
O batuque é a célula-mãe da manifestação musical popular mais importante do país e dele surgiram ramos, afluentes, tendências, que se espalharam por todo o território. Sob nomes mais diversos, ganharam estilos e andamentos próprios, sotaques regionais, assumiram caráter romântico, jocoso, boêmio, patriótico. Na união dos africanos, com baianos e imigrantes italianos surgiria música naturalmente. Do batuque passou para calundus e calhandos, seguiram-se fofa, lundu e fado (ambiente urbano) e jongo, samba e coco (rural), passando pela modinha, lundu-canção, maxixe e choro até chegar na vertente atual do samba, seja samba-canção, samba-enredo, samba de roda, samba de breque, samba funk ou samba reggae.
Com a gravação de Pelo Telefone, o samba dava o primeiro passo para abrir a porta de saída do gueto negro e ganhar as ruas. Parodiando jocosamente, usado como veículo publicitário, assobiado nas ruas e cantado nas festas ricas e pobres, o primeiro samba cumpria seu papel de pioneiro desde a primeira vez em 1916, quando foi notado por um público maior que aquele frequentador do casarão comandado por Tia Ciata, a mãe do samba. No ano seguinte foi gravado e abriu um capítulo novo na história da música popular brasileira, provocando uma série de imitações - quando não plágios - de tímidos seguidores. Gradativamente fez escola, tomou forma, criou estilo, empolgou poetas populares e mesmo eruditos, trouxe músicos da melhor qualidade para seu redor, deixou de ser considerado marginal ganhando respeito como arte popular e status de gênero musical por meio do qual o mundo reconhece o Brasil.
A carreira de um dos mais celebrados intérpretes da música popular brasileira não ficou perdida graças a introdução do fonógrafo no Brasil. O fonógrafo foi responsável por ser possível avaliar a obra do cantor Bahiano, logo após a implantação do aparelho no Brasil. Quando em 1903 Fred Figner, o proprietário da Casa Edison, fez editar o primeiro catálogo comercial de discos de sua fábrica, quem encabeçava a lista das primeiras 73 gravações era exatamente Bahiano, por ele contratado - junto com Cadete, outro intérprete popular - para ser o primeiro a gravar comercialmente no Brasil. Em 1904 o jornal Echo Phonographico, de São Paulo, estampava uma foto e prestava uma homenagem ao cantor Bahiano, “primeiro cançonetista brasileiro”.
Primeiro cantor a se profissionalizar no Brasil, gravou também o primeiro disco, que substituiu os cilindros gravados, como de hábito na época, em apenas uma das faces. Esse registro foi feito com o lundu de Xisto Bahia, Isto É Bom, no selo Zon-O-Phone nº10.001. Entre 1902 e 1904, Bahiano gravou três discos: a canção Ave Maria (letra de Fagundes Varela), a cançoneta Art Nouveau e a modinha Querida Flora. Sendo o artista mais popular de seu tempo, Bahiano fez sucesso até meados dos anos 20, gravando composições consideradas clássicas entre as centenas de sua discografia. A modinha Perdão Emília, de Eduardo das Neves, o tango de Arthur Azevedo, As Laranjas da Sabina, e a toada Cabôca de Caxangá, de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, são exemplos.
O samba Quem Vem Atrás Fecha a Porta, de Caninha, foi gravado com sucesso por Bahiano em parceria com a cantora Izaltina. Ao lado de Maria Marzulo ele gravou O Casaco da Mulata. Bahiano cantou sobre muitos motivos de sua terra, e uma de suas características era falar de si próprio em algumas canções que gravava. Um bom exemplo disso é o lundu Baiano Dengoso em que a figura do baiano é citado na música nada mais é do que o próprio cantor. Sua autoria é anônima: “Sou baiano/sou cabra dengoso,/sou baiano de todos querido,/sou baiano, sou forte e manhoso,/sou baiano, sou bem decidido.//Sou baiano que tenho capricho,/é notório por todos sabido,/sou baiano e não quero rabicho,/pois rabicho é tempo perdido”...
Outro lundu gravado por Bahiano tem como título A Farofa. Música de melodia alegre traz em seus versos um pouco de malícia. Ele também gravou Ai Seu Mé, Goiabada, Luar de Paquetá, Tatu Subiu no Peru e Chora, Chora, Choradô. No final da carreira grava Quem Eu Sou, lamentoso e autobiográfico: “Quem eu sou?/Um baiano atirado/Nessas vagas soberbas do mar/Já sem leme, bem perto da rocha/Desse abismo que vai me tragar”- e fecha com uma fala inesperada: “Canto há tantos anos e nunca arranjei nada. Finalmente, consegui um empregozinho nesta casa, com o que vou vivendo, graças a Deus”. Bahiano morreu no dia 15 de julho de 1944, no Rio de Janeiro. Sua carreira chegou ao fim como começou, humilde. E hoje poucos se lembram dele. (Biografia publicada no livro Gente da Bahia, de Gutemberg Cruz)
2 comentários:
Olá, Gutemberg
prazer imenso reencontrá-lo, ainda mais em situação tão oportuna.
Parabéns pelo blog, pelo post sobre o Ba(h)iano e pelo livro fonte (que não tive a oportunidade de conhecer ainda, mas que já me despertou o interesse várias vezes).
Estou ressuscitando um antigo projeto, que ficou aí estagnado, apesar de até razoavelmente bem indexado na net: o site
"Linha do Tempo da Invenção Musical". Agora estou convertendo-o em um blog
(http://tempomusica.blogspot.com) e gostaria de linkar o seu trabalho e de contar com a sua colaboração no que for possível.
Desejando-lhe um Feliz 2009!
Abraços,
Roberto Luis.
Olá, Gutemberg!
Fico muito feliz em ver a história do meu tataravô na internet.
Infelizmente ele não é muito lembrado no mundo musical...Mas deveria ter reconhecimento pelo seu talento e grande feito!
Abraços!
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