02 março 2021

Cognomes nos quadrinhos (02)

Will Eisner foi cognominado o Orson Welles das HQs.

 

Will Eisner (1917-2005) dedicou mais de sete décadas à carreira de quadrinista. O desenhista e roteirista norte-americano é considerado um dos principais responsáveis por elevar as HQs ao status de arte. Ativo no mercado editorial desde quando as tiras e revistas em quadrinhos começavam a se estabelecer, na década de 1930, Eisner atravessou todos os principais ciclos de desenvolvimento da mídia. Como muitos dos artistas da época, Eisner andava em busca de oportunidades nas várias editoras que surgiram para atender o incipiente mercado consumidor. Sem conseguir emprego fixo, acabou abrindo, no ano de 1936, o próprio estúdio, em parceria com um desenhista frustrado, Jerry Iger. Adotando um modelo de produção que viria a ser copiado por outras empresas no futuro, o estúdio Eisner & Iger tinha uma rígida divisão de tarefas, com artistas responsáveis pelos esboços a lápis, arte-final, moldura dos quadrinhos e letreiramento. Entre os artistas que passaram por lá estão Bob Kane e Jacky Kirby, cocriadores de Batman e Capitão América, respectivamente.

 


Já fora da sociedade, criou The Spirit, maior sucesso editorial da carreira e publicado entre 1940 e 1952. Nas décadas seguintes, trabalhou produzindo quadrinhos educativos para o exército dos EUA e, em 1978, aos 59 anos, lançou Um contrato com Deus, uma das primeiras obras no padrão graphic novel (romance gráfico, em tradução literal), termo criado para se referir histórias em quadrinhos mais extensas e elaboradas, espécie de meio termo entre literatura e HQs. O dia a dia era a principal fonte de inspiração para as narrativas gráficas do autor, que se dedicou a escrever e desenhar histórias de pessoas comuns em dramas cotidianos, como brigas de casais, traições familiares ou frustrações profissionais, tendo como cenários ruas, cortiços, metrôs etc. A busca por temas aparentemente ordinários contrastava com a sempre constante busca pela sofisticação estética, até os últimos trabalhos. Mesclando aventura, mistério, comédia e romance, The Spirit era diferente de todos os heróis da época, pela maior carga dramática das histórias e narrativa gráfica sofisticada. O caráter cinematográfico de muitas das composições das páginas não era por acaso: o artista foi influenciado pelo cinema e declaradamente um aficionado por Cidadão Kane (1941). É fácil perceber as semelhanças no uso de enquadramentos e profundidade de campo, algo que o levou a ser chamado de “o Orson Welles dos quadrinhos”. Outra novidade da HQ era o uso das splash pages, cuja ideia era causar grande impacto visual na página introdutória das histórias.

 

Hogarth foi cognominado o Miguel Angelo dos Quadrinhos:

 

O desenhista Burne Hogarth (1911-1996) assumiu o personagem Tarzan, criado por Edgar Rice Burroughs, em tiras de jornais entre 1937 e 1950. Retomando-o depois em dois álbuns considerados históricos: Tarzã dos Macacos e Os Contos da Selva, de 1976. As principais características de seu trabalho com o personagem eram voltadas para o perfeccionismo anatômico – que o levou a ser comumente chamado de o Michelangelo dos quadrinhos – e aa incrível composição de seus quadros, cada um pensado detalhadamente, como se fosse sua obra definitiva. Hogarth definiu quadrinhos coo um “dispositivo complexo para transformar ideias em arte”. Como artista, era associado a Michelangelo sempre por sua preocupação e precisão em retratar a anatomia humana. Mais do que anatomia, Burne Hogarth impressionava pela impressão de movimento e por suas intrincadas composições de cena. Era como um aluno de Michelangelo a serviço da narrativa.

 


Burne Hogarth foi grandemente reconhecido em seu país, tendo recebido o prêmio da National Cartoonist Society de 1975, da Magazine and Book Illustration de 1992 e o Prêmio Especial de 1974 (Special Features Award), além de várias homenagens internacionais. Ele fez palestras, escreveu, criou e teorizou durante seus últimos anos, participando como convidado de inúmeros eventos. Depois de comparecer à Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême em 1996.

01 março 2021

Cognomes nos quadrinhos (01)


Eles são responsáveis por criar alguns dos personagens mais icônicos e memoráveis das Histórias em Quadrinhos e cuja importância e influência atingiu outros segmentos da cultura pop, como televisão, cinema, e até a ciência e o desenvolvimento tecnológico. Passadas décadas, suas obras continuam como uma referência de qualidade tanto para profissionais como para leitores. A paixão pela narrativa gráfica ajudou a elevar o nível das historias em quadrinhos e a fazer com que estas fossem vistas como verdadeiras formas de arte. Alguns críticos definem os autores de quadrinhos conforme seu estilo.

 

Harold Foster foi cognominado de o Griffith dos Quadrinhos:

 


Harold Foster, desenhista de Tarzan e criador do Príncipe Valente foi cognominado de o Griffith dos Quadrinhos. Ele foi o primeiro desenhista de histórias em quadrinhos que utilizou planos, ângulo de câmera, campo e contra-campo. Seu desenho, extremamente realista e vigoroso, deu às histórias uma autenticidade fortalecida pela exaustiva pesquisa de ambientes, vestuário e costumes. Antes dele, ninguém nos quadrinhos tinha feito algo parecido. Foi Hal quem deu ao Tarzan seu visual mais conhecido, estabelecendo uma aparência de nobreza e aristocracia que seria seguida não apenas por todos os quadrinistas que iriam desenhar as aventuras do Homem-Macaco como também pelas adaptações cinematográficas do personagem. Príncipe Valente se tornar um sucesso absoluto graças ao nível incomparável de realismo, detalhamento e perfeccionismo do traço de Foster, fruto de exaustivas pesquisas históricas que incluíam visitas pessoais do artista a localidades para reproduzi-las com exatidão nos seus quadros, e a narrativa contínua e sofisticada das tiras, bem acima dos padrões das HQ’s comuns, também saída da mente brilhante de Hal Foster. Pelo conjunto da sua obra, Foster ainda foi nomeado Cavaleiro do Império Britânico, caso único nas HQ.

 

Benjamin Rabier, cognominado de La Fontaine das HQs:

 

O universo de Benjamin Rabier (1869-1939) é repleto de animais. Em 1906, Rabier publica, pela casa editora de Jules Tallandier, uma edição inteiramente ilustrada das Fábulas de La Fontaine. Ele ilustra também Le Roman de Renard e a Histoire Naturelle de Buffon. Em 1921, Léon Bel transforma um desenho de Rabier em sua marca A vaca que ri. Esse desenho de vaca decorava os caminhões de transporte de carne fresca durante a Primeira Guerra Mundial e foi apelidada de a Wachkyria (a Valquíria), uma brincadeira alusiva às Valquírias, da mitologia nórdica. Todavia, o desenho mais famoso continua sendo o pato Gedeão (Gédéon le canard), cujas estórias foram publicadas entre 1923 e 1939, em 16 álbuns. Projetou Rabier, também, a famosa baleia Salins du Midi. Para a companhia cinematográfica Pathé Baby, entre 1922 e 1925, criou muitos desenhos animados sobre temas de alguns de seus personagens, como o pato Gedeão. Um admirador: o criador belga Hergé. A viagem que Rabier faz até Moscou inspirará Hergé, que o tomará como modelo de Tintim. Rabier já havia criado alguns anos antes o herói Tintin, Lutin, vestido com calça de jogador de golfe. Hergé homenageou seu mestre Benjamin Rabier, na roupa do célebre personagem Tintim.

 

O Hemingway dos Quadrinhos: Milton Caniff

 


Milton Caniff (1907-1988) foi cognominado o Hemingway dos Quadrinhos. Foi também considerado o Rembrandt dos Comic Strips (título de um livro biográfico a seu respeito). O escritor John Paul Adams escreveu: “Milton Caniff é outro Rembrandt van Rijn. No sentido que ele personifica a arte mais popular de seu tempo. E também porque deu uma nova grandeza ao seu veículo”. O criador de Terry e os Piratas e Steve Canyon atingiu o mais puro estado da arte, utilizando nos seus desenhos o contraste entre luz e sombra com um traço inovador inigualável. Sempre foi considerado um dos poucos desenhistas de hqs que conseguiu elevar seu trabalho ao nível de pura arte. Seja no seu traço, técnica de desenhos, na linguagem cinematográfica, ou no seu texto modelar, mas também no seu comportamento como profissional. Sua linguagem de cinema nos quadrinhos, frequentemente levava a comparações com o mestre John Ford. Isso ficou patente quando matou uma das personagens principais da historieta Terry e os Piratas, provocando revolta dos leitores, e, numa tira horizontal, sem divisão de quadrinhos, mostrou o enterro simples da heroína como numa panorâmica “johnfordiana”. Mas, seu ídolo cinematográfico era o mestre Alfred Hitchcock, de quem não perdia um filme. Quando Marilyn Monroe surgiu como sex symbol, o escritor Prêmio Nobel de Literatura, John Steinbeck, citou sexy Madame Dragão como sua preferida. Mas era com Hemingway que Caniff mais se parecia com escritor. Dono de um estilo seco, telegráfico, direto, usando termos precisos e abordando temas “controversos” (como o tráfico de drogas feito por crianças vietnamitas, na guerra), conseguiu um equilíbrio total na colocação de suas aventuras com a realidade da época.

 

 

05 fevereiro 2021

Ideologia reacionária nos quadrinhos de Aninha, a pequena órfã

 

Considerada o primeiro “novelão” dos quadrinhos, Aninha, a Pequena Órfã (Little Orphan Annie) durou 86 anos. Soap Opera polêmica devido às posições direitista do autor. Aninha, acompanhada de seu cão Sandy tinha a proteção do poderoso Daddy. Era a primeira HQ a defender uma ideologia reacionária: defesa da propriedade privada exaltando o paternalismo dos ricos. O tom das aventuras era eminentemente dramático. Essa fórmula agradou ao público leitor. As histórias da personagem de cabelos encaracolados eram parábolas, contos moralistas, cheios de alegorias e caracterizações.

 


Aparecendo em 1924, Little Orphan Annie (Aninha, a Pequena Órfã), a lacrimosa criação de Harold Gray (1894-1968), talvez por personificar a mentalidade tacanha e retrógrada que dominava (e domina ainda) boa parte da população de seu país, foi um dos grandes sucessos dos quadrinhos, sendo desenhada por seu autor até a morte deste, em 1968, e depois tendo sua continuação por outras mãos. Virou até musical na Broadway e produção cinematográfica.

 

Com cabelos ruivos e encaracolados, Aninha personificava a inocência da América. Seus olhos, assim como os dos demais personagens da hq, desenhados com bolas brancas, davam-lhe um ar estranhamente vazio; essa característica do desenho de Gray foi interpretada por muitos críticos da época como uma liberdade dada pelo autor aos leitores, para que estes pudessem fazer livres interpretações e associações das expressões faciais dos personagens.

 

Os enredos eram manipulados pelos editores, basta acompanharmos a trajetória de Daddy Warbucks nas histórias. Logo que apareceu na trama era um ricaço, dono de uma indústria de armamento, depois virou um aventureiro e, por fim, um homem de negócios internacional. Inicialmente ranzinza e casado, teve a esposa suprimida do enredo e passou a se dedicar, com bondade, à pequena órfã. Seu coração foi atingido pela inocência da menina. Toda essa aparente miscelânea foi tomando forma e os sentidos impressos nessa hq ficaram tão claros que, além de provocar críticas severas em sua época, teóricos da área são unânimes em suas afirmações:

 


“As histórias eram parábolas, contos moralistas, cheios de alegorias e caracterizações. (Moya, Álvaro, História da história em quadrinhos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993, p. 55)

 

“Gray, que sempre desenhou Aninha com olhos brancos, foi acentuando na sua série suas convicções políticas de direita extremada, colocando muitas vezes como ‘vilões’ sindicalistas, grevistas ou operários simpatizantes do comunismo”. (Goidanich, Hiron Cardoso. Enciclopédia dos quadrinhos Goida. Porto Alegre: L&PM, 1990, p. 152)

 

“As tiras de Little Orphan Annie são um exemplo da introdução da ideologia de direita nos comics, paternalismo, glorificação do mundo patronal etc”. (Biblioteca Salvat, Literatura da imagem. Rio de Janeiro, 1980, p. 90).

 

“A órfã das pupilas sem luz, sempre perseguida e sempre triunfante, é o pretexto para celebrar as pretensões, os privilégios, os abusos de certa porção da sociedade americana: a necessidade de ganhar muito, o gosto pelas obras de caridade, ou seja, o dinheiro, como fim e como meio” (Buono, Oreste Del. Valentina Crepax 66-68.  São Paulo, 2007, p.7).

 

No pós-guerra Annie falou da bomba atômica, comunismo, rebeldia adolescente e inúmeros outros assuntos sociais e políticos, provocando as reações de clérigos, sindicalistas e outros. Gray acreditava que as crianças deveriam trabalhar, por exemplo. "Um pouco de trabalho nunca machucou nenhuma criança" dizia ele. "Uma das razões da delinquência juvenil é que os meninos são forçados pela lei a vadiarem pelas esquinas e arrumarem encrencas". Sua crença provocou a ira do movimento trabalhista que era a favor das leis contra o trabalho infantil.

 


Apesar disso, Aninha, pela forma sentimental e positiva com que enfrentava perigos e situações difíceis, conquistou leitores no mundo inteiro. Quanto a Aninha, seu modelo de inocência teve sucesso. Não demorou para Annie ser adaptada a outras mídias.

 

Após a morte de Gray, em 1968, muitos artistas desenharam a tira. Annie inspirou programa de rádio (1930), filmes (adaptações em 1932, pela RKO e 1938 pela Paramount) e um musical da Broadway em 1977 (igualmente adaptado para o cinema em 1982, 1999 e 2014). A popularidade da tira declinou e era publicada em apenas 20 jornais quando foi cancelada em 13 de junho de 2010.

 

A última tira era o final de uma história em que Annie tinha sido raptada no hotel por um criminoso de guerra do leste europeu. Mesmo com Warbucks pedindo ajuda ao FBI e Interpol para a encontrar, no final da tira ele já estava conformado para o fato de que Annie não sobrevivera. Infelizmente, ele desconhecia que Annie estava viva e tinha ido para a Guatemala com o captor, conhecido como o Açougueiro dos Balcãs que diz não matar crianças mas que não deixara a menina ir por medo de ser preso. E que ela terá uma nova vida com ele. O quadrinho final da faixa diz: "E aqui é onde nós deixaremos nossa Annie. Por agora."

 

O estereótipo pode não ser verdadeiro, mas é verossímil. E parte da naturalização das características encontradas no entorno social de seu tempo. Aninha, a órfã recicla o mito da Cinderela: a menina órfã que cai nas garras do benfeitor milionário. Surgiu num momento de emergência dos valores burgueses, em meio à recessão americana dos anos 30.

 

“As histórias em quadrinhos – escreveram Waldomiro Vergueiro e Nobuyoshi Chinem no livro Histórias em Quadrinhos e Práticas Educativas – retratam a sociedade em que são produzidas, apresentando e disseminando a visão ali dominante, ou seja, aquele que tem maior possibilidade de ser bem recebida pelos leitores. Nesse processo, gêneros, etnias e outros elementos sociais são simplificados, muitas vezes pela utilização de estereótipos que auxiliam no processo de atingir maior entendimento ou empatia. Ao mesmo tempo, a forma como a representação dos diversos segmentos da sociedade é realizada nas histórias em quadrinhos não é absolutamente estática. Ela recebe, no decorrer do tempo, influências da própria sociedade, num mecanismo de retroalimentação saudável e necessário à sobrevivência do meio”.

 

A aparente quietude das HQs esconde a dinamicidade e a riqueza expressiva que saltam de suas páginas coloridas e transforma esse meio de comunicação impresso em um dos produtos culturais mais ágeis dessa indústria do espírito. E essa indústria organiza a cultura de massa para orientar o indivíduo durante o lazer, convertendo este mesmo lazer no tecido da vida pessoal do indivíduo.

 

O divertimento, inoculado no cerne do lazer, transforma-se ao maior atrativo dos meios de comunicação de massa. As mesmas imagens e palavras, aparentemente inócuas, que encantam crianças e divertem adultos, escondem por trás de suas cores e traços mensagens tremendamente eficazes que nos fazem falar, escrever, amar, vestir e nos portar como os nossos protagonistas preferidos das histórias em quadrinhos.

 

Protegido pela tinta e pelo papel, os personagens das HQs materializam representações que são constantemente retomadas, reatualizadas e normatizadas sob a forma de um simples exercício de leitura. E desse jogo lúdico entre palavra e imagem, retoma, recria e fundamenta modelos e saberes.

 

02 fevereiro 2021

Nildão: o poeta do traço

 

A obra de Nildão nos revela um artista gráfico de respeito profundo pelo trabalho a que se sente chamado. Longe de toda estridência, ele encara seu trabalho plástico renunciando desde o começo tanto afagos do convencional como aos fáceis impulsos do modismo. Seu trabalho golpeia, escava no lado trágico do mundo de hoje para expô-lo sem concessões ou sua verdade.

 


No traço distorcido, contundente, irônico, muitas vezes cruel outras líricas, que deforma e informa, Nildão deixou impresso um retrato desse país numa época marcante de sua história recente.

 

O traço desmascara, escancara, revisa do avesso e expõe os personagens do nosso dia a dia.

Ele condensa sua ação no desenho e desdenha do verbo. E assim Nildão dá, a todos, seu toque implacável do ser humano.

 


Nildão já ganhou inúmeros prêmios em Salões de Humor além de ser premiado no meio publicitário com a vitoriosa campanha de cartuns feita para a Bahiatursa, que o levou a participar como concorrente do Festival de Cannes. Teve poemas selecionados para o projeto Mídia Poesia 1 e 2, veiculado pela Rede Bahia, e uma das frases do livro “Poesia-Remédio contra Azia” serviu de tema para o programa “Saia Justa”, na época apresentado por Rita Lee, Marisa Orth, Mônica Waldvogel e Fernanda Young.

 


Seu site autoral, nildao.com.br  mostra um pouco da obra do cartunista e disponibiliza para o público parte do seu acervo. O site possui uma loja virtual que oferece os produtos criados pelo cartunista tais como: livros, posters, postais e camisetas.

 

Quem desejar conhecer um pouco mais da trajetória de Nildão pode ler o livro Feras do Humor Baiano que lancei em 1997 abordando os trabalhos de Lage, Nildão e Setúbal.

 


Quem quiser conhecer a cidade do Salvador, dos anos 70 aos dias de hoje, você pode abrir os livros de Nildão, que você vai ver cada desenho, cada figura, cada personagem, que mostra a realidade daquela localidade através dos seus desenhos.

 

 

NILDÃO


 

Seu traço é distorcido,

contundente e irônico.

Ás vezes cruel e impiedoso

outras vezes lírico e delicado,

surrealista e atormentado.

 

Assim é NILDÃO

no horizonte de seu desenho

que deforma e informa,

mas sempre palpitando

expressão e vida.

 

Esse é o artista,

narrador requintado,

dono do seu meio de expressão,

capaz de desnudar o sublime e o infame,

a hipocrisia ou a injustiça

que desmascara e escancara.

 

Sendo um poeta do traço

já essa procura inconsciente

e reveladora do ser humano

no começo do seu poema gráfico

 

Nildão é um cartunista, um artista gráfico

 

01 fevereiro 2021

O russo Tishchenko não pode ser esquecido

 

Há 40 anos morria o desenhista russo Nicolay Tishchenko (1926-1981). Ele começou a publicar suas charges no jornal A Tarde. Foram 16 anos de charges (julho de 1958 a março de 1975). Ele ajudou, com suas charges, a perceber as ambiguidades da condição humana, as contradições disfarçadas, os anseios e insatisfações. Seu traço vivo, forte, fixou nossos tipos, usos e costumes sociais e políticos, dando às suas figuras um décor próprio. Preferiu a charge à caricatura, pois inspirava mais o riso do que o terror. Afinal, a caricatura individualiza o ataque, abrindo o flanco a retaliações diretas. A charge política é uma arma de combate que, além de fazer rir, leva o leitor à reflexão, ainda que sob a ótica de desconstrução e do entretenimento.

 


No início – 1958 – ele não entendia o coloquialismo do nosso idioma, mas seu traço forte se destacava logo nas charges que foram publicadas no jornal A Tarde. O russo Tischenko aos poucos foi conhecendo nossa cultura, nossa política e idioma. Preferiu a charge à caricatura, pois inspirava mais o riso do que o temor. Afinal, a política é uma forma de combate que além de fazer rir, deve levar o leitor à reflexão, ainda que sob a ótica da desconstrução e do entretenimento. 

 

Pintor, chargista e publicitário, seu traço era marcado pela sensibilidade européia e, naquela época, foi uma grande sensação no mercado. A repercussão das charges publicadas em A Tarde incentivou o desenhista a reuni-las no livro Charges. Ele publicou dois livros de charges e um dedicado “às crianças grandes”, além de uma série de ilustrações para a Câmara de Vereadores da Cidade. Introspectivo, Tischenko tem trabalhos em guache, aquarelas e esculturas espalhadas por todas as partes do mundo.

 


Os primeiros trabalhos do russo Nicolay Tishchenko foram publicados na Europa, mas foi na Bahia que ele dedicou quase toda a sua vida às charges e ilustrações. Quem desejar conhecer a trajetória desse artista, leia o livro O Traço dos Mestres, premiado com o HQ Mix em 1996.

27 janeiro 2021

Bahia de todos os cantos

 

O mapeamento cultural interno da Bahia começou com os estudos de Nelson de Araújo, pioneiro na preocupação de entender a cultura popular numa perspectiva antropológica. Entre 1986 a 1988 lançou Pequenos Mundos. Um panorama da cultura popular da Bahia em três volumes. Entre os anos de 1997 e 2003 a TV Educativa da Bahia produziu e lançou 18 vídeos-documentários e 8 CDs da série Singular e Plural. Registrou e mostrou a diversidade do interior da Bahia do Recôncavo, do sertão, do litoral. 

 

A série televisiva revela um conjunto de expressões culturais como folguedos, festas e rituais religiosos populares. Desde o folguedo Nego Fugido de Santo Amaro da Purificação, o toré dos índios Kiriri de Mirandela, dos Tuxá de Rodelas, as comemorações distintas em louvor a São Roque: a dos índios Pankararé que organizam uma romaria acompanhada de uma banda de pífanos; a das prostitutas de Riachão de Jacuípe, que realizam um cortejo acompanhado de uma banda de sopro; e as festas organizadas pelos fiéis católicos e adeptos do candomblé de Salvador. E o folguedo também conhecido como Chegança de Marujos.

 


Também nesse período, trabalhando como coordenador de comunicação da UPB, viajei pelos municípios baianos para publicar reportagens no Diário Oficial dos Municípios e do impresso da instituição. Registrei a cultura e a identidade de cada localidade. Alguns desses registros estão no livro Bahia, um estado  d´alma, de 2009. No passeio pela Bahia, mostro a identidade visual de muitos municípios como Porto Seguro, a cidade monumento, Caravelas e o Arquipélago de Abrolhos, Ilhéus a terra dos romances de Amado, Itacaré ótima para o surf, Canavieiras a capital do caranguejo, Valença terra do camarão, Mucugê e o cemitério bizantino, Abaíra e sua boa cachaça, Iraquara cidade das grutas, Lençóis a capital do diamante, Paulo Afonso a terra dos esportes radicais, Juazeiro a capital da irrigação, Tucano e suas águas minerais, Monte Santo a terra dos peregrinos, Barreiras a capital da soja e Bom Jesus da Lapa a cidade santuário, da fé.

 

Também em 2009 o Governo do Estado, através das secretarias do Planejamento e de Cultura (Secult), Fundação Pedro Calmon (FPC) e da Empresa Gráfica da Bahia (Egba), lançaram a revista Bahia de Todos os Cantos com objetivo a divulgação da riqueza e diversidade sociocultural que caracterizam as diferentes regiões do nosso estado, garantindo maior visibilidade à Bahia em todos os seus cantos, recantos e encantos. Depois virou um programa da TVE.

 


Mais de 20 anos depois o antropólogo e poeta Antonio Risério e o sociólogo e jornalista Gustavo Falcón lançam o livro Bahia de Todos os Cantos - Uma Introdução à Cultura Baiana (Editora Solisluna). O livro apresenta uma reflexão sobre as diversas regiões culturais da Bahia, examinando sua formação, seu desenvolvimento e suas especificidades a partir de capítulos como pluralidade e sincretismo, recôncavo afrobarroco, do açúcar ao cacau e “a face hegemônica da Bahia”. A intenção é revelar essa Bahia, muito pouco conhecida, visitando textos didáticos e instrutivos, para que os leitores conheçam mais o Recôncavo, o Sertão, a Chapada Diamantina, o Oeste, o Sul da Bahia.

 


São múltiplas realidades culturais baianas. “Bahia da barca e do aboio, das grutas do sertão e das praias cheias de sol, da seca interiorana e dos aguaceiros litorais, da araponga e do beijupirá, da caatinga e dos manguezais, da marujada e da chula, do saveiro e do carro de boi...” (pag.25). Segundo os autores existe a terra mestiça e unida do litoral mulato e a terra mestiça e seca do sertão mameluco, com os seus vaqueiros e os seus jagunços. Uma Bahia sertaneja, que teria, no umbuzeiro, sua arvore sagrada.

 

O passeio vai da forte presença africana no Recôncavo  (complexo cultural jeje-nagô0 da formação étnica do Vale do São Francisco, basicamente lusitana e ameríndia, passando pela base luso-africana da Chapada Diamantina, da cultura grapiuna, nucleada no eixo Ilheus-Itabuna, da Bahia da pecuária e do pastoreio com sua cultura do couro em Feira de Santana, do planalto de clima temperado de Vitoria da Conquista, do vale sanfranciscano, do litoral norte (cujo isolamento foi rompido com a abertura da Estrada do Coco e da Linha Verde), do Rio Real e o céu do sertão até o oeste. A pluralidade cultural do Estado da Bahia é um fato.

 


Uma pesquisa de fôlego fortalecida por uma rica bibliografia. Mas como consta na capa, é apenas “uma introdução à cultura baiana”. Os dados históricos de muitos municípios estão bem aprofundados, mas faltou identificar as expressões populares das localidades. Como se sabe, cada cidade tem sua marca. As Burrinhas da Bahia vão para as ruas em diferentes épocas do ano e podem ser vistas no Recôncavo, Sertão e Litoral do baixo sul. Já o Nego Fugido é exclusivo do povoado de Acupe, distrito de Santo Amaro. O Mastro Sagrado e Profano tem em Olivença (Ilheus) seu ponto alto. O trança-fitas ou pau de fitas está em Rio de Contas, Utinga e Andarai. Zabiapunga no litoral baixo sul e Recôncavo. Já o Macatum Zê-zê em Mucugê. Tem ainda a lamentação das almas, a festa de Nossa Senhora da Boa Morte, entre muitas outras. Mas a obra de Antonio Risério e Gustavo Falcón é leitura obrigatória para quem deseja conhecer a Bahia.  

 

26 janeiro 2021

Cultura popular e manifestação folclórica

 

“Pedra pisada de preto/luso, bantú, sudanesa/precipício de beleza/reconvexa alegria/ímã de toda utopia/rima de toda riqueza/tudo isso com certeza/só se vê na Bahia//Gente que tira alegria da dor/no batecum do batente/todas as cores de gente/contas de todos os guias/uma nação diferente/toda prosa e poesia/tudo isso finalmente/só se vê nas Bahia” (Só Se Vê na Bahia, de Roberto Mendes e Jorge Portugal)

 

A Bahia revela os encantos das suas manifestações folclóricas e a cultura popular para seus visitantes. Seja nas festas de reis, no samba de roda, na marujada, festa do divino, levada do mastro ou cavalgada. Essa variedade de atrativos faz da Bahia uma atração mundial. Visitantes do mundo inteiro fazem uma viagem ao estado baiano para conhecer as manifestações culturais. A Bahia tem um rico acervo folclórico, desde o bumba meu boi, a chula, os festejos juninos, as famosas micaretas, além das festas da padroeira de cada cidade, emancipação e do enterro do ano (ou reveillon).

 

Há uma cultura dos pequenos mundos com aspectos míticos e ritualísticos presentes n as festas, folguedos e rituais religiosos populares que precisam de uma maior valorização e divulgação. A TV Educativa com a série Bahia Singular e Plural fez esse registro e difusão audiovisual revelando um conjunto de expressões culturais. O Governo do Estado com o projeto Domingueiras  valorizou e divulgou as autênticas manifestações culturais populares da Bahia. Iniciado em 2003, o projeto visitou municípios baianos, onde reuniu, sempre no último final de semana de cada mês, todas as manifestações culturais e o artesanato produzido e os expõem feiras de artesanato e apresentações em praça pública. A musica local, as filarmônicas, as fanfarras e as mais diversas manifestações da cultura tradicional são evidenciadas pelo Domingueiras, que também oferece palco livre e oficinas de arte com especialistas nas áreas de teatro, música, dança e canto coral.

 



IDENTIDADE - Os folguedos, festas e rituais religiosos populares funcionam como elementos de afirmação de identidades locais. Enquanto o sertão da Bahia tem nos penitentes da semana santa um dos elementos mais visíveis, com a religiosidade sertaneja organizada em torno da morte e marcado por rituais para a expiação de culpas e pela sobrevalorização da cruz em detrimento de imagens de santos, a disseminação de folguedos em torno da devoção a São Sebastião (incluindo ternos de Reis, puxadas de mastros e as embaixadas dramáticas conhecidas como Lutas de Cristão e Mouros) se destaca na região do sul. Já a cultura popular do Recôncavo é coreográfica (como mostrou a pesquisa de Nélson de Araújo), onde o povo tem um “gingado no corpo” que vem da pisada no massapé, terra argilosa onde se desenvolveu o plantio da cana de açúcar. Vários cantos religiosos, católicos, foram reelaborados com as músicas profanas de letras picantes, uma forma de satirizar a corte européia e os senhores do engenho.

 


Marujada é o nome de um folguedo também conhecido como Chegança de Marujos. No litoral extremo sul (Prado) e Chapada (Jacobina) são apresentados grupos de marujos e oficiais em uma embarcação imaginária fazendo um cortejo pelas ruas da cidade, batendo pandeiros e tocando violas. Enquanto nas cidades de Saubara (Recôncavo) e Paratinga (Vale do São Francisco) são as Marujadas que apresentam as danças dramáticas quando os marujos encerram episódios cômicos e trágicos relacionados à vida marítima.

 


REISADO - As festas de Reis (também conhecidas como Reisado ou simplesmente Reis) figuram entre os folguedos tradicionais mais difundidos no interior da Bahia e podem ser encontrados em quase todos os municípios do estado, durante o chamado Ciclo do Natal, entre o dia 25 de dezembro e 06 de janeiro, o dia dos Santos Reis Magos. Esse baile pastoril é comemorado em Lençóis, Andaraí, Mucugê, Palmeiras, Barra do Mendes, Morro do Chapéu, Piatã, Seabra, Conceição do Coité, Valente, São Francisco do Conde, entre outras cidades. O Bumba meu Boi é um folguedo popular considerado símbolo do folclore brasileiro e está presente no Recôncavo, no Litoral Norte, Sertão, Chapada e Vale do São Francisco.

 


As Burrinhas da Bahia vão para as ruas em diferentes épocas do ano (Reis, Carnaval, São João etc) ao som de pandeiros, violões, instrumentos de sopro, sanfona e arrastando um animado grupo de foliões. Podem ser vistas no Recôncavo (Jaguaripe, Santo Amaro, Saubara), Sertão (Amargosa, Araci e Irará), Vale do São Francisco (Carinhanha e Paratinga) e Litoral do baixo sul (Taperoá). Já o Nego Fugido é exclusivo do povoado de Acupe, distrito de Santo Amaro. Trata-se de um teatro de rua formado por adolescentes, filhos de pescadores. Eles encenam a luta pela libertação dos escravos.

 

A Chegança de Mouros é uma manifestação inspirada na saga marítima portuguesa e nas lutas medievais travadas pelos europeus contra árabes, turcos e mouros. São encenadas, principalmente por pescadores que representam marujos e oficiais de um navio. O ponto alto do espetáculo são as lutas contra os mouros. É apresentado nas cidades de Saubara, Camaçari (Arembepe), Cairu entre outras. Tem ainda as lutas de Cristãos e Mouros no litoral do extremo sul (Caravelas, Nova Viçosa), folguedo estruturado em torno dos embates dos europeus contra os árabes. As narrativas, ao contrário das Cheganças, não são cantadas. Há um verdadeiro duelo verbal. (Texto do livro Bahia, um estado d´alma que lancei em 2009)

 

25 janeiro 2021

Panorama da cultura popular numa Bahia singular/plural

 

Manifestando na sua cultura através das lendas, crenças, canções, danças, costumes as comunidades do interior baiano vão reunindo um conjunto de tradições e de conhecimento de um povo. Essa tradição passa de pai para filho até chegar aos dias atuais. Do maculelê a dança dos caboclos, da capoeira ao samba de roda, dos cantadores de feira aos aboios de vaqueiros, da cavalgada (onde o cavaleiro tipicamente caracterizado traz o estandarte de São João, dando início os festejos juninos) até a mulinha de ouro. Todos têm um ritual característico.

 



A Bahia é um dos estados que mais valoriza as manifestações públicas do folclore. Festas religiosas ou não, procissões, danças e representações que exteriorizam as crenças e os costumes de um povo. A grande maioria dessas manifestações são religiosas, outras apresentam os costumes dos escravos, a resistência contra a escravidão, a cultura indígena. As manifestações folclóricas funcionam como berço da arte e cultura baiana.

 

As cantigas que acompanham as atividades produtivas manuais, sobretudo agrícolas, são destaques no sertão (Araci, Amargosa, Santa Bárbara, Serrinha, Riachão do Jacuípe e Uauá), Chapada (Morro do Chapéu e Utinga). Embaladas pelas músicas, as pessoas exercitam sua capacidade de expressão política, improvisando versos e entoando canções. Há cantos de colher e pilar café, cantos de farinhada, de lavadeiras, aboios livres, bois de roça cantados nos mutirões para as roças do plantio e colheita de cereais, as batas de feijão e milho, entre outros.

 

Já a dança de São Gonçalo é uma festa em torno desse santo português tido como festeiro, tocador de viola, protetor das meretrizes e das parturientes. Em Carinhanha e Paratinga, além de outras cidades do Vale do São Francisco ela é marcada pela percussão de pequenos tambores artesanais e pelas coreografias que as dançadeiras fazem com arcos enfeitados com fitas. As danças que acontecem próximas de Salvador têm como marca o samba de roda.

 


SANTOS - As festas em homenagem aos santos gêmeos nas cidades de Jequié, São Francisco do Conde e Irará são feitas em torno do caruru tradicionalmente oferecido a sete meninos. E nessa festa que acontece o Lindroamor, nome da bandeira (ou rancho) de foliões que percorre ruas das cidades e vilarejos e trilhas e estradas das roças arrecadando donativos para as festas em homenagem aos santos Cosme e Damião.

 


A Festa do Divino é realizada 40 dias após a Páscoa e celebra a coroação de D.Pedro I. Tem como figura simbólica o Imperador do Divino, geralmente um menino escolhido na cidade o qual é coroado durante o ato da celebração religiosa. Ao culto litúrgico conjugam-se velhas tradições de caráter popular – filarmônicas, desfile de trajes tradicionais, e aspecto folclórico como a marujada, fincada do mastro, levada da lenha e o jarê. A festa do Divino Espírito Santo é um acontecimento religioso/popular que se encontra em quase todos os municípios baianos. Em alguns deles, a festa conserva características grandiosas que foi a sua marca no Brasil Colônia, quando eram organizados pelas irmandades religiosas com muita bebida e comida, procissões, coroação do Imperador Divino, soltura de pesos e a exibição de folguedos tradicionais. Nas cidades de Andaraí, Jacobina e Carinhanha a festa é animada pela dança dos Caboclos. Em Poções é a maior festa da cidade.

 


SAGRADOS - Costume milenar de consagração de territórios por meios de mastros enfeitados, os Mastros Sagrados e Profanos tem em Olivença (Ilhéus) seu ponto alto que ainda hoje a festa guarda elementos da tradição indígena. Durante todo o percurso, uma banda de pífanos acompanha o esforço hercúleo realizado pelas pessoas que vão cortar a árvore e puxar o mastro. Em Andaraí, na Chapada, a puxada do mastro recebe o nome de Rabeia e o grande momento da festa acontece durante a noite, depois do tronco ter sido enfeitado com flores e folhas durante o dia. Dezenas de pessoas jogam o mastro nos ombros e conduzem-no até a praça da igreja. A festa acontece ainda em Rio de Contas e Utinga.

 


Outra manifestação relacionada com mastros de santos é o trança-fitas ou pau-de-fita como se vê nas cidades do Rio de Contas, Utinga e Andaraí. Zabiapunga é o grupo de caretas (mascarados) que faz um cortejo de madrugada, dançando e acordando a cidade com um som atordoante, tirado de enxadas, tambores, cuícas e búzios. No litoral baixo sul (Nilo Peçanha, Taperoá e Cairu) e no Recôncavo (Santo Amaro e Saubara) a festa tem a participação de toda a comunidade. Já o Macatum Zê-zê é uma brincadeira carnavalesca derivada dos antigos quilombos encenada em praça pública em Mucugê. É representada por figuras fantasiadas que aludem a pestes e doenças, desemprego, inflação.

 


A Lamentação das Almas é um ritual religioso das noites de sexta-feira da Quaresma. Os participantes cobrem-se com lençóis brancos para não serem identificados. Vagueiam pelas ruas batendo matracas, rezando e entoando cantos fúnebres. São apresentados em vários municípios. A Festa de Nossa Senhora da Boa Morte na cidade de Cachoeira preserva ainda hoje seus traços característicos, individualizados, marcados pelo sofrimento de um povo que lutou para alcançar a sua liberdade. E é exatamente este o significado da celebração, o agradecimento a Nossa Senhora, pela liberdade conseguida a duras penas, com a realização de várias cerimônias, culminando com a assunção de Nossa Senhora. (Texto dolivro Bahia, um estado d´alma que publiquei em 2009)

 

22 janeiro 2021

80 anos de nascimento de João Ubaldo

 

 

Há 80 anos nascia o escritor, cronista, roteirista, jornalista João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro. Ele nasceu em 23 de janeiro de 1941 na Ilha de Itaparica. Contava apenas um mês e meio de idade quando a família se mudou para Aparatuba, em Sergipe, onde foi batizado e viveu, até os 11 anos. Aos 17 anos ele foi selecionado, com outros três colegas da Faculdade de Direito, para fazer uma viagem a Nova Iorque, devido à boa colocação na turma e aos sólidos conhecimento de inglês, sendo que viajou para aquela cidade antes mesmo de visitar o Rio de Janeiro ou São Paulo. Formado em Direito, nunca advogou. Fez mestrado em Ciência Política na Universidade da Carolina do Norte.

 

O primeiro romance (Setembro não tem se sentido) nasceu quando ele tinha 21 anos e acumulava experiências de repórter e redator nas redações do Jornal da Bahia e Tribuna da Bahia. Aluno aplicado do Colégio Estadual da Bahia, João se revelava inquieto e erudito com os livros de William Shakespeare embaixo dos braços. Participou da revista Ângulos, da Faculdade de Direito da Bahia. Foi a um Glauber Rocha já morto que ele dedicou o seu maior sucesso literário, o romance Viva o povo brasileiro, que sete anos depois, de seu lançamento vendeu mais de 50 mil exemplares. As idas e vindas ao exterior foram para João Ubaldo mais do que viajar de mergulho cultural na literatura e nos hábitos estrangeiros. No discurso em que saudou a posse de Dias Gomes na ABL, Jorge Amado sugeriu que João Ubaldo fosse candidato à próxima vaga. Em 1994 ele ocupou uma cadeira de imortal na Academia Brasileira de Letras. Ele recebeu dois prêmios Jabuti (1971 e 1984, respectivamente, revelação como autor e melhor novela do ano). Ganhou o Prêmio Camões de 2008.

 


Dono de um estilo literário personalíssimo, em que consegue ser regionalista ao extremo e chegando sem atalhos à universalidade, Ubaldo alcançou notoriedade nacional a partir de Sargento Getúlio, publicado em 1971 e que mais tarde virou filme sob a direção de Hermano Penna. Nos outros romances que escreveu - Setembro não tem sentido (romance, 1962), Sargento Getúlio (romance, 1971), Vila Real (romance, 1979), Já podeis da pátria filhos (crônicas, 1981), Política (ensaio, 1981), Vencecavalo e o outro povo (contos, 1984), Viva o povo brasileiro (romance, 1984), Sempre aos domingos (crônicas, 1988), O sorriso do lagarto (romance, 1989), Um brasileiro em Berlim (crônicas, 1995) e O feitiço da ilha do Pavão (romance, 1997) - João não se afasta da baianidade, da brasilidade, logo, da universalidade, A Casa dos Budas Ditosos (1999).

 


O autor também fez incursões na literatura infanto juvenil, com A Vingança de Charles Tibourne (1990) e Vida e Paixão de Pandonar, o Cruel (1983). Fez o roteiro do filme Tieta, dirigido por Cacá Diegues. Escreveu junto com Geraldo Carneiro, um caso especial para a TV, baseado no seu conto O santo que não acreditava em Deus. O sorriso do lagarto foi transformado em minissérie e Viva o povo brasileiro foi levado ao teatro. Suas crônicas semanais são publicadas na revista Manchete e nos jornais O Globo (RJ), O Estado de São Paulo (SP) e A Tarde (BA). Testemunha do povo brasileiro e de suas agruras, João Ubaldo tem um conhecido perfil de boêmio - trocam os bares da Ilha de Itaparica pelos do Leblon, mas mantendo, sempre, a cordialidade do intelectual, do homem erudito, que apesar disso, não ostenta poses e está sempre perto das figuras simples. Sua intimidade com a boemia lhe rendeu homenagens como a da livraria Letras e Expressões, de Ipanema, Rio. O bar da casa foi batizado de Café Ubaldo.

 


A faceta da obra de João Ubaldo que mais se conhece, e que faz par com a imagem unifacetada que geralmente se tem dele, está ligada a um universo pitoresco, caricato, de deboche. Tal característica faz de seus livros autênticos herdeiros, se não os únicos, de um dos elementos essenciais do Modernismo, o eixo propriamente dito do herói modernista, Macunaíma, qual seja, a capacidade de rir de si mesmo. Faleceu no dia 18 de julho de 2014. No Rio de Janeiro, aos 73 anos. (Texto publicado no meu livro Gente da Bahia 2, Editora P&A, 1998)