
Esse poder
de lidar com as
palavras foi um
dos motivos de ele
ter sido tão visado
pela censura nos anos
70: a ausência de liberdade
em “Apesar de Você”
(1970), a existência
alienada em “Deus
lhe Pague” (1971), o
desejo reprimido em “Quando
o Carnaval Chegar” (1972) e,
de parceria com Gilberto
Gil, “Cálice”, o limite
da repressão e da
censura levará ao
silencio: Cálice/Cale-se
(1973) foram algumas das
mais significativas canções
proibidas. Com a
“desrepressão” política,
a partir de 1979, há
uma liberalização no
nível da censura moral,
e começa a haver
o tratamento de temas
até pouco tempo tabus
no âmbito da canção
popular: a prostituição
(“Viver do Amor”,
“Mambordel”), a bissexualidade
(“Geni”), o amor lésbico
(“Mar e Lua”) etc.
Na
canção “Festa Imodesta”, Caetano
Veloso faz uma homenagem
a Chico, o compositor
popularque malandramente
utiliza a “linguagem
da fresta” para dar
o seu recado (“Numa
festa imodesta como esta/vamos
homenagear(...)/tudo
aquilo que o malandro
pronuncia/que o
otário silencia/toda festa
que se dá ou
não se dá/passa
pela fresta da cesta
e resta a vida”).
Nesse contexto de repressão,
se instaura toda uma
semântica de repressão:
boca calada, realidade
morta, mentira, força bruta,
palavra presa na
garganta, peito calado
(Calice); amor reprimido,
grito contido, gente falando
de lado e olhando
pro chão (Apesar de
Você); alegria adiada, abafada
(Quando o Carnaval
Chegar).

“O
que será que me
dá
que
me bole por dentro,
será
que me dá
que
brota à flor da
pele,
será
que me dá
e
que me sobe às
faces
e
me faz corar(...)
o
que me aperta o
peito
e
me faz confessar
o
que não tem mais
jeito de dissimular
e
que nem é direito
ninguém recusar
e
que me faz mendigo,
me
faz suplicar,
o
que não tem medida,
nem
nunca terá
o
que não tem remédio,
nem
nunca terá
o
que não tem receita”
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