (1975-1979). Eleição indireta. Ex-secretário da Saúde do governo Luiz Viana Filho, o professor faz sua estreia na política partidária, coordenando as eleições proporcionais em rôo o estado, vencidas pela Arena. Em seu governo, Roberto Santos implantou os chamados CSUs (Centros Sociais Urbanos), num total de 33 em todo o estado. Esses centros, de cunho declaradamente assistencialista, objetivavam atender às populações de baixa renda. Ainda existentes na estrutura administrativa, entretanto, os CSUs não desenvolvem qualquer papel relevante para as politicas sociais. Construiu em Salvador o Centro de Convenções da Bahia. Na área de educação, celebrou a construção de três mil salas de aula no estado. Duas obras marcaram o seu governo: Hospital Central Roberto Santos e a implantação do Pólo Petroquímico. Sua administração coincidiu com a mobilização das oposições em todo o país, na luta pela redemocratização.

Antônio Carlos Magalhães (1979-1983). Eleição indireta. Gozando de grande popularidade, mantinha sob sua égide a maioria ampla dos mais de 300 prefeitos do estado, de a quase totalidade das bancadas de deputados federais e estaduais – o que credenciam a, pela primeira vez, intervir com voz ativa em assuntos federais, estando no poder o presidente General Figueiredo. Também o prefeito da capital é homem de sua confiança: Mário Kertész – que já lhe servira como secretário, no governo anterior. Estende seu poder também ao Poder Judiciário, ao nomear seu Chefe da Casa Civil, o advogado Paulo Furtado, para o cargo de desembargador – sem que este jamais houvesse exercido a magistratura na Bahia. Este mandato também fora conquistado de forma indireta. Cria o programa de abastecimento popular, através da racionalização do sistema de comercialização de alimentos e de estímulo de atividades hortigranjeira modernos (Cesta do Povo).


08 junho 2018

Governadores da Bahia (05)



Régis Pacheco (1951-1955). Médico e político. Sua administração se destacou pelos trabalhos de implantação da Hidrelétrica do Funil e dos fundos de saneamento e energia. No seu governo implantou as colônias agrícolas de José Gonçalves e de Barra do Choça (então distrito de Conquista), bem como adquiriu o terreno de 240 hectares para a implantação da Escola Agrotécnica Sérgio de Carvalho. Eleito pela coligação PSD/PTB, ele não era o candidato da coligação, entrou de última hora, substituindo Lauro de Freitas, morto em acidente de avião. O fator emocional da população contribuiu decisivamente para sua vitória.


Antônio Balbino (1955-1959). Criar a infra estrutura econômica do Estado, uma das principais preocupações de Balbino, 29º governador baiano. Iniciou, na capital, a construção do Teatro Castro Alves que, prestes a ser inaugurado, sofreu um incêndio. Outra de suas realizações foi o Ginásio de Esportes Antônio Balbino (conhecido por Balbininho). Criou a Comissão de Planejamento Econômico (CPE), o FUNDAGRO (destinado ao fomento agrícola), a COELBA (empresa que durante décadas geriu a distribuição energética no estado, privatizada por Paulo Souto), A MAFRISA (destinado a higienizar os frigoríficos e matadouros), a CASEB (para regular a produção, através de uma rede de armazéns), a TREBASA (companhia telefônica, depois rebatizada como TELEBAHIA e já privatizada), O Banco de Fomento do Estado da Bahia, e o PAMESE (instituto previdenciário, depois transformado no IAPSEB), e a Maternidade Tsyila Balbino – obras todas centradas na Capital, mas com reflexos no interior – boa parte delas visando a um melhor planejamento governamental e execução de políticas públicas eficientes.



Juracy Magalhães (1959-1963). Interventor, general Juracy Magalhães já governara a Bahia em 19-09-1931 a 10-11-1937. Ele dá ênfase especial aos investimentos, estimulou a navegação baiana, construiu pequenas centrais hidrelétricas, no entanto, uma das maiores obras da sua administração foi a do Rio Joanes (adutora e estação de tratamento de água), com financiamento conseguido junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No seu segundo mandato, Juracy se celebrizou por ter legalizado o jogo do bicho que passou a ser fonte de recursos para as obras assistenciais do governo. Ele retorna a prática das audiências públicas, desativado no governo de Balbino.

Lomanto Júnior (1963-1967). Como representante do municipalismo, apoiado pelas classes conservadoras e pela Igreja Católica, é eleito Lomanto Júnior. O caminho para a Governadoria foi pavimentado através de uma campanha municipalista. “Lomanto, esperança do povo, é gente nossa, é sangue novo. Lomanto é renovação, veio do alto sertão; municipalista, filho de agricultor, Lomanto é amigo do pobre, é irmão do trabalhador”. É esta letrado jingle tocado nos quatro cantos da Bahia, que ajudou na vitória de Lomanto Júnior contra Waldir Pires. Na sua administração implantou a reforma industrial e a retomada da industrialização estadual, com a criação e início da instalação do Centro Industrial de Aratu. O setor de transporte teve impulso com a construção de mais de três mil quilômetros de rodovia.

Como gestor estadual, Lomanto fez obras como a estrada federal, conhecida por “Rio-Bahia”, a estrada Feira de Santana-Juazeiro, o Teatro Castro Alves, a ampliação da usina hidrelétrica de Paulo Afonso, a Ponte Ilhéus Pontal, a Reforma Administrativa, eletrificação, abastecimento e saneamento básico em muitos municípios baianos.



07 junho 2018

Governadores da Bahia (04)


Antônio Fernandes Dantas (1937-1938). Interventor federal. Seu governo foi de curta duração (11 de novembro de 1937 a 23 de março de 1938) limitando-se a garantir a ordem pública e a nomear prefeitos municipais e outras autoridades.


Landulfo Alves (1938-1942). Interventor federal. O seu governo deu ênfase ao desenvolvimento agrícola em dezenas de municípios do interior, reestruturou a Secretaria de Agricultura e estimulou a fruticultura e a produção do algodão. A sua ação administrativa se estendeu a outros setores, como a ampliação da malha rodoviária e a urbanização da Capital. Construiu o primeiro aviário da Bahia em Feira de Santana. Isaias Alves foi o educador em sua gestão. Seu período governamental correspondeu aos difíceis anos da II Guerra Mundial e sua fase final se desenrolou numa conjuntura política movimentada, que terminou por provocar fissuras na estrutura do Estado Novo.

Renato Onofre Pinto Aleixo (1942-1945). Interventor federal. Pautou sua ação sobretudo pela reforma judiciária, criando comarcas nas regiões interioranas do Estado, que procurou conhecer, viajando frequentemente a fim de inteirar-se da realidade das diversas prefeituras. De seu governo foi a inauguração do laboratório de análises químicas do estado. Seu governo transcorreu numa fase de intensa atividade política, caracterizada pelos protestos dos setores liberais representados pela Concentração Autonomista da Bahia, cujas origens remontam aos anos 30. A queda de Pinto Aleixo veio junto com a de Getúlio Vargas.

Outros interventores federais que tiveram mandato de curta duração:

João Vicente Bulcão Viana (1945-1946). Governador nomeado.
Guilherme Carneiro da Rocha Marback (1946). Interno.
Cândido Caldas (1946-1947). Interino.


Otávio Mangabeira (1947-1951). Engenheiro, professor e jornalista. Foi vereador, deputado federal, governador, senador e chanceler. Primeiro governador eleito após os anos da Era Vargas. Anti getulista histórico, foi perseguido pelo Estado Novo e chegou a ser exilado. Voltou ao Brasil e nos braços do povo, foi reconduzido ao poder. Dono de uma oratória brilhante e de um intelecto privilegiado, seus discursos eram ouvidos atentamente, por adversários e admiradores. Suas frases, até hoje relembradas, revela uma espirituosidade que contrastavam com o ar sério e polido d homem público. “Pense no absurdo e a Bahia já tem o precedente” entrou para os anais da antologia política nacional.

Sua popularidade vinha de uma simbiose quase umbilical com o povo. Como era de família pobre, entendia os anseios das camadas inferiores e sabia como tratar os desfavorecidos. Lutou para melhorar as condições dos hospitais psiquiátricos e casas de detenção estaduais, construiu estradas para o interior, legou obras de porte como a Fonte Nova, o Forum Rui Barbosa e a Escola Parque Carneiro Ribeiro. Iniciou a pavimentação da orla da cidade e foi o artífice da construção do Hotel da Bahia. Autorizou a instalação de açudes nas zonas mais seca da Bahia. A grande marca de sua gestão foi o respeito ao povo e aos direitos humanos.

Reafirmou-se o prestígio de uma personalidade representativa das elites baianas. No seu secretariado, buscou Mangabeira resgatar as maiores inteligências da Bahia, como Anísio Teixeira (Secretário de Educação), Albérico Fraga (Interior e Justiça), Nestor Duarte (Agricultura), Dantas Júnior, Ives de Oliveira, dentre outros. De seu governo é a construção do Fórum Ruy Barbosa. Algumas ações de seu governo merecem destaque:Na Agricultura: reflorestamento de Maracás e do Rio Jequiriçá; Estação experimental para o cultivo da cana-de-açúcar; Colônia Agrícola de Jaguaquara, dentre outras. Na educação, a construção do maior e mais revolucionário projeto educacional da História do Brasil: o Centro Educacional Carneiro Ribeiro (conhecido por Escola Parque), no mais pobre e populoso bairro da Capital – a Liberdade – concretizando as ideias do educador Anísio Teixeira para uma educação em tempo integral, décadas depois resgatadas em projetos como CIAC, CIESPs, e outros.






06 junho 2018

Governadores da Bahia (03)


Antônio Muniz (1916-1920). Cresceu a insatisfação social e política e surgiram em Salvador manifestações de rua contra a carestia. Greve dos professores e de operários da construção civil.


J.J.Seabra (1920-1924). Alto, cheio de corpo, careca reluzente, fartos bigodes negros. Assim era a figura de Joaquim José Seabra, raposa da política.Seu governo foi marcado por conflitos em Salvador e no sertão baiano. Deu continuidade às obras de urbanização da capital, construindo e inaugurando a Avenida Oceânica, ligando o Farol da Barra ao Rio Vermelho. O Teatro São João sofreu um incêndio. O fato aconteceu no governo de J.J.Seabra que visualizou a grande reforma urbana de Salvador. Nos primeiros anos dessa década passaram a acontecer incêndios misteriosos naquela época como a Biblioteca Recreativa, a demolição da Igreja da Ajuda localizados nas proximidades da Praça Castro Alves que impediam a ampliação da Rua Chile. Em 1928, Seabra saiu derrotado da Bahia e foi exilar-se na França para escapar da perseguição de Artur Bernardes. A única rua que o homenageia mudou irremediavelmente de nome para Baixa dos Sapateiros. Tem ainda o nome de um município baiano, várias ruas e praças do interior do estado. Uma estátua na Praça da Inglaterra, Comércio, passa despercebido aos olhos de muitos baianos.

Goés Calmon (1924-1928). Seabra tenta impedir sua proclamação e posse, provocando conflito com o governo federal. Mesmo assim, Goes Calmon é empossado, ainda na vigência do estado de sítio. Ele realizou um governo dinâmico e inovador para o estado da Bahia. Cuidou da construção de rodovias, ampliação das estradas de ferro. Convidou o jovem Anísio Teixeira para a reforma educacional.

Vital Soares (1928-1930). Buscou a integração e integração e o fortalecimento das relações entre o sistema financeiro, o comércio, a agricultura com a política nacional. Desenvolvimento das ferrovias e estradas de rodagem, navegação e saneamento básico são suas prioridades.

Frederico Augusto Rodrigues da Costa (1930)

Leopoldo Afrânio Bastos do Amaral (1930-1931)

Artur Neiva (1931-1931). Foi interventor na Bahia, em 1931, quando criou o Instituto do Cacau.

Raimundo Rodrigues Barbosa (1931). Interventor federal.


Juracy Magalhães (1931-1937). Interventor federal. Combateu o banditismo no largo sertão baiano. Equilíbrio das finanças, atenção e apoio à agropecuária. Enfrentou a reação das tradicionais lideranças políticas baianas. Mas Juracy consegue costurar aliança, mantendo-se interventoria até ser eleito governador pela Assembleia Constituinte de 1935, que restabelece o processo democrático em todo o País. Tendo como pretexto a descoberta de um plano de conspiração comunista, Getúlio Vargas instala em 1937 a ditadura. Juracy Magalhães renuncia, alegando incompatibilidade com a nova ordem.